O gás metano é o segundo maior contribuinte para o aquecimento da Terra, logo depois do dióxido de carbono (CO2). Estima-se que 70% das emissões desse gás provenham de atividades humanas, entre elas a pecuária. Animais ruminantes, como vacas e bois, eliminam gás metano de forma natural em consequência de flatulência ou arrotos. Por isso, cientistas estão dedicados a entender como as mudanças na dieta desses animais podem ser importantes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, garantindo desempenho e sustentabilidade dos sistemas de produção agropecuária.

Recentemente, apresentamos uma planta forrageira útil para nutrição animal, chamada Botão de Ouro, de nome científico Tithonia diversifolia. Na ocasião, explicamos o quanto esta planta – estudada por cientistas da Universidade Federal de Viçosa – está ajudando produtores rurais a criar sistemas mais sustentáveis para a pecuária brasileira. Parte desses estudos, contaram com a contribuição do professor Alex Chaves, da Universidade de Sidney. Desta vez, conversamos com este cientista para entender os caminhos da pesquisa sobre nutrição animal e microbiologia.

O uso do óleo de pequi

Alex Chaves iniciou a carreira de pesquisador na UFV, mas vive fora do Brasil há cerca de 20 anos. Já desenvolveu e participou de pesquisas sobre ruminantes na Nova Zelândia, Canadá, França, Alemanha e Austrália. Mais recentemente, estuda a inserção de óleos essenciais e extratos vegetais na nutrição de bovinos para reduzir a produção de metano. De acordo com o pesquisador, a suplementação lipídica é uma estratégia promissora.

Rusitec: aparelho usado para simulação ruminal. Foto: Arquivos do pesquisador

Em estudo publicado no ano passado, a equipe do cientista relata a experiência de uso do óleo de pequi na nutrição em conjunto com a redução da temperatura de incubação. A pesquisa usou uma técnica de simulação da ruminação animal (Rusitec). Isso significa que toda a pesquisa é feita em laboratório. Foi coletado o líquido ruminal de uma vaca e inserido no simulador para “interagir” com o óleo vegetal.

Assim, os cientistas simularam in vitro um grupo de bovinos alimentados com suplementação desse óleo e outro sem esta dieta controlada. Também variaram as temperaturas de incubação com o objetivo de avaliar características de fermentação e comunidades microbianas nos processos digestivos dos ruminantes. A simulação foi realizada em um laboratório na Alemanha e a vaca doadora recebeu cuidados de acordo com as diretrizes da legislação do país. Testes com animais foram feitos no Brasil, em parceria com a Embrapa, mas a coleta de resultados ainda está em fase de finalização.

“A suplementação lipídica tem capacidade de mitigar o metano em ruminantes porque afeta diretamente as bactérias, protozoários e as árqueas. Estas últimas são responsáveis pela produção de metano. Fiz testes de incubação in vitro com o óleo de pequi, em 2014, juntamente com a Embrapa e a Universidade Federal de São João Del Rey. Nesses ensaios, obtivemos respostas positivas de redução de metano quando usávamos óleo de pequi”, explica Alex Chaves.

Ele ainda afirma que o uso do pequi para dar visibilidade a um vegetal original do Cerrado brasileiro. Aliás, o pesquisador tem um carinho especial pelo pequi. “Eu adorava o prato mineiro arroz com pequi quando morava no Brasil. O óleo tem uma cor linda e características diferentes que não existem em produto nenhum no mundo. É um uso inovador na ciência.”

Resultados

De acordo com Alex Chaves, o óleo de pequi tem alto teor de ácidos graxos insaturados. Esse perfil da composição química permite – durante os processos digestivos do bovino – a “captura” de hidrogênio, que por sua vez, é substrato para produção de metano. Portanto, menos hidrogênio pode significar menor produção de metano.

Especificamente no estudo feito na Alemanha, o resultado obtido foi de redução de 57% na produção de metano após a diminuição de 4 graus temperatura de incubação. Isso significa que o controle de temperatura foi mais importante do que o uso do óleo vegetal.

A suplementação de lipídios na dieta aumentou o teor de gordura para 6%, mas não afetou a produção de metano. A análise de microbiologia no processo mostrou que a temperatura de incubação em 35 graus afeta a diversidade de bactérias e árqueas.

De acordo com o pesquisador, a aplicação das técnicas de mitigação de gases do efeito estufa em fazendas ainda está distante porque depende de incentivos ou financiamentos governamentais.  “Para usar essas estratégias, o produtor precisa de incentivo, pois qualquer mudança no sistema de produção impacta muito o retorno financeiro do fazendeiro”, explica.

Fotos de bovinos feitas pelo professor Alex Chaves durante viagem entre as cidades de Fussen e Garmisch, na Alemanha. Imagens apenas ilustrativas

A história do cientista

Alex Chaves é graduado e mestre pela UFV. Em 1997, foi aprender inglês na Califórnia (EUA) – o que marcou o início da vida no exterior. Depois, foi morar na Nova Zelândia, onde trabalhou voluntariamente em 16 projetos de pesquisa. Teve um breve retorno ao Brasil, mas voltou à Nova Zelândia ficando quatro anos para fazer doutorado em ciência animal.  O pós-doutorado foi na França, onde morou por um ano, antes de ir ao Canadá. Neste país, ficou por três anos com pesquisador visitante já envolvido em trabalhos sobre ruminantes, óleos essenciais e gases do efeito estufa.

No entanto, o cientista gostava mesmo era da Austrália. Durante o doutorado na Nova Zelândia, passava as férias na cidade de Sidney. Nessas viagens, visitava universidades procurando oportunidades para pós-doutorado. O sonho de morar em Sidney se concretizou 10 anos depois. Em 2008, saiu do Canadá porque passou em um concurso na Universidade de Sidney, onde trabalha até hoje.

Contamos mais histórias do cientista no Minas Faz Ciência Infantil. Além de pesquisador, ele é ciclista e aproveita as viagens a trabalho para explorar paisagens incríveis de bike.

Fotos de bovinos feitas pelo professor Alex Chaves durante viagem entre as cidades de Fussen e Garmisch, na Alemanha. Imagens apenas ilustrativas