Repensar os ciclos de produção que envolvem plantas e animais, para atender as necessidades, humanas é uma tarefa de todos nós. A ciência, é claro, contribui muito para este debate. Cientistas estão ajudando produtores rurais a criar sistemas mais sustentáveis para a pecuária brasileira. Em Minas Gerais, pesquisadores da Universidade Federal de São João Del-rei (UFSJ) estudam fontes de alimentação para o gado que mantenham os animais bem nutridos e causem menos impactos ao meio ambiente.

A maioria dos agropecuaristas usa capins e outras plantas com alta capacidade produtiva e que, ao mesmo tempo, contribuem para enriquecer a qualidade nutricional das pastagens. O objetivo final é, quase sempre, melhorar da produção animal. Entretanto, as opções de forrageiras oferecidas pelo mercado exigem o uso fertilizantes para alcançar bom potencial produtivo. Essa adubação onera os custos de alimentação do gado, consequentemente, os gastos do fazendeiro para produção de leite ou carne.

Pensando nisso, um estudo conduzido pela UFSJ identificou uma planta forrageira útil para nutrição animal, ainda pouco explorada no Brasil, mas já difundida em outros países como Colômbia, México e Argentina.  É o Botão de Ouro, de nome científico Tithonia diversifolia da família das Asteraceaea.

De acordo com o Rogério Martins Maurício, coordenador da pesquisa, a planta sobrevive em solos ácidos e com poucos nutrientes (Exemplo: fósforo), além de suportar climas secos. Ela cresce em abundância e é bem aceita pelos animais. É plantada a partir de sementes ou estacas, possui alto teor de proteína e fibras de qualidade.

Vivência no exterior

Antes de iniciar o projeto de pesquisa, Rogério Maurício fez viagens técnicas aos três países que já usavam o vegetal para essa finalidade. “Nesses locais vi o início dos trabalhos de uso do Botão de Ouro feito por pequenos produtores de bovinos leiteiros. Evidenciei nessas viagens que essa planta cresce em solo e clima bons ou ruins”, explica o pesquisador.

Botão de Ouro, Albizia e pasto de estrela africana na Colômbia Foto: Enrique Murgueitio, CIPAV

Rogério Maurício enfatiza que não é responsável pela descoberta desse vegetal, pois pequenos produtores da Colômbia já faziam uso do Botão de Ouro dentro de um projeto de extensão da Fundación Centro para la Investigación en Sistemas Sostenibles de Producción Agropecuaria (CIPAV). O professor tem uma parceria com essa instituição, o que permitiu o contato com o uso da planta. Ele observou que, no Brasil, a espécie nasce espontaneamente em várias regiões, até mesmo em terrenos baldios.

A equipe de pesquisa coletou a planta em várias regiões no entorno da UFSJ. Os cientistas fizeram um trabalho de prospecção para verificar variações da espécie e perceberam que havia certa uniformidade no Botão de Ouro. Eles também identificaram o momento correto de colheita para alimentação animal. Assim, seguiram a pesquisa com a plantação de um hectare da espécie, instalando no Brasil o primeiro experimento com plantio da Tithonia diversifolia para uso em alimentação de vacas.

Essa etapa contou com financiamento da FAPEMIG, apoio da Embrapa Gado de Leite – que forneceu instrumentos, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Barbacena – que cedeu o terreno e as vacas, e The University of Sydney (Austrália) – que enviou um especialista em estudos sobre gás metano produzido em ambientes pecuários.

Os pesquisadores foram retirando gradativamente a ração – parte mais cara da dieta das vacas – e acrescentando o Botão de Ouro. A planta foi capaz de reduzir em 11% o uso de ração sem alterar a produção de vacas leiteiras (média de 22 litros/dia). Ademais, o vegetal apresentou alto valor nutritivo (15% de proteína). Assim, o uso do Botão de Ouro contribui não somente para reduzir custos para a produção do leite, mas também para enriquecer as opções de forrageiras ao pecuarista mineiro.

Biodiversidade

“A biodiversidade brasileira é muito grande. É preciso despertar o produtor para outras plantas com potencial de nutrição. Até pouco tempo, as únicas fonte de alimentação das vacas eram a silagem de milho, as gramíneas, principalmente as Brachiarias. O Brasil tem uma biodiversidade que é pouco explorada na pecuária”, comenta o pesquisador.

Segundo o Rogério Maurício, também ficou evidente que, mesmo usando o Botão de Ouro na nutrição animal, a composição do leite produzido era a mesma. Por fim, um ponto extremamente vantajoso do uso de Botão de Ouro: não permitiu o aumento da produção de metano, o gás que contribui com o efeito estufa e aquecimento do planeta.

Conforme o coordenador do projeto, quanto mais capim se usa para alimentar o gado, maior a produção de metano. É preciso, segundo ele, estar atento à sustentabilidade da produção. “Quero que a produção seja feita com menor quantidade de insumos, mas atentando aos problemas contemporâneos, principalmente, os efeitos das mudanças climáticas gerados no ambiente”, alerta.

Sistema silvipastoril 

Os estudos de Rogério Maurício estão focados em sistemas silvipastoriis, aqueles que incrementam a produção de biomassa da pastagem com capins, arbustos e árvores. “A crítica do mundo ao Brasil é que emitimos muito gás metano com a criação de gado. Mas minha ideia é que o ambiente da pecuária tenha árvores nativas ou mesmo exóticas para pastagem, arbustos, gramíneas e leguminosas. A vaca estará quase camuflada por esses três estratos e na sombra”, explica.

Botão de ouro e eucalipto. Foto: Leonardo H. Calsavara/Arquivo Pessoal

Num outro estudo, em parceira com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Rogério Martins e um colombiano, orientando de doutorado, vão medir as trocas gasosas de sistemas de produção para identificar as emissões de uma forma mais completa. “Os animais estão emitindo metano, mas as plantas estão sequestrando carbono. Minha hipótese é que, neste tipo de sistema silvipastoril, a emissão de carbono é neutralizada. A mensuração de gases do efeito estufa não pode ser feita separadamente, analisando apenas a vaca”.

Essa medição mais completa já é feita na Austrália, segundo o pesquisador. Ele trouxe a ideia de lá e agora vai iniciar os trabalhos em parceria também com o Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena/USP). Serão instalados aparelhos medidores em sistema silvipastoris aqui de Minas – um deles na cidade de Coronel Xavier Chaves, Região Central do estado. Lá existem produtores cultivando Botão de Ouro e usando capins e árvores nativas para alimentação do gado e produção de leite.

Um deles descobriu o Botao de Ouro por meio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado Minas Gerais (Emater-MG). Um técnico da empresa foi aluno de Rogério Martins na universidade e espalhou o conhecimento para o pecuarista. “Este é um reflexo do projeto na formação de recursos humanos com visão sustentável”, se orgulha o pesquisador.

Além de levar este recurso para produtores, o projeto de pesquisa colhe outros frutos. Os cientistas já apresentaram trabalhos sobre Botão de Ouro em três congressos internacionais e publicaram um artigo em uma revista de alto impacto para estudos na área de agropecuária.

O olhar da ciência

Rogério Maurício afirma a urgência em despertar nos cientistas a visão para as necessidades humanas, ambientais e sociais. “Precisamos ter o olhar para a biodiversidade tropical. Temos que procurar plantas adaptadas a condições edafoclimáticas tropicais que tenham algum potencial. A pesquisa tem que ser voltada para problemas contemporâneos, como as mudanças climáticas.”, afirma.

O Botão de Ouro é um bom exemplo porque a capacidade de crescer em solo com baixo teor de fósforo o faz atrativo para os pecuaristas, pois não precisariam gastar com adubo. É possível focar em mais equilíbrio entre produzir e preservar.

De acordo com Rogério Maurício, o adubo brasileiro é feito de insumos que vêm de outros países e não dá para dependermos somente deste modelo de importação para manter a pecuária brasileira. “Não é possível que vamos continuar pensando em pesquisas sobre adubar e produzir mais”, conclui.

Entenda:

Condições edafoclimáticas: local, solo, clima e disponibilidade de água e outros os fatores a serem considerados quando se pensa em cultivar plantas.

Gás metano: o segundo maior contribuinte para o aquecimento da Terra, logo depois do dióxido de carbono (CO2). Estima-se que 70% das emissões desse gás provenham de atividades humanas, entre elas a pecuária. Animais ruminantes, como vacas e bois, eliminam gás metano de forma natural em consequência de flatulência ou arrotos.

ESTAMOS FAZENDO UMA PESQUISA. PARA PARTICIPAR, BASTA CLICAR NA IMAGEM ABAIXO.