MicrouniVersos | Lavradio

Veludosa e carmim – qual carícia de mãe –, a maçã concentra décadas de investigação genética.

À cata do exótico sabor da fruta, marcado por equilibrados taninos, Alice dedicou dias, noites, bites e pesadelos.

Eminência em estratégias para aprimoramento de espécies transgênicas, fez ruir modelos, lógicas, paradigmas.

Em busca dos mastodônticos mercados chineses, analisou solos, adubos, irrigações, calagens e terraceamentos.

Deu vida a mangas sem caroço, beterrabas azuis e bananas de metro. Reflorestou desertos, mareou sertões. Entregou ao vento o incauto dom de perpetuar nasceres.

Confidente das chuvas, vate das fertilidades, maga dos laboratórios nanoinovadores, transformou pântanos em terra roxa.

Assim como se permitiu germinar, na insossa planície de sua aridez cotidiana, a ondulante sinfonia dos cachos de Lara.

“Mamãe, por que o grãozinho cresceu tanto na minha nuvem de algodão”?

Mesmo que profunda sabedora de meios e fins, Alice nada conseguiu responder. Entregou-se, pois, à lavragem de silêncios.

Certas culturas, afinal, não se desenvolvem nos latifúndios da palavra.

Semente imune a rigores, amor desabrocha, de verdade, em terreno baldio, pedregoso.

Na incandescência de uma das manhãs do mundo, ele, simplesmente, brota.

E pronto.

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