MicrouniVersos | A meta

Espalhados por braços, tronco e pernas, eletrodos garantem-lhe ares de divindade pós-moderna. Em respiração cadenciada, corre como nunca: sobre a esteira nanoergocinética, entrega-se à árdua tentativa de ultrapassar a si mesmo.

Talento e musculatura, neurônios e sensibilidades meticulosamente enlaçados às maquinarias do futuro. Inovação, esforço e magia em lasciva bolinação.

Arquitetado em nome da vitória, sob os auspícios da fisiologia esportiva, Divino é centroavante do gigantesco Austral Futebol Clube.

Ele nada teme. Ele jamais desiste.

O coração divinal contrai-se à perfeição. Seus tendões tramam dribles audazes, conforme a labiríntica adversária. Sua mente antevê gestos, espasmos, ângulos, vacuidades.

Ele nada sente. Ele jamais se equivoca.

No dia especialíssimo, o presente dos deuses. Minuto final. Pênalti indiscutível. Setenta mil alucinados, em uníssono, a estrondear o nome do craque. A glória mundial carece, humilde e recatada, de um mísero tento.

Impassível, Divino posta-se diante das traves. Com pulsos de aço, estaciona a pelota sobre a airosa verdejante. Infla pulmões, calibra retinas, calcula, inclemente, o atropelo ao sono da coruja à esquerda.

Desenganado de esperanças, o guardião inimigo coça o cocoruto, incomoda São Judas Tadeu, escolhe um qualquer lugar a esparramar o desajeitado corpanzil. Incomoda-lhe, de antemão, o sarcasmo da feiticeira derrota.

Apito, enfim, a estrilar, agudamente, a paz do vento.

Os músculos do homem-Deus em direção à redonda. Precisa articulação. Irretocável movimento.

Mas, ops! Montinho imprevisto entre chuteira e bendita.

Lentinha, lerdinha, a pelota se amiga, num doce chamego, às mãos de pelúcia do mais novo – e boquiaberto – arqueiro campeão.

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