MicrouniVersos | A noite da Esfinge

Especialista mundial na caleidoscópica escrita do grande autor norueguês, Sofia assimilava, como poucos, as herméticas nuances de toda aquela sintaxe (trans)poética.

Sob suas retinas analíticas, labirintos semânticos, estruturas multimodais ou versificações imprevistas – com ares de Dante, reflexos de Goethe e arroubos de Joyce – acabavam dissecados, elucidados, desanuviados de enigmas, senhas, intenções.

Nada lhe escapava ao irrefreável exercício da erudição. Tudo se revolvia ao avesso. Sob o jugo de seu invejável método, a escuridão das narrativas derretia-se em translucidez.

Daí os prêmios, as honrarias universais. E as cerimônias e as homenagens e os títulos e os discursos de gratidão incomensurável. Daí a certeza do emérito talento para a dissecação de estruturas, almas, reificações, estratagemas literários. Daí a magnífica tessitura da glória sobre olhos entumecidos de sagacidade e saber.

Daí a noite imprevista. E a ignorância a cegar a Lua imensa.

Especialista mundial na caleidoscópica escrita do grande autor norueguês, Sofia leria dez mil vezes, sem nada compreender, o esquálido duo de vocábulos, hieroglifamente rascunhados no mais banal dos guardanapos, ainda sujo de batom, café e silêncio: “Não voltarei”.

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