Expedição Rio Doce - Imagem capa
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Mal apontavam os primeiros raios de sol no horizonte, e eu já acordava, naquela terça-feira, 8 de maio de 2018. Etapa do projeto Mycoendosimbiosis: preservação da biodiversidade de fungos endofíticos e suas plantas hospedeiras presentes em fragmento nativo da Mata Atlântica do estado de Minas Gerais”, a expedição ao Parque Estadual do Rio Doce (Perd) começaria cedo: 7h30.

Antes de partir, porém, muito trabalho aguardava a equipe, composta por seis pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Afinal, é preciso organizar os materiais necessários às coletas, a serem realizadas durante os três dias de expedição: sacos plásticos, lamparina, podão, fita crepe, tesouras, perneiras e muito, muito repelente!

O Parque fica na região mineira conhecida por Vale do Aço, a 248 km de Belo Horizonte. Trata-se de uma das maiores áreas contínuas de Mata Atlântica do Brasil, com cerca de 36 mil hectares.

Atualmente, encaixa-se na categoria de Unidade de Conservação Ambiental, devido a sua imensa biodiversidade e a seu sistema lacustre, composto por 42 lagoas, em especial a Dom Helvécio. Com o rompimento da barragem de minérios da Samarco, em novembro de 2015, 40 milhões de metros cúbicos de lama invadiram e contaminaram o rio que corta e dá nome ao Perd.

 

Os 36 mil hectares que compõem o Perd são cobertos pela Mata Atlântica. (Luiz Henrique Rosa/Acervo)
Os 36 mil hectares que compõem o Perd são cobertos pela Mata Atlântica. (Luiz Henrique Rosa/Acervo)
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Sob coordenação de Luiz Henrique Rosa, professor e chefe do Laboratório de Microbiologia da UFMG, as estudantes Débora Barreto e Lívia Costa (mestrado), Marina Bahia (doutorado), e Mariana Costa e Camila Carvalho (pós-doutorado) passaram três dias no Perd, com o intuito de coletar folhas e sementes de espécies vegetais típicas da Mata Atlântica, para realizar um estudo sobre a importância dos fungos na preservação ambiental.

Luiz Henrique Rosa conta que a ideia partiu de um trabalho desenvolvido pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, que visava encontrar plantas contaminadas por fungos – que, extraídos, seriam transformados em substâncias herbicidas com baixo teor de toxicidade, de modo a contribuir para o agronegócio. A proposta, portanto, é fazer o mesmo processo, mas em espécies da Mata Atlântica.

 

Importante ressaltar que, embora o rio Doce tangencie o Parque, as lagoas que compõem o local não foram afetadas pela lama, pois não são banhadas pelo rio. De forma geral, a biodiversidade não foi comprometida pela lama.

Contudo, os pesquisadores trabalham na conservação, com base na hipótese de que os impactos gerados pelo rompimento da barragem podem chegar ao local. Trata-se, pois, de medida preventiva.

 

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Lá vamos nós!

Nossa chegada ao Parque aconteceu por volta das 15h. Após descarregar bagagens e materiais de coleta, deveríamos seguir ao viveiro do Parque, para receber orientações de Selma Silva, coordenadora do espaço há pouco mais de um ano e única mulher da equipe de funcionários do local.

De repente, um encontro inesperado, capaz de antecipar o modo como seriam os próximos dias na região! Ao adentrarmos em um dos quartos do alojamento do Programa Ecológico de Longa Duração do Rio Doce (Peld), localizado no interior do Parque, avistamos uma perereca, de quase 10 centímetros de comprimento, em uma das oito camas do quarto.

Entre risos de desespero e gritos de aflição, percebi, naquele momento, certas peculiaridades de uma viagem com biólogos. Em poucos minutos, Lívia Costa, mestranda do Departamento de Ciências Biológicas da UFMG, retirou – com luvas plásticas e sem muita dificuldade – o anfíbio do lugar, de maneira a tranquilizar àqueles que não se revelavam muito fãs do pequeno animal.

 

Outro entrave marcou o primeiro dia de expedição: o horário de chegada ao Parque impossibilitaria os pesquisadores de começar a coleta, pois o funcionamento das atividades internas e da equipe de funcionários vai até 17h.

As longas distâncias em relação às matas, somadas à falta de tempo, fizeram com que o trabalho se iniciasse apenas no dia seguinte. Para driblar tal impasse, seguimos ao local onde se situa a administração do Parque. Lá, encontramos Vitor Diniz, doutorando da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que reside no Parque desde março de 2018.

Segundo o pesquisador, seu objetivo é catalogar as espécies vegetais do Parque, para realização de sua tese de doutorado. O rapaz morará dois anos por ali.

Ele também nos falou das dificuldades vividas por ele: são as mesmas que os cientistas da UFMG poderiam enfrentar durante a coleta.

Em 1967, o Parque Estadual do Rio Doce sofreu um incêndio, que destruiu cerca de nove mil hectares da mata, o que corresponde a um terço de sua vegetação, e 12 pessoas morreram.

A destruição fez com que um grande número de árvores centenárias fosse destruída, e a mata nativa, substituída por formação florestal mais jovem. Isso impacta diretamente no trabalho dos pesquisadores, que buscam espécies centenárias e componentes da mata primária para realização de estudos.

 

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Mesa posta

O primeiro dia de expedição não foi muito produtivo. Devido ao horário de nossa chegada ao Parque, não se pode realizar as coletas previstas. Solução? Deixar toda a atividade para o dia seguinte. Resolvemos, então, jantar no restaurante do Parque.

O local oferece tanto almoço quanto jantar, a um preço acessível (R$ 34,90 o quilo). Apesar de simples, a comida é bastante saborosa. Além disso, o alojamento conta com cozinha equipada, algo essencial para que cada um fizesse seu café da manhã, além de lanches rápidos, antes de partirmos para as trilhas.

Entre uma garfada e outra, durante o jantar, a conversa girava em torno das dificuldades de fazer ciência no Brasil. A falta de investimentos e de reconhecimento do trabalho do cientista pela sociedade foi o principal problema apontado pelos pesquisadores.

As pesquisadoras relataram, por exemplo, que há uma dificuldade das pessoas com quem elas convivem em compreender o que elas fazem. Segundo elas, o trabalho de um pesquisador não é considerado por muitos como um trabalho “real”.

Outro problema citado, foi a respeito dos valores das bolsas concedidas aos pesquisadores, que muitas vezes não são suficiente para o pagamento das contas mensais e dos gastos com a pesquisa. Na sequência, fomos todos dormir, pois as atividades marcadas para o segundo dia começariam bem cedo.

 

Débora Barreto, Camila Carvalho, Mariana Costa, Marina Bahia, Luiz Henrique Rosa e Lívia Costa (esq. para dir.) (Rodrigo Patrício/MFC)
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Caminhada Estafante

Às 6h da quarta-feira, o grupo de pesquisadores já estava de pé. Enquanto alguns tomavam café da manhã, outros organizavam os materiais para coleta. Por volta das 7h, partimos em direção à Trilha Campolina, localizada a cerca de 60 quilômetros de distância do alojamento.

Tal trilha é visitada, geralmente, por pesquisadores, já que se trata de uma das mais conservadas do Parque, com 1,5 quilômetro de mata primária. Ela também se localiza às margens do rio Doce, e possui árvores de grande porte, como jequitibás, sapucaias e mognos, essenciais para a pesquisa da equipe.

A Trilha Campolina também é formada por uma mata mais fechada. Para caminhar dentro dela, é necessária a presença de um mateiro, capaz de abrir caminho com o facão. Quem nos acompanhou foram Marquinhos e Lino, que além de funcionários do Parque, são grandes conhecedores da mata e de suas espécies vegetais e animais.

 

A Trilha Campolina é a mais preservada do parque e mais próxima do contaminado Rio Doce (Luiz Henrique Rosa/Acervo)
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Os mateiros não só nos auxiliaram na caminhada e na coleta, mas forneceram informações sobre as árvores, o que facilitou o trabalho de coleta dos pesquisadores – e serviu de prova de que os saberes populares podem ser de extrema relevância para a ciência. Sem a presença dos dois, e do diálogo com eles estabelecido, certamente, todo o trabalho de pesquisa desenvolvido no Parque estaria comprometido.

Antes de adentrarmos, de fato, na trilha, foi preciso tomar certas precauções. Primeiramente, toda a equipe teve que pôr perneiras de segurança, para se proteger de cobras, carrapatos ou galhos de árvores que pudessem nos machucar. Em seguida, tivemos que redobrar a dose de repelente, pois o Perd é foco de leishmaniose, doença transmitida pela picada do mosquito-palha.

Por fim, conferimos se tínhamos água e alimento suficientes para nos deixar em pé por muitas e muitas horas de caminhada. Os pesquisadores, então, se certificaram de que todo o material necessário, para realização da coleta, estava completo.

 

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Saída pela esquerda!

À medida que o tempo passava, a caminhada se tornava mais difícil. O cansaço se somava à frustração de não encontrarmos as espécies vegetais que deveriam fazer parte da pesquisa. Era necessário coletar folhas de árvores centenárias e folhas (de qualquer espécie) que estivessem contaminadas por fungos.

Entretanto, as árvores mais antigas do local chegam a ter mais de dez metros de altura, e nem os dois mateiros que nos acompanhavam foram capazes de coletar as folhas das copas, pois não havia material necessário para que eles pudessem subir nas árvores com segurança.

Já as plantas contaminadas por fungos eram praticamente inexistentes por ali. Diante do impasse, a trilha foi interrompida, após quatro horas de caminhada, e a equipe de pesquisadores decidiu tentar realizar a coleta em outra parada: a chamada Trilha do Vinhático.

Mesmo com a falta de material para pesquisa, a caminhada na Campolina nos proporcionou encontros únicos com elementos da natureza pouco encontrados em paisagens urbanas. Por entre galhos e folhas, teias de aranhas surgiam no caminho.

Assustadoras e fascinantes, elas provavam como os insetos podem ser artistas de talento, ao tecer belíssimas formas. No caminho, encontramos cogumelos de variadas espécies, flores de cores vivas, insetos e répteis que mostravam a complexidade de um ecossistema.

No caminho para o Vinhático, em meio à fiação que cruzava as estradas do Parque, descansava um pequeno animal, peludo e indolente. Não podíamos deixar de parar e contemplar a tranquilidade do bicho preguiça que ali descansava. O cansaço estampado em nossos rostos foi substituído por sorrisos de admiração, diante do animal que parecia viver sem grandes preocupações.

 

No meio do caminho, entre as trilhas da Campolina e do Vinhático, nos deparamos com um simpático bicho preguiça (Rodrigo Patrício/MFC)
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Novos desafios

A chegada à Trilha do Vinhático também foi marcada por problemas. Dessa vez, o conhecimento dos mateiros sobre a vegetação do local não se revelou suficiente para ajudar os pesquisadores na coleta. Eles não conheciam aquela mata, e, por isso, eram necessários outros funcionários para realizar a identificação das espécies.

Como o sol já se punha, seria difícil recomeçar a coleta em ambiente desconhecido. Uma vez mais, as atividades foram adiadas, o que gerou grande preocupação nos pesquisadores, pois, com isso, restaria apenas um dia de expedição e coleta.

Mesmo apreensivos com as dificuldades, os pesquisadores não se desanimaram. A imprevisibilidade é algo comum em trabalhos de campo. Por isso, saber contorná-las é, também, papel do cientista durante a execução de uma pesquisa. Durante o jantar, enquanto pensava em alternativas, o grupo decidiu aproveitar a noite estrelada para um passeio no mirante do Parque.

Após subirmos vários lances de escadas, deparamo-nos com algo incrível. A escuridão da mata revelava um céu surpreendente! Era possível ver as constelações, uma parte da Via Láctea, estrelas cadentes e a lua minguante, que, levemente, nos iluminava, fazendo com que todas as preocupações e o cansaço sumissem, como num passe de mágica.

Durante alguns minutos, paramos para contemplar aquela beleza natural… e única! Do mirante, ainda com a escuridão, podíamos ver a copa das árvores e parte da Lagoa Dom Helvécio.

Histórias marcantes

Encontros proporcionados por viagens são enriquecedores. Durante a expedição ao Perd, isso não foi diferente! Na quinta-feira, logo após o café da manhã, a equipe se dividiu, para que as atividades do dia fossem agilizadas.

Enquanto um grupo seguia à Trilha do Vinhático, outro foi para o Viveiro das Mudas, na tentativa de coletar plantas atingidas por fungos. Acompanhei o segundo grupo, que, desta vez, contou com ajuda de Selma Silva, coordenadora do Viveiro.

Durante a realização da coleta, Selma aproveitou para nos falar sobre sua vida na região. Bem-humorada e com muitos casos a contar, ela lembra que é a única funcionária do Perd.

“Antes, eu trabalhava na manutenção, ajudando os mateiros. Quando assumi a coordenação, tudo mudou. Quando cheguei aqui, estava tudo uma bagunça. Aos poucos, fui limpando e ajeitando as coisas. Agora, parece até um escritório de verdade”, diz, em referência à pequena sala de coordenação do Viveiro.

 

Nas proximidades do Viveiro encontra-se  as instalações do alojamento do Programa Ecológico de Longa Duração do Rio Doce.  Crédito (Luiz Henrique Rosa/Acervo)
Nas proximidades do Viveiro encontra-se  as instalações do alojamento do Programa Ecológico de Longa Duração do Rio Doce.  Crédito (Luiz Henrique Rosa/Acervo)
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Para assumir o posto que ocupa atualmente, Selma precisou passar por rigoroso treinamento, dentro do Parque, com uma equipe de bombeiros. Foi difícil encarar o desafio! A principio, tinha dificuldades de nadar, mas teve de atravessar a nado, como parte do treinamento, uma das maiores lagoas do Parque.

A coordenadora também tem pavor de cobra, mas carregou nos braços uma jiboia, para que pudesse superar o medo e aprendesse a se comportar, caso esbarrasse com o réptil.

Selma enfrentou todos os desafios enquanto via seu povoado, Firmo Araújo, tentar se recuperar dos impactos causados pelo rompimento da barragem de Bento Rodrigues. Embora o Parque não tenha sido prejudicado, a população das cidades, dos distritos e dos povoados que se localizam nas proximidades do rio teve que se reinventar.

Muitos dependiam da água do rio para a sobrevivência e, com a chegada da lama, foi necessário que se readaptassem à nova realidade. A coordenadora conta que um de seus maiores medos é que o Parque, um dia, seja prejudicado pelo desastre ambiental.

Dever cumprido

As atividades do terceiro dia foram bem-sucedidas. Enquanto o grupo da Trilha do Vinhático voltou ao alojamento com as sacolas cheias de material a ser analisado em laboratório (folhas de árvores como mogno, sapucaia, jenipapo, angico e cutieira), a equipe do Viveiro de Mudas coletou mais de 20 amostras de plantas com fungos.

Na próxima etapa da pesquisa, os pesquisadores buscariam isolar e analisar os fungos da folha, para perceber suas características e descobrir se elas podem ajudar a proteger as plantas, além de proporcionar a produção de herbicidas naturais.

Isso, contudo, deveria ser feito em laboratório, no Departamento de Ciências Biológicas da UFMG. Antes, era preciso deixar os alojamentos limpos e organizados, arrumar as malas e nos prepararmos para encarar mais cinco horas de estrada na volta para casa.

 

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Superpoderes

A expedição ao Parque Estadual do Rio Doce provou que ser cientista no Brasil não é fácil. Além do desconforto físico, gerado por caminhadas e longas horas de viagem, é preciso saber encarar problemas estruturais, como a falta de materiais para pesquisa. É preciso saber, também, improvisar.

Ao observar a busca pela preservação da biodiversidade da bacia do rio Doce, foi possível ver que cientistas não são pessoas solitárias, que passam horas trancados em laboratórios, debruçados em cima de um microscópio. Pesquisadores também são aventureiros, comunicadores, artistas. Não seria exagero nenhum, portanto, chamá-los de super-heróis.

Ao andar pelas trilhas do Parque, percebi o respeito e o olhar de esperança que os moradores da região depositam nos pesquisadores. E não só naqueles que saíram de BH numa terça-feira fria, mas, também, em relação a todos que, de certa forma, chegam ao Parque com propostas de melhoria.

As palavras de Selma revelam a importância do local para a sobrevivência da população – e evidenciam como as águas do rio Doce levavam vida àqueles que, hoje, apenas existem.

Os obstáculos que encontramos nessa caminhada são parte, apenas, das dificuldades enfrentadas por uma série de pesquisadores. Tenho certeza de que o sorriso no rosto de cada um deles evidencia que o trabalho ali realizado é o que faz com que os cientistas sigam sempre em frente, na busca de melhorias para nosso Planeta.