MicrouniVersos | Sopa com asteroides

“Há anos-luz daqui, alguém se imagina a anos-luz dali”, cogita Laura, no exato instante em que, inútil, a sopa lhe escapa da colher, então abandonada sobre a louça polonesa.

A precisos nove trilhões, quatrocentos e sessenta bilhões e oitocentos milhões de quilômetros de sua cotidiana busca por algo, qualquer coisa que seja também haveria de lastimar certos clamores do tédio indefinível?

O lumiar de possibilidades outras estaria, finalmente, a caminho de sua irrisória existência, como benevolente gesto final de uma estrela morta, e também obcecada por inexploradas galáxias?

“A anos-luz dali, alguém se imagina há anos-luz daqui”, matuta Laura, já farta de sopas, louças, desejos e astros imponderáveis.

Para além dos bocejos lunares, a impregnar de mistério sua janela de indecisões demasiadamente humanas, que olhos, jamais imaginados, haveriam de observar seus vácuos, suas formas, seus dedos desprovidos de colheres e direções?

Na contraluz dos lumiares de sua própria retina, que luminescência lhe desanuviaria segredos terrenos, opacidades inúteis, obscuridades do peito?

“Há anos-luz dali, definitivamente, alguém se imagina a anos-luz daqui!”, grita Laura, no exatíssimo segundo em que se percebe aconchegada ao microscópico universo do tempo que, sagaz, se esvai junto à brisa inquieta.

Diante da intocada e gélida sopa, Laura, enfim, desobriga-se de horizontes etéreos. Exausta de luzes, alguéns e janelas escancaradas, sente-se ávida, pela primeira vez, por desbravar, tão somente, os 45 metros quadrados de sua hexagonal quitinete, território de artes, certezas e afetos. “Se, há anos-luz daqui, alguém se imaginar a anos-luz dali, que saiba amar colheres, sopas e doces finitudes”, reza Laura, segundos antes de se entregar ao mais banal (e suave) dos sonos terráqueos.

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