Em 2015, a demência afetava 46 milhões de pessoas em todo o mundo. Considerada uma síndrome clínica, a demência inclui quadros que se caracterizam por deficiência cognitiva persistente e progressiva. E apresenta um conjunto de sintomas decorrentes de várias causas irreversíveis.

Somente 30% das causas possíveis para a demência tem prevenção. Hipertensão arterial, diabetes, tabagismo, sedentarismo, depressão e perda auditiva estão entre os fatores de risco controláveis da demência. Outro fator controlável, estudado por pesquisadores em todo o mundo, é o baixo nível educacional.

Elisa de Paula França Resende, pesquisadora da UFMG, estuda os efeitos da alfabetização tardia sobre a memória e a conectividade cerebral. A médica neurologista integra o Grupo de Neurologia Cognitiva do Comportamento do Hospital das Clínicas, coordenado por seu orientador Paulo Caramelli.

Até 2020, Resende vai acompanhar cerca de 50 estudantes matriculados na Educação de Jovens e Adultos (EJA) para avaliar se, mesmo na fase adulta, a alfabetização pode contribuir para a saúde cerebral das pessoas.

MFC: Qual é o quadro sintomático da demência?

Elisa Resende: A demência é caracterizada por um declínio nas funções cognitivas que causa uma perda funcional. Ou seja, há uma perda de habilidades como linguagem, memória, raciocínio, atenção, que afetam atrapalham as atividades do dia a dia.

MFC: Quais são causas possíveis? E quais os fatores de risco associados?

Existem várias causas: algumas reversíveis como doenças da tireoide, sífilis, deficiência de vitaminas, e outras irreversíveis como a doença de Alzheimer, os infartos vasculares, a demência frontotemporal, etc. O principal fator de risco é a idade. Quanto mais idosa a pessoa, maior o risco. Existe também o fator genético. Os principais fatores e risco modificáveis são: hipertensão, diabetes, obesidade, sedentarismo, tabagismo, baixo nível educacional, perda auditiva e depressão.

MFC: É possível reverter ou amenizar um quadro de demência?

Depende. Os casos reversíveis como doenças da tireoide, sífilis e deficiência de vitamina B12 por exemplo podem ser parcialmente revertidos com o tratamento da doença de base. Já os casos irreversíveis como Alzheimer não podem ser revertidos uma vez que a pessoa começa a apresentar os sintomas.

MFC: Como o nível de escolaridade afeta a memória e o funcionamento do cérebro?

É isso mesmo que estamos tentando descobrir com a pesquisa. Pesquisas do nosso grupo sugerem que pessoas com nível educacional mais alto podem ter conexões cerebrais mais íntegras, e uma maior participação do hipocampo, uma parte do cérebro responsável pela memória, no processo de memorização. O que se sabe há algum tempo é que pessoas com maior escolaridade têm um menor risco de desenvolver os sintomas de demência.

MFC: Quais os resultados apontados pelo artigo Saúde e desigualdades socioeconômicas como contribuintes para a saúde do cérebro? Como diferentes níveis sociais afetam a saúde cerebral?

O nosso artigo compilou resultados de várias pesquisas já publicadas, inclusive do nosso grupo, que sugerem que a saúde cerebral tem grande influência de disparidades sociais, econômicas e acesso à saúde. Por exemplo, dos oito fatores de risco modificáveis para demência, sete dependem de acesso à atenção médica regular e medicamentos para controle, o que nem sempre é distribuído igualmente entre as várias regiões do país e do mundo. Já o outro fator de risco, baixo nível educacional, está intrinsecamente ligado ao baixo nível socioeconômico e outros fatores como baixo qualidade nutricional, acesso a atividades de lazer e exercício físico.

MFC: Quais os objetivos da sua pesquisa agora? Como ela será conduzida?

Minha pesquisa agora visa revelar se programas de educação para jovens e adultos como o EJA (Educação para Jovens e Adultos) podem levar à melhora da memória e das conexões cerebrais, atuando como uma eventual proteção contra o desenvolvimento dos sintomas de demência. Ela será conduzida avaliando um grupo de pessoas que participa do programa EJA antes e após um ano de estudo na sala de aula. A memória e as conexões cerebrais serão medidas antes e depois, e a hipótese é que vai haver uma melhora em ambas.

MFC: Com o envelhecimento da população, qual a importância de se olhar para essas questões? De produzir ações de saúde pública?

Existe uma estimativa de que o número de pessoas com demência na América Latina vai quadruplicar até 2050. Como ainda não existe um tratamento que possa reverter a doença, a prevenção é a chave para enfrentar esse grave problema. E quando falamos em prevenção, falamos do controle dos fatores de risco mencionados por meio de garantir acesso à cuidados médicos e medicações, e melhorar o nível educacional da população. Os programas de Educação para Jovens e Adultos já fazem um belo trabalho e resgatam muitas pessoas da marginalidade por meio da escola. Agora queremos provar que o EJA traz benefícios diretos para a saúde cerebral e deve ser ampliado, e as pessoas, principalmente idosas, devem ser estimuladas a participar.

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