Coleira repelente para cães tem 63% de efetividade no controle de leishmaniose

Pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Ministério da Saúde, testaram uma coleira repelente em cães na tentativa de controlar a leishmaniose visceral, causada pelo parasita Leishmania infantum e transmitida pelo Lutzomia longipalpis (mosquito palha). Os cientistas constataram uma efetividade de 63% em cães que permanecem um ano com o acessório. Nos animais que perdem a coleira, a efetividade cai para 48%.

Estudos sobre a coleira vinham sendo feitos fora do Brasil e agora, temos a pesquisa nacional. O Ministério da Saúde adota medidas de controle da doença como diagnóstico e tratamento precoce dos casos humanos, controle vetorial, diagnóstico canino e eutanásia de animais infectados, além de ações de educação em saúde. Em Belo Horizonte, por exemplo, há ações coordenados pela prefeitura em que cães doentes são recolhidos e os tutores orientados.

De acordo com o professor Wendel Coura Vital, do Departamento de Análises Clínicas da Escola de Farmácia da UFOP, na identificação da leishmaniose visceral é preconizado um teste rápido durante triagem e, depois, a confirmação com o diagnóstico sorológico Elisa. Em caso de positivo, o animal é eutanasiado.

tratamentos para doença, porém de alto custo e que ainda são questionados sobre a cura parasitológica. Existe também no mercado uma vacina, porém o Ministério da Saúde não usa como política pública porque ainda não há teste clínico que comprove a redução em número de casos em humanos.

Estudo em Governador Valadares

O ministério vem sendo muito questionado sobre a efetividade eutanásia de cães e existe divergência sobre o assunto entre pesquisadores. Dessa forma, o ministério investiu em outras estratégias para serem adotadas no controle da doença e, uma delas, é a coleira repelente que tem o inseticida deltametrina.

Professor Wendel Vital em trabalho com equipe da pesquisa. Foto: Divulgação UFOP

“O órgão comprou várias coleiras para cientistas testarem em grande escala pelo Brasil. Fomos convidados a realizar os testes e fizemos na cidade de Governador Valadares”, explica. O município tem mostrado prevalência de infecção de 25% a 27%, mais que o dobro de Belo Horizonte, segundo o professor.

O estudo avaliou inicialmente 5.850 cães, dentre os quais foram selecionados 3.742, por serem soronegativos, ou seja, não tinham a doença. A divisão ocorreu da seguinte forma: 1.812 cães fizeram parte do grupo que usou a coleira e 1.930 compuseram o grupo sem coleira (grupo controle). Os animais foram acompanhados por 12 meses, sendo reavaliados semestralmente com inspeção visual e coleta de sangue para testes sorológicos. Nesse período, também foi feita a troca das coleiras.

O cientista pondera que a efetividade da coleira foi pequena em seis meses – momento do primeiro retorno dos cães – se comparada com o resultado de um ano. Se a equipe acompanhasse os cães por dois anos, provavelmente a efetividade melhoraria. “A gente considerou a coleira efetiva em animais que não a perdem”, enfatiza o pesquisador.

O desafio é que os cães fiquem com as coleiras durante todo o tempo. Além disso, a conscientização dos tutores para retornar com o cão periodicamente para troca do acessório repelente. “Teríamos que pensar em alguma estratégia para que as pessoas busquem a coleira para agilizar a logística ou pensar em campanhas educativas envolvendo os tutores”, afirma Wendel Vital.

Equipe

O trabalho foi realizado em convênio com Prefeitura Municipal de Governador Valadares, que ofereceu apoio logístico para a realização do estudo ficando as equipes municipais responsáveis pela troca de coleiras no período definido. A Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais também colaborou com o projeto, fornecendo testes sorológicos. A pesquisa contou com apoio e financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do próprio Ministério da Saúde.

Além de Wendel Vital, a equipe envolvida no projeto é composta pelos professores Alexandre Barbosa Reis (UFOP), Mariângela Carneiro (UFMG), Gleisiane Gomes de Almeida (UFOP), e pela funcionária do Centro de Controle de Zoonoses da Secretaria Municipal de Saúde de Governador Valadares, Aimara da Costa Pinheiro.

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