Método BLW de introdução alimentar é tema de estudo da UFJF

Bebê mamando no peito em roupas brancas.
Até os 6 meses, a alimentação de bebês deve se basear na ingestão de leite materno. (Imagem meramente ilustrativa via Pixabay)

Se você é pai ou mãe de um bebê, já deve ter ouvido falar em método BLW.

A sigla se refere ao “baby-led weaning”, modelo de introdução alimentar largamente difundido nos Estados Unidos e na Europa.

A ideia é que, a partir dos seis meses, bebês já têm capacidade motora para guiar a própria ingestão de alimentos.

Quem opta por fazer a introdução alimentar pela abordagem BLW dá aos bebês a mesma comida consumida pelo restante da família.

Não é preciso transformá-la em papas ou sopas, e os pequenos podem pegar os alimentos sozinhos e a levá-los à boca. Talheres são dispensáveis!

Nessa proposta, pais e/ou cuidadores têm como principal papel a intermediação da descoberta dos alimentos, oferecendo às crianças comidas palpáveis e saudáveis, em um ambiente agradável, para que eles descubram texturas e sabores.

Mas o que a ciência diz sobre o BLW?

Um estudo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) revisou publicações científicas sobre o método BLW no âmbito da alimentação complementar de bebês.

A partir do levantamento, os pesquisadores concluíram que os bebês adeptos ao BLW, quando comparados aos do grupo em conduta alimentar tradicional, foram menos propensos ao excesso de peso, menos exigentes em relação ao alimento e consumiam os mesmos alimentos da família.

De acordo com a pesquisa, os episódios de engasgo não são mais frequentes do que entre aqueles que seguem outros métodos de alimentação.

Os pesquisadores também identificaram que mães que optam pela implementação do BLW têm mais escolaridade, ocupam cargos gerenciais no trabalho e apresentam maior probabilidade de terem amamentado até o sexto mês.

Assinaram o trabalho Ana Letícia Andries e Arantes, Felipe Silva Neves, Angélica Atala Lombelo Campos e Michele Pereira Netto. O grupo faz parte do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Departamento de Nutrição da UFJF.

Foto em branco e preto com bebê comendo com as mãos e a boca lambuzada
Imagem meramente ilustrativa via Pixabay

Bebê no comando: expectativa vs realidade!

Vanessa Costa Trindade, jornalista e doutoranda pela UFMG, está testemunhando a descoberta dos alimentos por sua filha, que completa sete meses em abril de 2019.

No entanto, ela optou por não utilizar o método BLW nos primeiros meses, conforme explica: “Percebi que ela ainda não dava conta de comer sozinha aos seis meses, então, preferi ajudá-la, oferecendo a comida na colher. Segui várias diretrizes que estavam no Guia Alimentar disponível no site do Ministério da Saúde”, conta Vanessa.

De fato, os pesquisadores da UFJF alertam que a implementação do BLW requer sinais de destreza relativos ao desenvolvimento, incluindo equilíbrio postural para se manter sentado com pouco ou nenhum auxílio, bem como estabilidade para alcançar, agarrar e conduzir os alimentos à boca.

Cabe aos profissionais de saúde avaliarem as especificidades de cada bebê e prescrever recomendações mais apropriadas a cada contexto familiar.

Clique aqui e leia o artigo na íntegra.

Junto com minha pediatra, optei por um método em que eu mesma ofereço a comida com colher, mas percebo que minha filha gosta de manipular os alimentos. Ela segura laranja e come, mas tem horas que cansa e eu continuo oferecendo, e ela continua a comer”, conta Vanessa, que também amamenta sua filha.

[quote align=’right’]São os bebês que regulam qual tipo de comida, a quantidade e o ritmo em que será consumida a cada refeição.[/quote]

De acordo com o método BLW, os alimentos que são ofertados devem se basear na aceitação dos bebês, que varia de acordo com as necessidades individuais.

“De fato, acho que é a criança quem comanda a quantidade que ela quer comer, mesmo quando a gente dá um purê mais rústico ou uma banana amassada”, observa Vanessa. “Mesmo não usando o BLW, acho que as crianças tendem a comer o que elas dão conta”

Nos estudos avaliados pelos pesquisadores da UFJF, foram mencionadas preocupações com bagunça nas refeições, desperdício de comida e engasgo ou asfixia, mas o método foi sugerido pelas mães que o seguiram com seus filhos.

Elas, no entanto, relataram preocupações que, somadas ao receio de profissionais de saúde sobre a capacidade dos bebês de se autoalimentarem, refletem, segundo os pesquisadores, a escassez de conhecimento sobre o método.

Mãos de bebê, em roupa laranja, segurando um abacate pequeno
O contato direto com o alimento é benéfico para a introdução alimentar do bebê. (Imagem meramente ilustrativa via Pixabay)

Guia alimentar brasileiro

Em 2018, noticiamos na coluna Contemporâneas que o Guia Alimentar Brasileiro para Menores de Dois Anos seguia para publicação, depois de passar por um período de consulta pública.

O documento é uma importância referência para a alimentação saudável de bebês e crianças.

Um fator destacado pela pesquisa da UFJF é a ausência de dados sobre o método BLW no Brasil, o que restringe a extrapolação para a realidade brasileira de certas constatações dos estudos que avaliaram .

Em depoimento ao site da UFJF, um dos pesquisadores, Felipe Neves, destacou que a prática do BLW, assim como o ato de comer em si, envolve uma série de determinantes socioculturais, mais do que qualquer parâmetro estritamente biológico.

“Existem muitas questões não esclarecidas e, para isso, precisamos de novas pesquisas com níveis elevados de evidência”.

Por isso, o grupo está realizando um estudo original na região Sudeste do país para avaliar as percepções de profissionais de saúde que atuam em pediatria (ou subárea afim) acerca do BLW.

“Isso certamente responderá algumas das perguntas que estão em aberto e servirá de apoio para a fundamentação de outras hipóteses a serem pesquisadas no futuro”, conclui Neves.

Com informações da UFJF.
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Verônica Soares

Jornalista de ciências, professora de comunicação, pesquisadora da divulgação científica.