Durante 15 dias, pude conhecer a multiplicidade de uma série de cidades indianas, do criativo caos de Nova Délhi à aconchegante serenidade de Rishikesh, também conhecida como “capital mundial da ioga”. Para além dos ritos metafísicos e das riquezas culturais do país onde se cultuam mais de 33 milhões de deuses, duas temáticas saltaram-me aos olhos. De um lado, refiro-me à falta de interesse, por parte da maioria dos cidadãos, quanto às “novidades do Ocidente”. De outro, ressalto o culto aos ensinamentos – filosóficos, políticos e religiosos – de Mohandas Karamchand Gandhi, ou Mahatma Gandhi.

Tal segunda constatação levou-me a adquirir, no aeroporto de Varanasi, a autobiografia do famoso líder e educador, cujas ideias e ações serviram à idealização e à fundação do moderno Estado indiano. Na obra An Autobiography or The Story of My Experiments with Truth [no Brasil, o livro foi lançado pela editora Palas Athena, sob o título Autobiografia: minha vida e minhas experiências com a verdade], Gandhi reconstitui minuciosamente sua trajetória, dos aprendizados da infância ao ápice de suas intervenções cidadãs.

Dividido em cinco partes, organizadas em pequenos capítulos, o livro revela, de maneira espontânea (porém, sistemática), os princípios a sustentar a ética do autor, um dos pais do princípio da não violência. Em tempos de pouco respeito aos sonhos e pensamentos “do outro” – aquele, segundo Gandhi, a quem devemos nos referir, tão somente, com amor –, tal leitura se apresenta, sem delongas, como imprescindível.

 Leia um trecho:

“Mencionei uma circunstância que, de certo modo, salvou-me dos desastres do amor lascivo. Há outro digno de nota. Numerosos exemplos me convenceram de que Deus salvou-me, em nome da pureza. Juntamente ao cruel costume dos casamentos infantis, a sociedade hindu ostenta outro hábito, que, em certa medida, diminui os males do primeiro. Os pais não permitem que casais jovens permaneçam juntos por muito tempo. A ‘esposa-criança’ passa mais da metade do tempo na casa do pai. Tal foi o caso conosco [Gandhi e sua primeira esposa]. Ou seja, durante os primeiros cinco anos de nossa vida conjugal (dos 13 aos 18 anos), não poderíamos ter vivido juntos por mais tempo do que um período agregado de três anos. Dificilmente, teríamos passado seis meses juntos, sem que houvesse uma ligação, para minha esposa, de seus pais. Tais ligações eram indesejáveis ​​naqueles dias, mas nos salvaram. Com a idade de dezoito anos, fui para a Inglaterra, e isso significava um longo e saudável período de separação. Mesmo depois de voltar de lá, dificilmente ficamos juntos por mais de seis meses. Afinal, tive que correr para cima e para baixo, entre Rajkot e Bombay. Então, veio o chamado da África do Sul, quando já estava bastante livre do apetite carnal.” [Tradução da citação: Maurício Guilherme Silva Jr.]

FICHA TÉCNICA:

Livro: An Autobiography or The Story of My Experiments with Truth

Autor: M.K. Gandhi

Editora: Rupa

Tradução: Mahadev Desai

Páginas: 519

Ano: 2011