No Brasil, 60% do transporte de cargas é feito pelas rodovias do país. Caminhoneiros seguem uma rotina solitária, que envolve ficar horas na direção. Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) tem o objetivo de avaliar as condições de saúde física e mental desse grupo de profissionais.

O estudo “Fatores de risco para doenças cardiovasculares, saúde mental e comportamentos ao dirigir entre caminhoneiros que trafegam pelo município de Uberlândia/MG” foi coordenado pela professora Marcelle Aparecida de Barros Junqueira, da Faculdade de Medicina. O trabalho foi desenvolvido em conjunto com uma equipe de dez pesquisadores da UFU.

Foram entrevistados 235 caminhoneiros que passavam por dois postos de gasolina em rodovias que cortam o município de Uberlândia. Os pesquisadores avaliaram sinais vitais, peso, altura, índice de massa corporal, relação cintura/quadril e índice tornozelo/quadril. “Depois dessa avaliação clínica inicial, nós seguimos com a aplicação de um questionário a respeito do nível de sonolência desses motoristas, sinais e sintomas de depressão, stress e ansiedade, usos de substâncias psicoativas e comportamentos ao dirigir”, explica Marcelle Junqueira.

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Consumo de drogas, álcool e tabaco

O estudo buscou traçar um perfil dos caminhoneiros e relacionar o uso de álcool, tabaco e outras drogas ao ato de dirigir. Os resultados sugerem que, entre os motoristas de carga, os índices de uso abusivo ou dependente de tabaco, anfetaminas e cocaína são maiores que o encontrado na população geral adulta brasileira.

Uso de substâncias entre caminhoneiros e a população geral brasileira, segundo dados da pesquisa desenvolvida na UFU

Entre as anfetaminas estão os chamados rebites, substâncias utilizadas para manter usuários acordados. Dados levantados pela equipe de pesquisadores da UFU mostram que os caminhoneiros entrevistados trabalham em média 12 horas por dia. “Algumas condições de trabalho, como mais horas na estrada e mais tempo longe de casa, estão associadas ao maior uso de substâncias psicoativas”, afirma Junqueira. De maneira geral, o uso de drogas, incluindo o tabaco, está associado a um maior potencial para erros, lapsos e violações na estrada.

O consumo de tabaco e do álcool se relaciona à quantidade de horas trabalhadas e de quilômetros rodados e a mais dias longe de casa. “O convívio familiar pode ser um fator protetivo. Estar muito tempo longe de casa faz com que o caminhoneiro tenha um risco maior de se envolver com substâncias psicoativas”, explica a pesquisadora.

Saúde dos caminhoneiros

A avaliação do uso de drogas, tabaco e álcool entre os caminhoneiros entrevistados foi a primeira de três etapas da pesquisa. Ainda serão analisados fatores clínicos de saúde, identificando os riscos de hipertensão, obesidade e doenças cardiovasculares para os profissionais. E, em outra frente, os níveis de ansiedade, stress e depressão entre esses motoristas, relacionados ao comportamento ao dirigir e ao uso de substâncias psicoativas.

Segundo Marcelle Junqueira, a mudança de hábitos em relação à saúde e ao uso de substâncias psicoativas entre caminhoneiros é complexa e envolve desde motivações pessoais, que perpassam questões íntimas e familiares. “Mas esse profissional precisa de apoio profissional para poder lidar com essas questões. Percebemos informalmente, durante as entrevistas, que muitos deles há muito tempo não se vacinam e não procuram serviços de saúde. Isso acontece porque os caminhoneiros não tem tempo, precisam trabalhar demais e tem metas para percorrer determinadas distâncias. Existe toda uma complexidade que envolve o uso de substâncias relacionada à precariedade no serviço deles e à exploração da mão de obra. Indiretamente, isso interfere em um comportamento negativo ao dirigir que ocasiona índices muito grandes de acidentes e mortes na estrada”, diz a pesquisadora.