Em dissertação de mestrado defendida na Escola de Música da UFMG, Marcos de Lima e Mello estudou a evolução da trilha sonora em jogos digitais. Desenvolveu ainda uma análise sobre as funções e efeitos da música em vídeo games e traçou um comparativo com a produção musical para o cinema.

“Há muitas relações e peculiaridades encontradas quando comparamos cinema e trilha de jogos. Mas os dois exemplos mais fortes estão na narrativa e na música interativa. Na narrativa, há o leitmotif, que é quando um tema musical lembra algum cenário ou personagem”, diz Marcos. Ele dá o exemplo da trilha Marcha Imperial, composta por John Williams, que evoca cenas da série cinematográfica Star Wars, com passagens da história sobre o império e o vilão Darth Vader. O mesmo é percebido em jogos com trilhas famosas, como o Mário Bros., da Nintendo.

Confira, no Ondas da Ciência:

A dissertação de mestrado Trilha sonora em jogos digitais: uma análise histórica, funcional e suas relações com a música no cinema foi defendida em setembro de 2018.

Evolução da trilha sonora de jogos

O áudio nos jogos digitais começou com um efeito sonoro, no jogo Pong, do Atari. “Isso já foi revolucionário para a época. E então começaram a aparecer as primeiras trilhas musicais, usando apenas os chips de áudio presentes nos consoles de vídeo game”, conta Marcos Mello. O pesquisador explica que, na época, não era possível produzir para jogos músicas mais elaboradas. Com limitações na tecnologia, ficaram famosos os sons característicos dos jogos de oito bits.

O uso de CDs para vídeo games, caso do PlayStation 1, lançado em 1994, tornou possível reproduzir sons mais complexos, de orquestras, corais, guitarras e canto. A qualidade, entretanto, ainda não era ideal. “Até você chegar agora, ao nível do cinema, que não existe limitação. A qualidade do som muitas vezes é melhor nos jogos digitais”, afirma Marcos. Uma tecnologia muito utilizada e que ajuda a causar imersão no jogo são os sistemas de surround, que dividem os sons por canais, em diferentes direções.

Imersão e interatividade

Em jogos digitais, a música interage com o jogador como guia. A trilha sonora ajuda a explicar o que está acontecendo na tela. “Há jogos como Tomb Raider e Uncharted, em que a partir do momento em que o jogador é descoberto por inimigos, a trilha sonora muda e fica mais tensa e agitada. É um indicador de que o jogador precisa lutar. Quando a luta acaba, a trilha sonora acaba também, mostrando que o jogador pode ficar mais tranquilo”, exemplifica Marcos Mello. Segundo o pesquisador, outro fator importante é a interação por ação do jogador. Ao mudar de cenário, por exemplo, ocorrem mudanças no estilo da trilha sonora.

Além de permitir interação, a trilha produz e reforça a dramaticidade da narrativa. Em um jogo de suspense, a música gera mais tensão, por exemplo. Além disso, ajuda a contextualizar cenários e criar ambientação. E, segundo Marcos Mello, a trilha produz efeitos de imersão, que passam pelas fases de comprometimento, absorção e imersão total do jogador. O comprometimento ajuda a apresentar a ideia do jogo. A absorção, a manter o jogador focado e imerso. “Por fim, há a suspensão da descrença, quando você faz o jogador perder a noção de onde está. Ele esquece que está em um sofá, jogando vídeo game, com um controle na mão. É quando você consegue a imersão total”, explica.