São João del-Rei é conhecida como a terra onde os sinos falam, pois carrega uma cultura secular de sineiros que encantam a cidade em dia festivos. Existe até uma linguagem dos sinos com padrões e toques especiais para cada celebração.

Ouça esta batucadinha e preste bem atenção em cada detalhe porque vamos contar a história desse ritmo…

Com mais de 300 anos de história, São João del-Rei preserva a tradição das badaladas em igrejas e prédios públicos. A linguagem dos sinos passou de geração para geração e foi registrada, em 2009, como um Patrimônio Nacional. Para alcançar esse importante posto, uma pesquisa documental e científica foi feita para comprovar que os sinos representam história e memória do município de nosso país.

Toques, repiques, e improvisos marcam a rotina dos moradores. Essa cultura de se comunicar por meio dos toques musicais foi trazida ao Brasil pelos portugueses, principalmente para registrar celebrações da igreja católica. O que muita gente talvez não sabe é que o conteúdo musical dos sinos em Minas tem grande influência de ritmos afro-brasileiros.

Sons da África em terras mineiras

O estudante de música da Universidade Federal de São João del-Rei (UFJS), Yuri Vieira, orientado pelo professor Marcos Filho, estudou o dossiê feito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que documentou a tradição do sinos. O universitário foi em busca de entender os padrões rítmicos dos sineiros e estudou a relação dessa musicalidade com repiques africanos trazidos ao Brasil pelos negros.

Segundo Yuri Vieira, muitos livros contam a história de atuação dos negros escravizados como sineiros. Assim, o pesquisador fez uma conexão: se os negros eram responsáveis por tocar os sinos e tinham uma origem musical muito própria, pode ser que tenham colocado um pouco de ritmos deles nas badaladas.

Foi dito e feito. Durante uma pesquisa de iniciação científica, Yuri Vieira conseguiu comprovar a influência africana na tradição sineira. Descobriu que na batida dos sinos há variações de uma “fórmula rítmica” batizada de tresillo,  muito presente na música afro.

“Autores da história já estabeleceram possíveis relações entre a linguagem dos sinos e as tradições musicais do Congado e Candomblé. Mostraram que há um possível paralelo, mas ninguém havia estudado as questões técnicas”, conta o pesquisador.

Confira registros da rotina de sineiro feitos pelo fotográfo de Thiago Morandi:

Sinos, aqui eles falam

Caminhos dos repiques

Yuri Vieira procurou saber quem eram os sineiros e de quais regiões vieram. Conheceu a cultura musical que carregavam e compreendeu como imprimiam identidade afro na música. Se inspirou em estudos anteriores feitos por outros pesquisadores sobre a influência africana na musicalidade brasileira.

O que é abordagem etnomusicológica? É uma abordagem que estuda as relações do homem com a cultura e mais especificamente, como a música se modifica a partir das relações humanas. O pesquisador que escolhe essa abordagem, geralmente, coleta material, mas se preocupa em compreender quem são as pessoas por trás daquela produção musical.

“Há um trabalho com abordagem etnomusicológica que fez um estudo parecido com o samba. O pesquisador analisa as mudanças na sonoridade do samba a partir da década de 30. Avalia os padrões da África negra e chega a algumas formas de organização do pensamento musical como, por exemplo, o tresillo”.

Depois dos estudos bibliográficos, Yuri Vieira foi vivenciar a rotina dos sineiros em São João del-Rei para coletar sons e costumes. Durante as celebrações da Semana Santa de 2017, período muito representativo para a tradição sineira, gravou em áudio os toques e repiques.

Em seguida, transcreveu esses sons em partituras para analisar tecnicamente. Foram 40 áudios com registros de 10 repiques diferentes. O pesquisador catalogou, separou e datou todos os sons, para um registro científico da própria pesquisa. De acordo com Yuri Vieira, foi possível encontrar seis variações de padrão musical, bem parecidas com aquele ritmo de bate-palmas em roda de capoeira.

“Foi necessário entender como funciona a dinâmica dessa música, que não é padrão de uma música que toca na rádio. Foi preciso pensar na relação dos sineiros e como pensam a estruturação dos repiques”, explica o estudante.

Afeto e memória

Yuri Vieira é do Sul de Minas Gerais, mas vive em São João del-Rei há 10 anos,. Além de estudar música, trabalha com bateria e percussão. Sempre se interessou pela cultura afro-brasileira, por isso decidiu desenvolver esta pesquisa.

“A primeira vez que estivem na cidade, fique hospedado em uma casa ao lado da Igreja de São Francisco. Acordei com a revirada do sino e fiquei assustado porque nunca tinha ouvido. Fiquei impressionado e percebi que existia uma forma de tocar. Mais tarde, vi que era uma forma muito próxima das manifestações culturais afro-brasileiras”, conta.

Além de São João del-Rei, há nove cidades com tradição em linguagem de sinos, porém na cidade histórica mineira a cultura é mais preservada. Em outras localidades, a técnica de tocar foi alterada.

“Por aqui, o sino assume vários papeis. Já teve um caráter de comunicador, como por exemplo, o toque do nascimento quando uma mulher dava à luz, ou o toque da morte. Com o crescimento urbano, fica impossível comunicar esses acontecimentos. Com o tempo, o sino assumiu a função de engrandecer os festejos”, afirma.

Segundo o pesquisador, um dos eventos mais simbólicos é o Ofício das Trevas, na quarta-feira da Semana Santa, um ritual que acontece do mesmo jeito há 200 anos e nem mesmo o Vaticano faz com tanta fidelidade à tradição.

Em meio aos toques, nascem relações de amor e ódio pelos sinos. “Quem mora no Centro gosta porque tem isso como memória de vida. Tem gente que acha incômodo porque há festejos em que o sino está tocando às 5h. O fato curioso é que a própria população se mobilizou para pedir ao IPHAN o registro de Patrimônio Nacional, o que ajudou a cidade a ganhar o título de terra dos sinos que falam”.

Relevância da pesquisa

O trabalho de Yuri Vieira foi premiado, em 2018, como a melhor pesquisa na área de artes da sessão de pôsteres da 70ª reunião da Sociedade de Pesquisa para o Progresso da Ciência (SBPC), maior evento de divulgação científica da América Latina. Para o pesquisador, o grande legado do trabalho foi discutir sobre patrimônio e memória trazendo a questão do negro como protagonista de uma tradição.

“É preciso lembrar que o negro escravizado não podia entrar na igreja católica naquele período, mesmo sendo sineiro. Hoje a gente descobriu que existe grande influência desses negros na linguagem dos sinos. As tradições são contadas por alguém que, necessariamente, coloca luz em alguns lugares e esconde outros. O papel do cientista é colocar luz em lugares antes não iluminados e mostrar que existe outra visão. Assim, é possível ressignificar a história na cabeça das pessoas”, conclui Yuri Vieira.