Forças que parecem contrárias coexistem nas obras de Bob Dylan e de Carlos Drummond de Andrade. Cultura popular e erudita, a província e a metrópole, a simplicidade e a complexidade da linguagem se encontram na produção dos dois autores. É o que aponta o pesquisador Fernando Baião Viotti, autor da tese Um mundo feito de ferro: a lírica de Drummond e Bob Dylan. Ele defendeu o trabalho de doutorado esse ano, na Faculdade de Letras da UFMG.

Viotti traça um comparativo entre os dois escritores e procura iluminar a obra de um a partir do trabalho do outro. O estudo explora ainda o potencial da arte e da linguagem poética para produzir sentido para questões fundamentais humanas. “É natural da linguagem poética a tentativa de aproximar opostos, de trabalhar sob tensões a princípio inconciliáveis. A poesia opera dentro dessa dinâmica. E especificamente o Drummond e o Dylan produziram obras que evidenciam isso. Ambos usam e abusam do humor, da auto-ironia e da observação do cotidiano, ao lado de uma reflexão profunda sobre o sujeito e sobre o mundo ao redor”, explica.

Escute o relato de Fernando Viotti e um extrato das obras de Drummond e Bob Dylan no Ondas da Ciência!

Poesia e origens

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, e Bob Dylan cresceu em Hibbing, Minnesota (EUA). Duas cidades marcadas pela exploração do minério de ferro. Segundo Fernando Viotti, Itabira é um dos símbolos mais importantes na poesia do Drummond. No caso de Dylan, Hibben também apresenta relevância. “O espaço limitado da província, que a princípio parece negativo, funciona nas obras como um estímulo de descoberta para o sujeito. Ele que quer ver o que se desdobra para além. Essa espécie de olhar estrangeiro, da província para o mundo, é algo que produz consequências na obra dos dois autores”, diz o pesquisador.