Um cientista e empreendedor de Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas, criou um equipamento para tratar lesões musculoesqueléticas. É um substituto para a tradicional a bolsa de gelo e água quente que, muitas vezes, usamos para cuidar de dores, contusões e inflamações. A inovação partiu de uma demanda do próprio pesquisador que é fisioterapeuta e precisava de solução para um problema rotineiro: a falta de gelo no posto de saúde onde trabalhava.

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Foto: Arquivo pessoal do pesquisador

Pesquisa e inovação

Quando Mário Brandão Carneiro trabalhava no atendimento à população com fisioterapeuta, enfrentava a dificuldade no tratamento de lesões. “No postinho não havia geladeira. Precisava andar uma quadra para ir até outra sala e pegar gelo”, conta. Assim, de um incômodo na rotina de trabalho surgiu a ideia de criar um dispositivo para aplicação terapêutica de frio ou calor sobre o corpo.

Mário Brandão foi fazer mestrado na Faculdade de Engenharia do Campus de Guaratinguetá da Universidade Estadual Paulista, já com intuito de desenvolver o produto que imaginou ser uma solução para o problema vivido no posto.  Da pesquisa científica nasceu um protótipo e mais à frente, devidamente patenteada, a Compressa Eletrônica iPauher.

O pesquisador iniciou os trabalhos estudando dispositivos termoelétricos, que são capazes de gerar tanto baixa quanto alta temperatura. Isto se dá pela da junção de dois condutores de materiais diferentes alimentados por uma tensão elétrica em circuito fechado.

Foto: Arquivo pessoal do pesquisador

Para desenvolver as ideias, Mário Brandão recorreu aos conhecimentos de eletrônica dentro da faculdade de Engenharia. “Comecei usando pastilhas de microprocessadores de computador. Estudei se era possível trabalhar com elas para que meu equipamento funcionasse para resfriar, igual ao gelo. Pensei assim: se a eletrônica ajudou a levar o homem à lua, vai colocar este meu produto para funcionar”, comenta. O projeto dele teve fomento da FAPEMIG.

Empreendedorismo

A partir da defesa da dissertação de mestrado, o protótipo apresentado entrou em uma fase de desenvolvimento mais profissional. Mário Brandão importou componentes, montou o dispositivo e vendeu para pessoas da própria família. Procurou lojas de produtos ortopédicos e feiras hospitalares onde pudessem estar os clientes para o produto. Uma empresa se interessou pela compra, o que obrigou Mário Brandão a se profissionalizar.

Foto: Arquivo pessoal do pesquisador

De fisioterapeuta, ele passou a empreendedor. Procurou uma incubadora em Santa Rita do Sapucaí – um polo de startups em Minas. Recebeu ajuda de empreendedores no começo da validação da compressa eletrônica. Segundo Mário Brandão, ele recebeu desde dicas sobre a área de equipamentos médicos, até o espaço para construir o produto. “Fiz tudo certinho, desde regularização na Anvisa até criação de um CNPJ. Foram três anos de trabalho e hoje tenho um produto no mercado, com patente”, afirma.

O empreendedor aponta um fator importante para seus passos no negócio que criou “Morar em Santa Rita do Sapucaí foi fundamental. Na incubadora, fiz cursos obrigatórios de marketing digital, gerenciamento financeiro e outros aspectos que um empresário precisa. Descobri também caminhos mais simples para importação de componentes”.

Como funciona a compressa eletrônica

Segundo o Mário Brandão, a componente chave da compressa é a pastilha de Peltier, que permite a produção de temperatura na junção de dois condutores (ou semicondutores) compostos de materiais diferentes. Conforme explica Mário Brandão, a compressa eletrônica tem na composição do circuito elétrico uma placa de alumínio e outra de cobre. O produto é baseado em dois efeitos:

Efeito Peltier: ao serem submetidos a uma tensão elétrica em um circuito fechado, elétrons são forçados entre as junções dos metais dissimilares, impondo uma diferença de tensão entre as placas, resultando no aquecimento e resfriamento das mesmas.

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Efeito Seebeck: fenômeno de conversão de energia térmica em energia elétrica. Quando um diferencial de temperatura é estabelecido entre as extremidades quentes e frias de um material semicondutor, com uma tensão gerada (tensão de Seebeck). É o inverso do efeito de Peltier.

“Quando recebem uma corrente, o alumínio segura a energia e o cobre acelera. Assim, a parte de alumínio esquenta e de cobre, gela. Com esse efeito, é possível fazer um equipamento que esquenta e esfria bastando, apenas, inverter o funcionamento de acordo com a necessidade”, detalha o empreendedor.

Foto: Arquivo pessoal do pesquisador

Futuro

A iPauher, empresa de Mário Brandão, já partiu para a produção de outros equipamentos como eletrocardiograma pediátrico e uma câmara hiperbárica, que é objeto de estudo do  cientista e empreendedor durante o doutorado em Engenharia Biomédica.

Mário Brandão atuou 12 anos como fisioterapeuta – trabalhando em consultório e no Sistema Único de Saúde. Afinal, o que levou um fisioterapeuta a inovar?

“A possibilidade de criar. Isso alimenta muita gente. Por mais que se tenha crise de consciência  de abandonar a profissão consolidada, vale a pena. No meu caso, o fator acadêmico, das pesquisas, me alimenta demais. Fechei o consultório de fisioterapia e entreguei meu cargo no ambulatório do SUS para me dedicar totalmente à empresa, preocupado com a área da saúde.

Saiba mais

  • Por que usamos gelado para tratar lesões?

Esta terapia, tradicionalmente usada, vem do conceito da crioterapia. Nada mais é do que o uso do frio para diminuição da temperatura dos tecidos corporais e consequentemente, o tratamento de lesões agudas.  A crioterapia tem a função de reduzir a dor e o espasmo muscular e de proporcionar a vasoconstrição, evitando a contaminação dos tecidos ao seu redor. O objetivo principal é retirar calor corporal através do resfriamento da região lesionada de modo a influenciar na reação inflamatória aguda. A remoção do calor corporal se dá por transferência de calor entre a compressa e o corpo humano, ou seja, pelo o fator de condutividade térmica de cada superfície. (trecho adaptado da dissertação de mestrado de Mário Brandão)

  • Para que serve a compressa eletrônica?

Para tratamento de diversas lesões e alívio das dores. É recomendada para tratamento de lesões e rigidez muscular e articular, inflamações agudas e crônicas, torcicolos, dor de cabeça forte, anestesia, hematomas, relaxamento, picadas de insetos, dores reumáticas, redução de edemas, abcessos, traumas, contusões, contraturas, distensões, estresse muscular, alívio de cólicas, pré e pós-cirúrgico. É usada por atletas, ou até mesmo em casos odontológicos e pós-cirurgia plástica. (trecho adaptado do manual de uso da Compressa Eletrônica iPauher)