Beleza e cura: as propriedades medicinais do ipê branco

Ipê branco

Passar por um ipê branco florido e não ser arrebatado pela sua delicada beleza é algo quase impossível. Ainda mais nos centros urbanos, onde a visão da árvore em flor, em meio ao movimento caótico de pessoas e automóveis, tem um efeito quase terapêutico. Mas, não é só a flor que possui propriedades “curativas”, a folha e a casca da madeira também as têm. No entanto, para percebê-las foi preciso olhar o ipê de um outro lugar, o lugar da ciência, como fez a pesquisadora Dênia Antunes Saúde Guimarães, coordenadora do projeto Estudo fitoquímico e avaliação das atividades anti-inflamatória e anti-hiperuricêmica de espécie do cerrado mineiro, apoiado pela Fapemig.

O projeto, conduzido na Escola de Farmácia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), chegou a uma promissora alternativa para o tratamento da gota, doença inflamatória, que acomete sobretudo as articulações, decorrente do aumento nos níveis de ácido úrico no sangue (hiperuricemia). Segundo a pesquisadora, essa elevação pode ter como possíveis causas histórico familiar, consumo excessivo de álcool, doença renal, obesidade, idade, fatores dietéticos, incluindo elevado consumo de frutos do mar, carne e vegetais ricos em purinas, por exemplo, couve-flor, aspargo, ervilhas e espinafre. “Dados presentes na literatura apontam que 10% das pessoas com níveis elevados de ácido úrico no sangue (hiperuricemia) desenvolvem gota e 90% dos pacientes com gota possuem hiperuricemia”, explica.

De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia, a gota acomete com maior frequência os homens, a partir dos 30 anos, sendo rara entre mulheres na mesma faixa etária. Porém, após a menopausa, esse grupo torna-se mais vulnerável. No entanto, conforme destaca Dênia Saúde Guimarães, para além desses dados de prevalência da doença, um fator importante, que motivou a pesquisa, foi o número reduzido de medicamentos disponíveis no mercado para o tratamento da enfermidade e os efeitos adversos apresentados pelos medicamentos atuais.

“Assim, buscamos em uma planta do Cerrado mineiro a atividade antiartrite gotosa, ou seja, atividade anti-inflamatória e de redução dos níveis de ácido úrico no sangue. Como os extratos das plantas são compostos por muitas substâncias, é possível encontrar em um único extrato o efeito anti-inflamatório e de redução do ácido úrico no sangue, tanto pela diminuição da sua síntese como pelo aumento da sua excreção. Tais extratos seriam de grande importância para o tratamento das crises de gota.”

Biodiversidade do cerrado

Segundo Dênia Saúde Guimarães, embora o Brasil possua a maior biodiversidade vegetal do mundo, apenas 8% de suas espécies foram estudadas com o objetivo de se isolar de substâncias bioativas e, das espécies estudadas, poucas tiveram suas propriedades medicinais avaliadas. No caso, a opção por estudar uma espécie do cerrado mineiro deu-se não apenas pelo fato de ele ser o bioma predominante em Minas Gerais, mas também pela elevada biodiversidade apresentada.

“O cerrado brasileiro possui maior diversidade taxonômica (gênero, família e ordem) que a Floresta Amazônica, o que leva a uma maior diversidade química entre as espécies desse bioma. Nesse sentido, a diversidade e o potencial de substâncias com atividades biológicas produzidas pelas plantas do cerrado seriam maiores que as da floresta amazônica”, destaca Dênia.

ipê rosa

Já o interesse em se observar e analisar as propriedades bioativas dos ipês, com destaque para o ipê branco (Tabebuia roseo-alba), foi motivado tanto pela prevalência da planta no cerrado, como também pelo fato de as espécies do gênero Tabebuia (ipê roxo, amarelo, branco, etc.) já serem usadas na medicina popular para o tratamento de inflamações.

“A Tabebuia roseo-alba, pertencente a família Bignoniaceae, e popularmente conhecida como ipê branco, é uma árvore nativa dos cerrado e pantanal brasileiros. E, apesar de sua utilização na medicina popular, não existem relatos na literatura científica sobre estudos acerca das propriedades biológicas e dos constituintes químicos ativos dessa planta. Assim, o projeto buscou avaliar a ação anti-inflamatória e anti-hiperuricêmica dos extratos etanólico e aquoso das folhas e da madeira do ipê branco, para a gota, bem como conhecer as substâncias responsáveis pelas atividades desses extratos.”

Plantas que curam

O trabalho de observação e análise da ação dos extratos foi realizado em camundongos swiss, que tiveram hiperuricemia induzida por oxonato de potássio. De acordo com a pesquisadora, os animais hiperuricêmicos que foram tratados, por via oral, com os extratos etanólicos e aquosos obtidos das folhas e da madeira do ipê branco, tiveram os níveis de ácido úrico no sangue reduzidos. Esses mesmos extratos também apresentaram atividade anti-inflamatória no modelo de edema de pata induzido por injeção de ácido úrico.

“O que pudemos demonstrar foi a ação do extratos na inibição da síntese de ácido úrico por bloquearem a enzima xantina oxidase no fígado dos animais. Essa enzima é responsável pela transformação da purina xantina em ácido úrico. Os extratos etanólicos e aquosos do ipê branco também apresentaram ótima atividade anti-inflamatória em modelo animal de artrite gotosa. Seus efeitos foram semelhantes aos da indometacina, anti-inflamatório usado na clínica.”

Para a pesquisadora, os resultados indicam que o uso de plantas medicinais, nesse caso, os extratos do ipê branco, tem grande potencial para tratamento da gota. E isso não só por atuarem na redução dos níveis de ácido úrico no sangue, como também pela resolução das complicações associadas à patologia, tais como a inflamação e o sequestro dos radicais livres. “Os terpenos, esteroides e compostos fenólicos detectados nos extratos do ipê branco podem ser as substâncias responsáveis pelas atividades farmacológicas deles”, explica.

A partir dos resultados obtidos, Dênia Saúde Guimarães aponta alguns possíveis caminhos para a continuidade do estudo. Inicialmente, a pesquisadora destaca a necessidade de se avaliar se os extratos etanólicos e aquosos do ipê branco possuem alguma toxicidade.

Para ela, o principal objetivo é avançar nas investigações científicas para que os extratos possam constituir matéria-prima para o desenvolvimento de fitoterápicos voltados ao tratamento da gota e da inflamação. Além disso, a pesquisadora também aventa a possibilidade de as substâncias bioativas isoladas desses extratos tornarem-se fármacos para o tratamento de processos inflamatórios e da gota, o que, em sua visão, ampliaria o arsenal terapêutico dessas patologias.

“O desenvolvimento de fitoterápicos, contendo extratos do ipê branco, poderá trazer benefícios à população brasileira por se tratar de um medicamento e, como tal, ter sua eficácia e segurança estabelecidas, proporcionando o uso racional e seguro dessa espécie vegetal nativa do cerrado brasileiro.”

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2 comentários em “Beleza e cura: as propriedades medicinais do ipê branco

  • 3 de maio de 2019 em 23:07
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    Tenho plantado os três tipos de ipe.gostaria de receber atualização sobre pesquisas dos mesmos

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  • 20 de fevereiro de 2019 em 18:04
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    Seus artigos são bem informativos, vendo que muitas pessoas buscam informações relevantes, muito bom quando encontramos conteúdo de qualidade como esse, parabéns

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