As questões existenciais que fazem o homem pensar sobre Deus como ser supremo também são discutidas e tratadas pela ciência. Cientistas se voltam aos estudos de filósofos que exploraram “as questões do ser”, de forma bem peculiar, para compreender o que nos transcende e fazer desse entendimento um conhecimento científico registrado em pesquisas.

O pesquisador Fabiano Victor de Oliveira Campos trabalha com esse tema. Na tese de doutorado, defendida pela na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pesquisou a abordagem do filósofo lituano-francês Emmanuel Levinas sobre Deus. O trabalho intitulado “O ser e o outro do ser: A questão de Deus em Emmanuel Levinas” é vencedor do prêmio Capes de Tese 2017, na categoria Ciências da Religião e Teologia.

O eixo central da tese consiste em entender o motivo pelo qual Levinas dissocia o problema filosófico de Deus e o plano ontológico (o domínio do Ser). Para ele, é inviável falar de Deus em termos de ser, ainda que o conceba sob a forma de um ser supremo. A categoria de ser, ou de existência, não é adequada para falar de Deus. Ou seja, para Levinas, afirmar que Deus é, ou que Ele existe, não são formulações adequadas do problema filosófico de Deus. Mas, por que o filósofo se posiciona assim?

É o que a tese de Fabiano Victor vai responder.

“A razão principal está, ao meu ver, no fato de o autor lituano-francês entender o Ser de modo bastante peculiar. Ao contrário de toda uma vertente da tradição filosófica ocidental, Levinas entende que o conceito de Ser, exatamente por abarcar tudo o que é ou existe, acaba por erradicar toda a singularidade e, por conseguinte, toda a diferença”, explica o pesquisador.

Para a tradição filosófica, tudo o que pode ser pensado é dito como “existente”, como “sendo”. Para Levinas, que é abordado pelo pensamento, ao ser enfeixado pelo conceito de Ser, tem a sua alteridade (isto é, a sua diferença) como que sacrificada na impessoalidade e na universalidade do conceito de ser.

Assim, a pesquisa de doutorado apontou que Levinas caminha na contramão daquela tradição que pensara que tudo o que é (ou existe) é, por isso mesmo, bom. O Ser não seria, por essa razão, um dom, uma dádiva, mas o sinal de uma impessoalidade na qual a alteridade encontra-se submersa.  Nesse contexto, Levinas se recusa abordar a questão de Deus sob a perspectiva da tradição filosófica. Então, quais os caminhos o filósofo usa para fala sobre Deus?

O trabalho de Fabiano Victor mapeia três caminhos argumentativos e teóricos usados pelo filósofo: análise fenomenológica, a questão do tempo e da linguagem. Você pode ler a tese completa baixando no site da Capes.

Perguntas para o pesquisador

MFC: O que te motivou a estudar o tema?

Fabiano Victor: À medida que me debruçava sobre a obra levinasiana, novas questões emergiam e uma delas, de modo especial, impôs-se ao meu pensamento enquanto desafio teórico a ser pesquisado e elucidado: a possibilidade de se pensar Deus além do ser, isto é, além da ontologia, compreendendo-o a partir da ética entendida como filosofia primeira.

Talvez pelo fato, estritamente de caráter pessoal misturado com um pouco de tradição cristã na qual fui educado, de ter sido seminarista nos tempos da graduação, o tema de Deus sempre se impôs a mim como uma questão a ser vivida e pensada. E mediante o estudo da obra levinasiana, bem como do processo peculiar de formação filosófica, esse tema agora se apresentava a mim como problemático e prenhe de questões a serem discutidas e repensadas.

Daí eu ter procurado o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (PPCIR-UFJF), na área de concentração de Filosofia da Religião e, sob a orientação do professor Eduardo Gross, ter me dedicado a aprofundar o redimensionamento da questão de Deus proposto por Levinas, do horizonte do ser à intriga ética da relação com o outro.

MFC: Segundo a filosofia de Levinas, “Como Deus vem à ideia?”

Fabiano Victor: A relação ética, acontecimento em que a subjetividade encontra um outro humano, o diferente, é, para o filósofo lituano-francês, o único viés possível para uma relação com Deus. É na ética, ou na responsabilidade pelo outro homem, que o nome Deus adquire um sentido, isto é, “vem” ou “desce” ao pensamento e aos lábios, isto é, à ideia e à linguagem humanas. “[…] a palavra Deus, exprimindo o fundamento incondicionado do mundo e da cosmologia, cessa de orientar a vida, para revelar, no rosto do outro homem, o segredo da sua semântica”, nos diz Levinas numa obra intitulada Alteridade e Transcendência (Altérité et Transcendance, em francês), que reúne textos de 1967 a 1989.

A relação com Deus seria, neste caso, da ordem da práxis humana e não da ordem do conhecimento teorico, do saber. Antes mesmo de um conhecimento teórico sobre Deus, a subjetividade humana se relacionaria com Ele ao caminhar na direção de outrem, numa responsabilidade infinda pela vida daqueles com os quais nos encontramos em nossa existência. Numa palavra, mais do que pensar sobre Deus, encerrando-o em categorias, conceitos e definições, somos interpelados, por Levinas, a pensar “a Deus”, ou seja, num movimento que nos conduz inexoravelmente a Ele. Esse movimento tem o seu lugar de origem na ética enquanto responsabilidade inalienável pelo Outro humano.

MFC: Que contribuições sua tese deixa para a área da Ciência da Religião?

Fabiano Victor: Penso que a relevância e/ou a importância do tema reside na possibilidade de se pensar, de uma nova maneira, o problema filosófico da questão de Deus. Isso significa que Levinas nos interpela a pensar e a abordar a questão de Deus, e a possibilidade de relação com Ele, por um novo viés. Não mais pelos caminhos do conceito, da abstração, mas por meio da relação com o outro humano, relação essa que ele denomina de “intriga ética” ou uma intriga a três – subjetividade (eu), o outro humano (o Rosto ou a alteridade de outrem, e de todos os outros) e Deus (Illeité ou Eleidade).

Essa concepção nos conduz a pensar que não apenas os que se compreendem como religiosos possam ter uma experiência de Deus, mas também aqueles que não se compreendem como vinculados a uma instituição, a uma fé e a uma tradição religiosas. Mesmo os ateus, bem como os que se declaram sem-religião e os agnósticos poderiam ter uma relação com o transcendente, por meio da responsabilidade para com o outro humano, ainda que neguem a existência divina (ateus) ou possibilidade de se conhecer a Deus (agnósticos) ou, ainda, o vínculo a uma tradição de fé. Essa relação seria da ordem da práxis humana, de ordem ética, e não da ordem do saber, do conhecimento, fosse ele místico ou intelectual.

Por um lado, a proposta levinasiana de se pensar Deus de outro modo que ser, nos conduz às raízes da própria filosofia ocidental, no sentido de levantar uma questão bastante incômoda, sobretudo à Filosofia: o que significa pensar? Pensar não equivale a abordar o que é ou existe? Ao propor pensar Deus de outro modo que ser, Levinas propõe, pois, recolocar em outros termos a questão do próprio sentido do pensamento.

Pesquisador Fabiano Victor de Oliveira Campos venceu o prêmio Capes de Tese 2017, na categoria Ciências da Religião e Teologia/ Foto: Arquivo pessoal

O pesquisador

Fabiano Victor de Oliveira Campos é bacharel em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), onde atualmente é professor. Na monografia de conclusão do curso de graduação, estudou acerca do pensamento ético de Levinas e sua crítica ao esquecimento do Outro pela tradição ontológica ocidental.

Fez Especialização em Temas Filosóficos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestrado em Ciência da Religião, na UFJF, na área de concentração Filosofia da Religião. Para dissertação, analisou o redimensionamento ético da questão de Deus em Levinas, isto é, a proposta deste pensador em abordar o problema de Deus não no horizonte do ser, mas a partir da ética da alteridade absoluta.

No doutorado da UFJF, seguiu os caminhos de pesquisa apontados no mestrado dedicando-se, portanto, ao estudo da questão de Deus em Emmanuel Levinas, mas procurando investigar por que razão ele recusava o viés ontológico. O trabalho foi orientado pelo prof. Dr. Eduardo Gross e co-orientado pelo prof. Dr. Didier Franck em período sanduíche na França.

“Com esses mestres, pude aprofundar e levar adiante a minha pesquisa, e sempre com muito êxito. O prêmio Capes de tese é um reconhecimento desse trabalho em conjunto, possibilitado também por verba público. Devo, pois, os meus agradecimentos a todos os cidadãos brasileiros que, sob a tutela dessa agência de fomento que é a Capes, investiram em minha pesquisa e formação. Cabe a mim, agora, retribuir com trabalho sério e de qualidade, colaborando para o crescimento da área em nosso país, bem como para uma formação discente de qualidade e excelência”.

Em 2017, Fabiano Victor fez pós-doutorado na PUC Minas. A pesquisa voltou-se para o tema da Epistemologia da Ciência da Religião.

PRÊMIO CAPES DE TESE

O Minas Faz Ciência produziu uma série de matérias sobre as pesquisas ganhadores do Prêmio Capes de Tese. Apresentamos os trabalhos feitos em universidades mineiras que foram premiados na edição 2017. São teses defendidas em 2016 e agraciadas com a honraria.

1ª matéria da série: Pesquisador de Minas estuda pastores evangélicos como empreendedores

2ª matéria da série: Ensaios sobre energia e mudanças climáticas

3ª matéria da série: Conheça estudo sobre as relações de classe no cinema brasileiro contemporâneo

4ª matéria da série: Cientistas criam moléculas que funcionam como imãs

5ª  matéria da série: Cientista da UFMG vence prêmio com pesquisa sobre células de defesa do fígado

O prêmio consiste em diploma, medalha e bolsa de pós-doutorado nacional de até 12 meses para o autor da tese; auxílio para participação em congresso nacional, para o orientador, no valor de R$ 3 mil; distinção a ser outorgada ao orientador, coorientador e ao programa em que foi defendida a tese; além de passagem aérea e diária para o autor e um dos orientadores da tese premiada para que compareçam à cerimônia de premiação.

A premiação é dividida por grandes áreas: de Ciências Biológicas, Ciências da Saúde e Ciências Agrárias; Engenharias, Ciências Exatas e da Terra e Multidisciplinar (Materiais e Biotecnologia); Ciências Humanas, Linguística, Letras e Artes e Ciências Sociais Aplicadas e Multidisciplinar (Ensino).