Como grandes corporações criam cenário de incertezas sobre aquecimento global

A ciência e a opinião pública envolvem controvérsias que fazem parte do processo coletivo de produção de conhecimento. O que talvez não paremos para pensar é o tanto que agências de relações públicas, corporações, agentes políticos, cientistas, jornalistas e personalidades midiáticas podem interferir nos rumos de discussões científicas. Muitas vezes, contam com estratégias concebidas para evitar a formação de consensos e a movimentação de públicos.

Esse é o tema da pesquisa de Daniel Reis Silva. Ele é vencedor do Prêmio Capes de Tese 2018, na área de Comunicação, com a tese: “Relações Públicas, Ciência e Opinião: lógicas de influência na produção de (in)certezas”. O estudo busca compreender a campanha de relações públicas financiada por grandes corporações do setor de energia e orientada para criar dúvidas sobre a existência do aquecimento global antropogênico.

O pesquisador trabalha com a ideia de “manufatura de incertezas sobre as mudanças climáticas”, uma construção social da dúvida, da tentativa de criar um cenário de ambiguidades no qual os sujeitos fiquem imobilizados e sem saber como agir ou em quem acreditar. Daniel Reis destrincha campanhas que buscam até negar a existência das mudanças climáticas.

“Importante compreender que essa campanha não assume a forma de um conjunto linear de ações, mas sim a de um emaranhado de estratégias de influência. Incorpora, por exemplo, a elaboração de falsas petições, a criação de grupos de fachada para defender pontos de vista e a confecção de materiais didáticos enviesados para estudantes do ensino fundamental”, explica.

[quote]Think Thank: funcionam como laboratório de ideias. São grupos de reflexões ou organizações de pesquisas sobre políticas públicas capazes de emitir recomendações a atores públicos.[/quote]De acordo com o cientista, a tese vai além de denunciar a existência dessas ações, mas tenta compreender as dinâmicas e lógicas de influência que as conformam. “Busca-se entender como a dúvida é socialmente engendrada, como a comunicação atua nesse processo e quais as consequências dessas ações, especialmente na opinião pública e na mobilização de públicos”, afirma.

Afinal, como o pesquisador mergulhou no universo das incertezas para entender as estratégias de influência? Ele acompanhou em profundidade um think tank específico, o Heartland Institute, explorando a participação na rede de criação de dúvidas sobre as mudanças climáticas.

Desvelando os think tanks

De acordo com o pesquisador, os think tanks são ideológicos e operam com financiamento de um grupo aparentemente neutro que servirá como porta-voz perante a opinião pública. “Essa estratégia visa ocultar interesses privados, fazendo com que posicionamentos ganhem força na esfera pública a partir de uma ideia de isenção. Assim, ao invés da própria indústria de carvão fazer uma campanha para defender seu produto, ela cria um grupo de supostos especialistas neutros que terão como função realizar essa defesa em nome de uma verdade científica ou do interesse público, ocultando seus interesses financeiros subjacentes”, detalha Daniel Reis.

[quote align=’right’]“(…) a credibilidade desses grupos torna possível que eles exerçam influência na tomada de decisões políticas – suas características fazem com que eles não possam se apoiar, por exemplo, no peso de representar um grande número de constituintes, na força de uma associação científica com milhares de membros ou mesmo no reconhecimento de uma instituição de ensino renomada” (trecho da tese)[/quote]A pesquisa dele mostra que os think tanks ideológicos estão, atualmente, no centro da campanha de criação de dúvidas sobre as mudanças climáticas, recebendo financiamento milionário de corporações e pessoas ligadas com a indústria de energia para atuar enquanto instituições “neutras”. “Eles contribuem de maneira decisiva para o clima de incerteza, na medida em que dificultam a compreensão sobre quais interesses privados perpassam os posicionamentos envolvidos no debate climático”, ressalta.

Durante a experiência de acompanhar o think tank Heartland Institute, o desafio para o pesquisador foi desvelar elementos que foram criados para permanecer ocultos. Segundo Daniel Reis, a lógica desses grupos é manter os interesses privados que os motivam afastados dos holofotes públicos, sob o risco de perda de influência.

O foco do cientista era estudar as práticas comunicativas dentro do grupo, tentando elucidar as lógicas que perpassam suas ações de “manufatura de incertezas”. Um dos principais achados da pesquisa, de acordo com Daniel Reis, é a forma em rede na qual os think tanks atuam:

“Ao mesmo tempo que a lógica em rede torna difícil seguir os rastros de cada grupo, ela fortalece suas mensagens a partir de uma dinâmica circular que oculta as origens de cada posicionamento. Nesse ponto, o acompanhamento do grupo foi semelhante a construção de um grande quebra-cabeças no qual cada peça está escondida – e nem todas podem ser encontradas. Ainda que uma imagem perfeita não possa resultar desse processo, diversas pistas e elementos foram identificados e analisados, ampliando a compreensão sobre a atuação do grupo”

Como as dúvidas são construídas?

A pesquisa sinaliza que a ciência é construída socialmente a partir de práticas retóricas. De acordo com o cientista, isso implica um afastamento de visões positivistas que igualam ciência com uma verdade superior inata e objetiva. “Ao contrário dessas, nosso entendimento é sobre como o fazer científico é permeado de contradições e processos não-lineares de negociação que abrem espaços para intervenções estratégias diversas, dentre as quais estão ações de relações públicas”, esclarece.

Mais especificamente sobre mudanças climáticas, o pesquisador apurou que relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) mostram que seriam necessárias mudanças sem precedentes na vida moderna para limitar o aquecimento do planeta a 1,5ºC até 2052. “Tais mudanças impactariam radicalmente a vida de todos nós, já que precisaríamos diminuir nossa pegada de carbono, limitando o uso de automóveis e viagens de avião, diminuindo o consumo de energia e mesmo alterando nossa alimentação”, analisa.

Perante tantas alterações, muitas delas inconvenientes para nosso dia a dia, como podemos apoiar e aceitar esse cenário?

Conforme Daniel Reis, isso só pode ocorrer quando tivermos certeza de que o IPCC e seus cientistas estão corretos, de que tais medidas são imperativas para preservação da vida na Terra como conhecemos. Em outras palavras, quando houve consenso social sobre o tema. É nesse ponto que entra em jogo a “manufatura de incertezas” e a interferência de práticas de relações públicas nos rumos de uma controvérsia:

“A campanha que lidamos na tese não é orientada para convencer cientistas, mas sim para criar dúvidas na opinião pública. Ela atua de forma a sugerir para a população que o debate científico não está encerrado, criando estratégias comunicativas orientadas para evitar a formação dos consensos necessários para a adoção de medidas significativas de controle de emissão de gases estufa”, conclui o cientista.

Três perguntas para o pesquisador

MFC: O que te motivou a estudar o tema?

Daniel: a escolha por trabalhar a manufatura de incertezas e a campanha que busca negar a existência das mudanças climáticas perpassou a compreensão de que o tópico era pouco abordado por estudos de comunicação, apesar de possuir uma grande importância no mundo contemporâneo. Trata-se, assim, da aposta de que uma pesquisa orientada para compreender as lógicas e dinâmicas envolvidas na criação de dúvidas, assim como a forma com que certas práticas abusivas de relações públicas visam influenciar a opinião pública, pode ampliar a compreensão sobre esses fenômenos e seus limites éticos, ajudando a desvelar forças e estratégias que muitas vezes permanecem ocultas.

“A tese faz parte de um percurso focado na construção de uma visão crítica sobre as Relações Públicas, que busca deixar em segundo plano a orientação funcional tradicional dessa área de estudos para eleger como eixo central de investigação as ambiguidades das práticas da área e seus impactos nas disputas de sentido e na conformação do mundo social”

MFC: O que é ser cientista na área de Comunicação?

Daniel: na minha perspectiva, focada principalmente no campo de Relações Públicas, o fazer científico está ligado com a tentativa de compreender as disputas de sentido presentes no mundo contemporâneo, desvelando lógicas e dinâmicas que muitas vezes passam despercebidas e investigando como práticas diversas de comunicação atuam nos embates de poder e na formação da opinião pública. Não se trata de um conhecimento exato, mas de esforços para ampliar o entendimento sobre os diversos elementos em jogo e os aspectos das relações entre organizações e públicos.

MFC: Quais as principais contribuições sua tese deixa para a área de Relações Públicas?

Daniel: a tese aponta para uma visão crítica sobre as Relações Públicas que oferece novas possibilidades de pesquisa que vão além das perspectivas funcionais que há tempos limitam o campo. Ainda mais importante, o trabalho confere centralidade para as ambiguidades subjacentes às práticas da área, que muitas vezes são simplesmente deixadas de lado ou minimizadas por perspectivas tradicionais. A minha visão é que são justamente as contradições e tensões que perpassam as atividades de relações públicas que constituem os objetos mais candentes de pesquisa.

Daniel Reis Silva, vencedor do Prêmio Capes de Tese 2018, na área de Comunicação. Foto: Arquivo do pesquisador

Por fim, a tese apresenta também noções acerca da desmobilização, relacionada com a forma com que a campanha de manufatura de incertezas tenta criar entraves para a formação e movimentação de públicos, e do uso estratégico da cacofonia como elemento para a construção de dúvidas, especialmente a partir das novas tecnologias digitais de comunicação, que podem ser importantes elementos conceituais para futuras investigações da área.

Sobre o pesquisador

Daniel Reis Silva é graduado em Comunicação Social, com ênfase em Relações Públicas, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O mestrado e doutorado em Comunicação Social também foram na UFMG. Atualmente, é professor na Universidade Federal de Santa Maria. As pesquisa realizadas buscam uma noção crítica das Relações Públicas, para compreender, a partir de uma perspectiva não-linear da comunicação, as formas com que a atividade impacta nas disputas de sentido e poder na sociedade contemporânea. Em especial, a ele interessa entender as ambiguidades que perpassam a atividade, assim como discutir sobre práticas abusivas que buscam influenciar a opinião pública.

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Luana Cruz

Doutoranda e mestre em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Jornalista graduada pela PUC Minas. É professora em cursos de graduação e pós-graduação na Newton Paiva, PUC Minas, UniBH e ESP-MG. Escreve para os sites Minas Faz Ciência e gerencia conteúdo nas redes sociais, além de colaborar com a revista Minas Faz Ciência.