“Quando essa pesquisa apenas se esboçava, era preciso defender a permanência da relevância das classes no cinema e na sociedade brasileiros. Era um conceito que ainda importava, insistíamos. Quase premonitório, esse estudo assistiu ao lançamento de um número de filmes que tratavam das questões de classe de uma maneira bastante central, assim como ao acirramento de conflitos na vida social – a transição de uma latência mal escondida ao manifesto quase caricatural da divisão.” [trecho da tese “INFILTRADOS E INVASORES: uma perspectiva comparada sobre as relações de classe no cinema brasileiro contemporâneo”]

Muitos cientistas da área das Ciências Humanas buscam produzir conhecimento sobre como produtos do entretenimento, arte, publicidade e design, reconfiguram nossa experiência social. São pesquisas que revisitam filmes, fotos ou livros para discutir as questões evocadas por essas obras.

A pesquisadora Mariana Souto de Melo Silva, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), seguiu esse caminho. Ela estudou, na tese de doutorado, como as relações de classe se constituem e se inscrevem em filmes brasileiros contemporâneos, tanto ficcionais como documentais. O trabalho é vencedor do Prêmio CAPES de Tese 2017, na área de Comunicação e Informação, que premiou as defesas de 2016.

Reprodução/Imagem da tese

A pesquisadora analisou, por meio do método do cinema comparado, mais de 13 filmes, sendo os principais: Santiago (João Moreira Salles, 2007), Pacific (Marcelo Pedroso, 2009), Um lugar ao sol (Gabriel Mascaro, 2009), Vista mar (vários dir., 2009), Babás (Consuelo Lins, 2010), Trabalhar cansa (Juliana Rojas e Marco Dutra, 2011), Câmara escura (Marcelo Pedroso, 2012), Doméstica (Gabriel Mascaro, 2012), Eles voltam (Marcelo Lordello, 2012), O som ao redor (Kleber Mendonça Filho, 2012), Em trânsito (Marcelo Pedroso, 2013), Casa grande (Fellipe Barbosa, 2015) e Que horas ela volta? (Anna Muylaert, 2015).

Segundo Mariana Souto, foram organizadas “coleções” e “constelações” com esses filmes, agrupando-os em torno de questões comuns. A metodologia do cinema comparado, apesar de não ser nova, é pouco comum nas pesquisas acadêmicas da área. É um método com raízes na literatura comparada, um campo mais estabelecido.

Conforme a pesquisadora, foi possível tecer análises que costuravam elementos de vários filmes a uma só vez, tentando entender esse conjunto, observando tendências e movimentos. “Não eram, portanto, análises individualizadas, filme a filme, mas ensaios que relacionavam grupo de 2, 3, 5 filmes numa só levada”, explica.

Reprodução/Imagem da tese

Motivações

O trabalho é uma continuidade das investigações de Mariana Souto no mestrado, quando ela estudou figurações da classe média no cinema brasileiro contemporâneo. Para o doutorado, expandiu o tema. Para ela, seria interessante pensar as relações de classe, isto é, não apenas uma classe isoladamente, mas “as relações que se forjavam entre elas”.

“O Brasil é um país muito desigual, com conflitos acentuados – ora mais ora menos velados, porém muito presentes, talvez mais do que em muitos países. Isso sempre me instigou. Nos últimos anos, talvez por conta das últimas eleições, é possível que os conflitos tenham se tornado ainda mais manifestos, com os lados das disputas muito definidos, em rusgas que, muitas vezes, descambam para a animosidade e até o ódio. O cinema brasileiro está atento a esses movimentos e me parece um lugar que não só repercute a nossa experiência social, como intervém sobre ela, a reelabora. Me parece um lugar privilegiado para se olhar”, conclui Mariana Souto.

Perguntas para a pesquisadora

MFC: Quem são os infiltrados e quem são os invasores no contexto da sua tese?

Mariana Souto: “Infiltração” e “invasão” foram elementos que surgiram ao longo das análises, com certa recorrência, mas que apareciam em sentidos diversos. Em alguns casos, a “infiltração” era arquitetada pelos diretores, em filmes que desenhavam esse dispositivo de adentrar em determinado universo, em geral protegido e pouco acessível ao cinema.

Por exemplo, no filme “Doméstica”, documentário de Gabriel Mascaro, sete adolescentes recebem a tarefa de filmar as empregadas domésticas que trabalham em suas casas. Ou seja, trata-se de um tipo de filme que não é filmado por uma equipe profissional de cinema, com o diretor presente em set, mas calcado no que nomeei “dispositivo de infiltração“.

Dessa forma, o diretor pôde ter acesso ao interior dessas casas, ao que acontece nessas relações íntimas (que mesclam poder e afeto), sem uma presença mais impactante do cinema. Assim, pôde observar e preservar (o máximo possível, mas claro que não inteiramente, pois uma câmera sempre modifica as pessoas) um pouco da intimidade do que acontece no âmbito dessas residências.

As relações de classe em outros filmes, especialmente nos ficcionais, se davam não de forma harmoniosa, mas com um personagem de uma classe sendo percebido como “invasor” no seio de outra. Filmes como “Que horas ela volta?” (Anna Muylaert) se apresentam dessa maneira: a personagem da Jessica, filha da empregada doméstica Val, é sentida como uma invasora no contexto daquela família de classe alta.

Os personagens invasores, em geral, causam desconforto e incômodo na classe invadida, mostrando como essas relações são difíceis, delicadas e armadas. Algo interessante é que os invasores detêm o poder de colocar tudo em perspectiva: como não fazem parte daquela classe, olham tudo com desconfiança e questionam. Jessica não entende, por exemplo, por que o quartinho da mãe é tão pequeno e por que ela não pode entrar na piscina da casa. Com isso, faz com que as “regras tácitas” e não ditas da nossa sociedade se ponham a nu, sejam reveladas e expostas naquilo que têm de injusto e de absurdo.

Em “O som ao redor” (Kleber Mendonça Filho ) há também a figura dos invasores materializada nos vigias, que são contratados para garantir a segurança dos moradores de um bairro de classe média alta do Recife, mas a presença deles acaba por abalar toda a estrutura daquele lugar.

MFC: Como as relações de classe se constituem e se inscrevem em filmes brasileiros contemporâneos?

Mariana Souto: De formas muito diversas, a depender do filme. Algumas questões comuns, no entanto, surgiram, como as relações de classe calcadas no medo – e, muitas vezes, o cinema ficcional recorria a elementos do gênero do terror para dar conta de expressar essas conexões. Em geral, as classes mais altas aparecem muito amedrontadas pela classe popular.

Além do medo, a culpa também era um sentimento recorrente, com a má consciência de classe. Algo que surgiu muito nos filmes contemporâneos que analisei foram as relações de trabalho doméstico – com patrões e empregadas domésticas, vigias, babás. São bastante diferentes da tradição do cinema brasileiro de outros tempos, na qual filmavam relações de classe no universo da fábrica, da construção civil e do campo.

As relações mais observadas pelo cinema hoje são essas dentro de casa e isso traz uma série de ambiguidades e opressões veladas, como a velha frase “ela é quase da família”.

MFC: Quais as contribuições da sua tese para a área da Comunicação? 

Mariana Souto: Creio que minha pesquisa produziu conhecimento de interesse para a área, de forma mais abrangente, por ser um estudo mais panorâmico no cinema brasileiro contemporâneo, que não se atém a um ou dois filmes apenas, mas tenta traçar uma observação sobre um momento de forma transversal.

Além disso, a metodologia, um tanto inusual, pode inspirar novos trabalhos a se arriscarem mais e a testarem metodologias novas, a manejar os filmes de forma inventiva. Incentivar a ouvir mais os filmes ao invés de partir de uma teoria colocada a priori. Olhar para os filmes como se fosse a ilustração dessa teoria. O que tentei fazer foi olhar para os filmes e ver o que deles surgia, quais questões convocavam, como eles falavam e reconfiguram nossa experiência social.

A pesquisadora (por ela mesma)

“Meu início no cinema foi num curso na Escola Livre de Cinema, onde conheci meus amigos e parceiros de trabalho até hoje. Fiz mestrado e doutorado na Comunicação, na UFMG, com um período de doutorado sanduíche na Universitat Pompeu Fabra (UPF), em Barcelona – Espanha. Na UFMG, integrei o grupo de pesquisa “Poéticas da Experiência”, que foi fundamental para minha formação.

Me divido entre a academia e a prática, trabalhando na equipe de alguns filmes. Atualmente integro a equipe de montagem de um longa chamado No coração do mundo, que deve ser lançado ano que vem. Fui professora substituta na UFMG por dois anos e hoje sou docente no curso de Cinema e Audiovisual do Centro Universitário UNA. Trabalho também com curadoria em mostras e festivais.”

PRÊMIO CAPES DE TESE

O Minas Faz Ciência produziu uma série de matérias sobre as pesquisas ganhadores do Prêmio Capes de Tese. Estamos apresentando os trabalhos feitos em universidades mineiras que foram premiados na edição 2017. São teses defendidas em 2016 e agraciadas com a honraria.

1ª matéria da série: Pesquisador de Minas estuda pastores evangélicos como empreendedores

2ª matéria da série: Ensaios sobre energia e mudanças climáticas

O prêmio consiste em diploma, medalha e bolsa de pós-doutorado nacional de até 12 meses para o autor da tese; auxílio para participação em congresso nacional, para o orientador, no valor de R$ 3 mil; distinção a ser outorgada ao orientador, coorientador e ao programa em que foi defendida a tese; além de passagem aérea e diária para o autor e um dos orientadores da tese premiada para que compareçam à cerimônia de premiação.

A premiação é dividida por grandes áreas: de Ciências Biológicas, Ciências da Saúde e Ciências Agrárias; Engenharias, Ciências Exatas e da Terra e Multidisciplinar (Materiais e Biotecnologia); Ciências Humanas, Linguística, Letras e Artes e Ciências Sociais Aplicadas e Multidisciplinar (Ensino).