O gosto pelo cultivo de plantas em casa é um hábito que precisamos resgatar de nossos vovôs e vovós. Também o consumo de alimentos plantados no próprio quintal, costume que perdemos em detrimento da facilidade de comprar tudo pronto e no ponto. Se você nunca ouviu falar em azedinha, araruta, taioba, vinagreira, beldroega, chuchu-de-vento, bertalha, ora-pro-nóbis ou capuchinha, a gente vai falar um pouquinho sobre elas.

TAIOBA ou taiá (Xanthosoma sagittifolium (L.) Schott e Xanthosoma taioba E.G.Gonç. – Família: Araceae). Fonte de vitaminas A, B, C e dos minerais ferro, fósforo e cálcio

ARARUTA ou araruta-palmeira (embiri Maranta arundinacea L. – Família: Marantaceae). Fonte de carboidrato, proteína, vitaminas e sais minerais

Pesquisadores da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG) estão envolvidos, desde 2008, em um projeto de popularização do uso de hortaliças não convencionais, usadas algumas décadas atrás na culinária brasileira. Esse nome é dado em oposição às consideradas hortaliças convencionais, aquelas encontradas regularmente no comércio, como alface, batata, couve, tomate etc. A ideia do projeto é resgatar, multiplicar, divulgar e distribuir propágulos de hortaliças, muitas vezes, esquecidas.

A EPAMIG criou um Banco de Hortaliças Não-Convencionais (BHNC) no Campo Experimental Risoleta Neves (CERN), em São João del-Rei, Região Central de Minas. As mudas vieram do primeiro BHNC da EPAMIG, implantado em 2008, no Campo Experimental Santa Rita (CESR), na cidade de Prudente de Morais. O CERN foi criado com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). De 2013 a 2015, foi mantido por projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

Durante todo o tempo das pesquisas, mais de 10 mil mudas, sementes, rizomas e estacas foram distribuídas para população local, horticultores urbanos, universitários, cientistas, chefes de cozinha, entre outros públicos interessados.

ALMEIRÃO-DE-ÁRVORE ou ALMEIRÃO-ROXO (Lactuca canadensis L. – Família: Asteraceae): fonte de vitaminas e minerais (cálcio, fósforo, ferro e potássio)

A coordenadora do projeto Izabel Cristina dos Santos conta que o campo experimental também chama atenção de prefeitos de cidades vizinhas, secretários de agricultura, turistas do Rio de Janeiro e São Paulo e até mesmo, arquitetos interessados em construir jardins comestíveis.

“Muitas dessas hortaliças, além de deliciosas, têm uma beleza incomum. O ora-pro-nóbis e a capuchinha, por exemplo, têm flores lindas”, explica.

Conhecendo hortaliças não convencionais

No campo experimental, os pesquisadores multiplicaram e distribuíram cerca de 30 tipos de hortaliças. Além de algumas que já citamos, há também almeirão-de-árvore, almeirão-roxo, caruru-do-reino, cansanção, urtiga, cará-do-ar, cará-moela, coentro-de-caboclo, chicória-de-caboclo, feijão-mangalô, feijão-guandú, jacatupé ou feijão-macuco, jurubeba, mangarito, peixinho, lambari-da-horta, orelha-de-coelho, pulmonária, quiabo-da-seca, quiabo-longo de quina, entrou outras.

CHUCHU-DE-VENTO ou chuchu-paulista, chuchu-do-reino, maxixe-do-reino, maxixe-peruano, maxixe-do-norte, boga-boga, cayo, taiuá-de-comer, pepino-do-ar (Cyclanthera pedata (L) Schrad – Família: Cucurbitaceae). Rico em cálcio, fósforo, proteínas, caroteno, riboflavina, niacina e água

Além de cultivar e distribuir, os pesquisadores dão cursos, preparam cartilhas e apostilas ensinando a plantar (baixe aqui). A equipe também publicou artigos científicos sobre adubação, multiplicação, valor nutricional e sistemas orgânicos.

O trabalho também resulta em vasta produção técnico-científica com a criação de processos, protótipos, plantas-piloto, softwares e bancos de dados.

Segundo Izabel Cristina, a multiplicação dessas hortaliças é importante para a preservação das espécies e melhoria da qualidade nutricional da alimentação, com impacto positivo no resgate do patrimônio cultural e gastronômico de Minas Gerais e do Brasil.

Ademais, a comercialização dessas hortaliças, que começam a ser oferecidas principalmente em feiras de produtos naturais e orgânicos, é mais uma opção de renda para os agricultores.

Centenas de pessoas participaram dos eventos sobre o tema, organizados pela EPAMIG ou por terceiros.

Memória e alimentação

Para mais dos impactos sociais, ambientais, tecnológicos e econômicos de resgatar as hortaliças não convencionais, há uma relação de memória com o ato de cultivar.

Izabel Cristina conta que foi motivada a pesquisar essas plantas por causa de lembranças da infância.

“Quando era criança eu comia algumas delas na minha cidade, Santo Antônio do Monte. Taioba, ora-pro-nóbis, capiçoba, por exemplo, eram abundantes muito por lá. Hoje em dia, eu tenho em casa, planto no meu quintal que é grande e consumo regularmente. Dá para substituir várias convencionais. A bertália substitui muito bem espinafre. Faço como refogados, misturo com ovos ou faço omeletes”.

ORA-PRO-NÓBIS de flores claras ou lobrobô, carne-de-pobre (Pereskia aculeata Mill. – Família: Cactaceae). Rico em proteína (cerca de 25%) e minerais

Essa cultura da pesquisadora está “contaminando” de forma positiva os colegas de trabalho. “Eu envolvo os colegas. Eles comem e experimentam. Com a vinagreira, a gente faz o chá de hibisco e todo mundo da EPAMIG agora faz geleia. As hortaliças entraram no hábito alimentar de toda a equipe”, afirma Izabel Cristina.

Dos cálices secos dos frutos da planta Hibiscus sabdariffa é que se faz o chá de hibisco comercializado, geleias e xaropes. Das folhas da vinagreira de folhas roxas (Hibiscus acetosella) faz-se chá (servido quente ou gelado). Foto: Izabel Cristina dos Santos