Estudo analisa arquitetura de imóveis centenários em São João del-Rei

Cidade na qual a poesia se debruça nas janelas dos casarios. E onde becos bucólicos misturam-se a igrejas grandiosas, largos de tradição e montanhas de contorno. No mais, a mineira São João del-Rei caracteriza-se por portas e fachadas, meio desalinhadas e coloridas, capazes de garantir o tom de diversidade à arquitetura.

Resgatar a história desse importante patrimônio do Estado, por meio das construções, é a tarefa de preservação de uma série de pesquisadores da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Ao encarar a missão, eles realizaram o levantamento de edificações remanescentes no município, com o intuito de documentar a diversidade de estilos arquitetônicos. O resultado é um inventário com mais de 40 imóveis, sobre os quais foram descritos o tipo de alvenaria predominante, a tipologia construtiva, as características do entorno e o estado de conservação.

Inventário enumera tipos de alvenaria, tipologia construtiva, características do entorno e estado de conservação. Foto: Arquivos do pesquisador

“São João del-Rei é muito rica em construções históricas. A cidade se diferencia de outros municípios mineiros porque não ficou congelada. Ouro Preto, por exemplo, conta com um dos maiores acervos de casarios barrocos e coloniais do mundo. Lá, existem técnicas de alvenaria e materiais correspondentes ao contexto de um período. Em São João, é diferente, pois ocorreram modificações a cada ciclo econômico e histórico”, comenta o professor Mateus Martins, coordenador do projeto de pesquisa, ao destacar que, hoje, existem, no município, construções com estilo barroco, neoclássico e neogótico, dentre outros. “As alvenarias e as técnicas acompanharam as mudanças”, explica.

O grupo de pesquisadores escolheu os casarões que integrariam o inventário segundo seus estilos arquitetônicos. Para tal, visitaram os imóveis, fotografaram, entrevistaram moradores e observaram os tipos construtivos. A equipe encontrou grande diversidade de técnicas: há casarios de terra crua, tijolo maciço, taipa de pilão, pau-a-pique, bloco de concreto, pedra, adobe, dentre diversas outras alvenarias.

No ver de Mateus Martins, o banco de dados com informações sobre os imóveis contribui com a preservação do patrimônio cultural edificado. Mesmo que certas construções estejam descaracterizadas, é possível saber se foram compostas de pedra, tijolo, argamassa de cal ou barro. Além disso, compreende-se a estrutura de fundação das casas.

Uma alvenaria em adobe, por exemplo, diz respeito ao uso de tijolos crus, que não passam pela queima. Eles são secos, naturalmente, pela ação do sol e do vento. Para confecção dos adobes, recorre-se a água, palha, areia e estrume, que funciona como estabilizante. Em seguida, misturam-se os elementos, até que se forme a massa consistente que é posta em formas de madeira, para configuração dos tijolos.

Construções históricas revelam diversidade arquitetônica. Foto: Arquivo do pesquisador

Segundo o professor, tais paredes têm alta capacidade estrutural, sendo usadas, predominantemente, nas partes externas dos edifícios. O modelo adobe foi muito empregado em casarios de São João del-Rei. Mateus explica que, apenas no final do século XIX, e no início do XX, surgiram as alvenarias de tijolos cerâmicos, que dependem de queima e resultam em tipo construtivos bem mais resistentes à água.

A pesquisa de resgate histórico envolve equipe multidisciplinar de arquitetos, historiadores e engenheiros.

“É muito importante envolver outras áreas. Não posso, por exemplo, restaurar uma igreja histórica, de 200 ou 300 anos, com um problema no altar, sem saber algo sobre a fundação e a alvenaria daquela construção. O restauro que não se atenta a questões estruturais pode significar trabalho jogado fora”, esclarece.

Se que saber mais sobre patrimônios históricos encontrados nas zonas rurais de Minas, leia na versão impressa da revista Minas Faz Ciência:

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Luana Cruz

Doutoranda e mestre em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Jornalista graduada pela PUC Minas. É professora em cursos de graduação e pós-graduação na Newton Paiva, PUC Minas, UniBH e ESP-MG. Escreve para os sites Minas Faz Ciência e gerencia conteúdo nas redes sociais, além de colaborar com a revista Minas Faz Ciência.