Muito se celebra, atualmente, a miríade de possibilidades libertadoras da internet – meio, para muitos, liberto das amarras e dos interesses de grupos e poderes hegemônicos. Segundo tal visão, quem (ou “o que”), afinal, teria a capacidade, ou a petulância, de impedir a liberdade de expressão em ambiente tão complexo, descentralizado e multifacetado, capaz não apenas de amplificar a voz dos indivíduos, como de democratizar o consumo de bens simbólicos?

A web e seu calcanhar de Aquiles

No ver de Tim Wu, escritor, advogado e professor da Universidade Columbia, em Nova Iorque, ainda é cedo para comemorações. Colunista dos principais jornais norte-americanos e ex-executivo de tecnologia no Vale do Silício, o autor se dedica, em Impérios da comunicação, a minuciosa análise dos principais Ciclos (sim, com “C” maiúsculo) tecnológicos “enfrentados” pela sociedade capitalista, ao longo do século XX, de modo a sugerir cautela quanto à propalada competência libertária da internet.

É que, conforme revelam as experiências interpretadas por Wu, do desenvolvimento da telefonia ao surgimento da web, praticamente todas as tecnologias nascem auspiciosas, dispostas a inspirar gerações e gerações a sonhar com sociedades melhores, unidas por “novos modos de expressão”. Com o passar das décadas, contudo, o sonho acaba substituído pela realidade das grandes corporações – e suas enormes “mãos invisíveis”.

Leia um trecho:

“A história mostra uma progressão característica das tecnologias da informação: de um simples passatempo à formação de uma indústria; de engenhocas improvisadas a produtos maravilhosos; de canal de acesso livre a meio controlado por um só cartel ou corporação – do sistema aberto para o fechado. Trata-se de uma progressão comum e inevitável, embora essa tendência mal estivesse sugerida na alvorada de qualquer das tecnologias transformadoras do século passado, fosse ela telefonia, rádio, televisão ou cinema. A história mostra também que qualquer sistema fechado por um longo período torna-se maduro para um surto de criatividade: com o tempo, uma indústria fechada pode se abrir e se renovar, fazendo com que novas possibilidades técnicas e formas de expressão se integrem ao meio antes que o empenho para fechar o sistema também comece a atuar.”

Ficha técnica:

Livro: Impérios da comunicação – Do telefone à internet, da AT&T ao Google

Autor: Tim Wu

Tradução: Claudio Carina

Editora: Zahar

Título original: The master switchThe rise and fall of information empires

Páginas: 432

Ano: 2012