“Fui criada em ambiente de imaginação, incentivo à criatividade e valorização da ciência”. Eis o modo como Elizabeth Pacheco Batista Fontes define a natureza de seu desenvolvimento pessoal: filha de docente universitário, a futura engenheira de alimentos percebe, desde cedo, que não conseguiria seguir outros oficios senão os da pesquisa e do ensino acadêmicos.

Hoje professora titular do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Elizabeth lembra que se interessou por Química ainda na infância. “Na verdade, sempre fui fascinada pelos processos de transformação da natureza”, conta. Como não poderia deixar de ser, tais mudanças do meio ambiente tornaram-se, justamente, a base das linhas de pesquisa às quais dedicou grande parte de sua vida.

Os estudos desenvolvidos por Elizabeth dizem respeito à genômica funcional de estresses fisiológicos em plantas. De modo mais específico, seu interesse está em identificar componentes moleculares de vias de sinalização das células vegetais que ligam as mudanças no meio ambiente a certo crescimento diferencial. Ela também se interessa por variação global da expressão gênica e produtividade agrícola.

Tal abordagem científica tem permitido elucidar novos mecanismos de defesa inata das plantas contra a infecção de vírus e fungos, além de outras vias de sinalização celular capazes de protegê-las da seca e das altas temperaturas. O objetivo eventual do estudo seria elucidar os mecanismos moleculares de proteção das células vegetais às agressões do meio ambiente. “Poderemos, então, manipulá-los racionalmente, visando à obtenção de cultivares superiores, que mantenham alta produtividade agrícola, mesmo sob condições restritivas de crescimento e desenvolvimento de plantas”, explica a pesquisadora, que é casada com o também professor universitário Renildes Fontes, além de mãe de dois filhos e avó de dois netos.

Os resultados das investigações de Elizabeth possibilitam o melhoramento, sustentável e em larga escala, da agricultura brasileira – com ênfase no Norte do Estado e no Triângulo Mineiro, regiões onde o estresse hídrico e as altas temperaturas representam limitações permanentes para a produtividade e a distribuição agrícola. “O panorama tende a piorar com as premissas de mudanças climáticas, que preconizam o aumento de temperatura no globo e das áreas com características de seca”, observa a professora, ao reforçar que o também o crescimento exponencial da população mundial, com previsões acertadas para 2050, desafiam a seguridade alimentar no planeta.

Na toada de suas pesquisas, Elizabeth viajou muito, principalmente, para participar de congressos científicos. Além dos Estados Unidos, onde já passou duas temporadas de estudos, apresentou trabalhos em eventos sediados em países como Canadá, México, Chile, Argentina, Inglaterra, Bélgica, Holanda, Índia, França, Itália, Hungria, China, Tailândia, Singapura e Austrália.

Reconhecimento

Em 2016, Elizabeth venceu o prêmio Marcos Luiz dos Mares Guia, realizado pelo Governo de Minas e pela FAPEMIG, com o estudo “Novos mecanismos de imunidade antiviral e respostas adaptativas a estresses fisiológicos em plantas”. A pesquisa abordou dois problemas básicos da agricultura brasileira, relacionados à infecção de plantas por begomovírus e o crescimento de plantas sob condições de seca. “O prêmio representa o reconhecimento máximo ao trabalho dos cientistas em Minas Gerais que contribuíram, efetivamente, para o avanço científico e tecnológico”, orgulha-se a pesquisadora.

Até alcançar tal condecoração, foram décadas de estudos e dedicação. Formada em Engenharia de Alimentos pela UFV, Elizabeth obteve o grau de mestre em 1982, pela mesma instituição. O PhD veio em 1991, pela North Carolina State University (NCSU), nos EUA, na área de Biologia Molecular. Ao longo ano seguinte, a pesquisadora continuou na NSCU, no papel de consultora científica em 1992, quando conduziu trabalhos pioneiros para a identificação de chaperones moleculares em plantas e a elucidação dos mecanismos de replicação de geminivírus.

De 2003 a 2004 e de 2011 a 2013, ficou em licença sabática no The Salk Institute for Biological Studies, em La Jolla, na Califórnia (EUA), para explorar as áreas de sinalização celular e genômica funcional.

No ver de Elizabeth, a carreira de um professor universitário não se resume à reprodução do conteúdo de livros e textos. O processo de ensino demanda que o professor mantenha-se engajado com a pesquisa, cujo conhecimento adquirido deve ser compartilhado, em primeira mão, com os estudantes. Desse modo, a aprendizagem acaba fundamentada no desenvolvimento de senso crítico, para solução de problemas em diversas áreas. “Não podemos apenas formar o estudante. É preciso capacitá-lo a exercer, racional e criativamente, a profissão escolhida”, destaca.

Dedicação de vó

Quando não está por conta da academia e da pesquisa, além de ir ao cinema, Elizabeth gosta de se dedicar aos netos, Gabriel, de 2 anos, e Maria Oliveira, de 8 meses. “Eis uma atividade que me proporciona grande satisfação”, garante, ao confessar que também já teve a dança como hobby.