A pesquisadora em seu laboratório na Universidade de Utah

Liliana Werner em seu laboratório na Universidade de Utah

Nascida em Manhuaçu (MG), e formada em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Liliana Werner é, hoje, uma das diretoras do John A. Moran Eye Center, centro de referência mundial em estudos de lentes para catarata na Universidade de Utah, em Salt Lake City, nos Estados Unidos. Filha de pai médico, que inspirou a escolha profissional de três dos quatro filhos, a pesquisadora via no ofício médico um caminho natural.

A residência em Oftalmologia no Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, foi o primeiro passo de uma série de escolhas que a levaram à carreira internacional. No entanto, antes mesmo de ter certeza sobre a especialidade que seguiria no futuro, Liliana já tinha vontade de atuar no exterior, em busca de enriquecimento pessoal e profissional: “Comecei a estudar inglês e francês antes de entrar na faculdade. Sempre tive interesse particular por Paris, cidade tão linda e rica culturalmente”, conta.

Quando estava por terminar a residência em Belo Horizonte, Liliana viajou à capital francesa em busca de aperfeiçoamento, com o intuito de passar um ou dois anos, e lá se especializou nas pesquisas em retina. Ao final de seu segundo ano na cidade, um dos professores do hospital Hôtel-Dieu a indicou para projeto em um programa de PhD de Biomateriais.

Decidida a abraçar a oportunidade, a pesquisadora se vinculou à Université René Descartes: “Meu projeto de PhD, que durou quatro anos, abordava as modificações de superfície de materiais usados na fabricação de lentes intraoculares para a cirurgia de catarata. Fascinei-me com o fato de as lentes representarem os implantes artificiais mais utilizados em Medicina e poderem ficar dentro dos olhos dos pacientes por várias décadas, com biocompatibilidade apropriada”, explica.

A ida aos Estados Unidos foi sugestão de seu orientador de tese na França. “Ele indicou o laboratório de David Apple, à época, o líder nessa área de pesquisa”. Liliana seguiu de Paris a Charleston, na Carolina do Sul, nos EUA, onde começou a trabalhar no laboratório de Apple. Seis meses após sua chegada, contudo, o professor foi diagnosticado com câncer, ficou afastado por vários meses, e ela acumulou mais e mais responsabilidades. “Um ano depois, eu já ocupava a posição de Professor Assistente Visitante, e, ao receber o Green Card, fui promovida a Professora Assistente”.

O laboratório acabaria por se transferir para o John A. Moran Eye Center, ligado à Universidade de Utah, em Salt Lake City, e passou a ser dirigido por Randall Olson. Liliana foi, então, promovida a “Professora Associada”. E, com a aposentadoria de Apple, falecido em 2011, assumiu a direção do laboratório, juntamente ao pesquisador Nick Mamalis. Em 2016, a médica receberia sua última “promoção”, ao assumir cargo similar, no Brasil, ao de “Professor Titular” – e, para além da carreira nos Estados Unidos, desenvolveu atividades em Berlim, na Alemanha, entre 2006 e 2008, onde ajudou a desenvolver o Berlin Eye Research Institute.

Parcerias internacionais

O laboratório dirigido por Liliana Werner, nos EUA, desenvolve diferentes projetos em parceria com fabricantes de lentes de todo o mundo, por meio de estudos in vitro, investigações experimentais em olhos de cadáver e modelos animais, dentre outras técnicas. Busca-se, assim, colaborar com a criação de protótipos de lentes – e outros implantes oculares – que só serão conhecidos pela comunidade oftalmológica após vários anos de pesquisas.

Outra linha de análise se desenvolve a partir de parceria com bancos de olhos nos Estados Unidos, que enviam, ao laboratório, órgãos de doadores, já falecidos, operados de catarata com implante de lente intraocular. “É uma oportunidade única, na Medicina, analisar, diretamente, olhos inteiros, nos quais foram feitos implantes em épocas diferentes. São inestimáveis as informações que podemos obter”, declara.

Grande parte da produção do laboratório relaciona-se à análise de lentes intraoculares “explantadas” devido a diferentes problemas, conforme explica Liliana: “Este trabalho é um dos meus preferidos, já que recebemos lentes enviadas por cirurgiões do mundo inteiro, e, assim, temos a oportunidade de colaborar com os colegas, inclusive vários brasileiros”. O laboratório já avaliou mais de 7 mil lentes de diversos pacientes de todo o mundo. As investigações frequentemente resultam na publicação de artigos em colaboração.

As redes criadas a partir da pareceria internacional contribuem para aproximar a pesquisadora do cenário brasileiro. Liliana foi a primeiro integrante honorária da Brazilian Society of Cataract and Refractive Surgery (BRASCRS), título recebido no “XIII International Congress on Cataract and Refractive Surgery”, realizado no Rio de Janeiro, em 2014. Apesar disso, não existem projetos específicos de parceria entre a Universidade de Utah e universidades brasileiras.

“Em nosso laboratório, temos um programa de pre-residency fellowship, que recebe três pesquisadores por ano. Em geral, americanos que terminaram o curso de Medicina nos EUA e querem passar um ano conosco, fazendo pesquisa e publicando em jornais científicos, para melhorar o currículo”. Já os oftalmologistas estrangeiros passam um tempo mais limitado no laboratório: em média, de dois a três meses, para desenvolver projetos de pesquisa específicos. Já recebemos oftalmologistas de vários países, como Brasil, Índia, Grécia e Alemanha. O Moran Eye Center tem uma divisão internacional, que também recebe oftalmologistas estrangeiros no papel de observadores das diferentes atividades de pesquisa, cirurgias e exames clínicos”.

 

Financiamento privado

Grande parte do suporte financeiro do laboratório é obtido por meio de estudos realizados para fabricantes de lentes intraoculares e outros implantes, em modelo de financiamento privado ainda não pouco comum em todas as áreas de pesquisa no Brasil. “Fazemos vários estudos pré-clínicos, in vitro e in vivo, em modelos animais, que os fabricantes usam para aperfeiçoar seus protótipos durante diferentes fases do desenvolvimento”.

Assim como acontece no Brasil, a legislação americana prevê que os fabricantes tenham seus produtos e implantes aprovados por agências reguladoras, como o Food and Drug Administration (FDA), para poderem, então, ser comercializados. “Vários estudos de biocompatibilidade são necessários e nosso laboratório é a entidade que executa os estudos pré-clínicos necessários, de maneira independente do fabricante, mas com seu suporte ”, explica Liliana.

Os fundos levantados com estudos financiados pela indústria permitem que os pesquisadores do John A. Moran Eye Center realizem pesquisas sobre áreas de interesse próprio, que são independentes do interesse da indústria, acerca de temas, por exemplo, como complicações de implantes intraoculares: “Assim, temos condições de avaliar as lentes intraoculares explantadas por colegas oftalmologistas no mundo inteiro, e sem custo para eles”.

Biomateriais

As lentes intraoculares estudadas no John A. Moran Eye Center podem ser descritas como afácicas/pseudofácicas – implantadas após cirurgia de catarata – ou fácicas, inseridas sem cirurgia de catarata prévia. Neste caso, trata-se de lentes usadas para correção de erros refrativos relativamente elevados, como miopia alta. A maioria dos estudos desenvolvidos no laboratório relaciona-se a lentes implantadas após cirurgia, mas os pesquisadores também trabalham com implantes em outras áreas da Oftalmologia, como glaucoma.

Para a fabricação das lentes, recorre-se a biomateriais (polímeros) que podem ser divididos em dois grupos gerais: acrílicos e silicones. “Lentes acrílicas podem ser divididas em dois tipos: rígidas – fabricadas a partir de polimetilmetacrilato (PMMA) – e dobráveis, feitas com materiais acrílicos hidrofóbicos ou hidrofílicos”, detalha Liliana, ao explicar que as lentes de silicone são também dobráveis, e, por isso, podem ser inseridas dentro do olho a partir de incisões muito pequenas, de aproximadamente 2.8 mm, sem necessidade de suturas para o fechamento.

“Para que funcionem bem dentro do olho humano, essas lentes devem ter qualidade ótica apropriada, além de serem fabricadas a partir de materiais purificados, em desenhos apropriados para os diferentes sítios de fixação dentro do olho. Assim, apesar de representarem um corpo estranho, elas induzirão apenas reações inflamatórias mínimas no período pós-operatório. E permanecerão transparentes em longo prazo”, explica.

Jovens pesquisadores

Abraçar a carreira internacional é um dos grandes sonhos de pesquisadores em início de carreira. A tarefa, contudo, não se revela fácil. Os caminhos nem sempre são claros, e, como demonstra a trajetória de Liliana, podem ser marcados por coincidências e fatalidades fora do controle e do planejamento dos indivíduos. Para quem almeja uma carreira internacional, a pesquisadora orienta que é preciso estar preparado para as oportunidades, mesmo que não se saiba quando vão aparecer. “Primeiramente, é vital estudar línguas estrangeiras o mais cedo possível. O mundo é globalizado, e falar inglês bem já amplia automaticamente os horizontes. No entanto, em um país como a França, é imperativo aprender a língua local, para fazer um curso ou uma tese nas universidades, já que os franceses não se sentem à vontade com outro idioma no dia a dia”, pontua.

Outra orientação para quem ainda está na Universidade é começar a pesquisar as instituições em que sua área de estudo é bem desenvolvida, e, então, entrar em contato diretamente com os programas, de maneira a expressar interesse e a indagar sobre possíveis oportunidades para cursos ou estágios de aperfeiçoamento. “É importante, também, perguntar sobre suporte financeiro, já que, muitas vezes, existem programas de cooperação entre universidades internacionais, bolsas, ou suporte financeiro para projeto especifico, que o estudante pode pleitear”.

A participação em congressos e eventos acadêmicos internacionais não deve ser menosprezada. “Se é possível encontrar-se com profissionais internacionais, não perca a oportunidade de falar pessoalmente com alguém que trabalha em sua área de interesse. Quando analiso minha trajetória, nem passava pela minha cabeça, ao estudar Medicina em Belo Horizonte, que um dia eu iria me estabelecer como pesquisadora de implantes oculares nos Estados Unidos. No entanto, isso, hoje, me proporciona uma satisfação e um senso de propósito incomensuráveis”, conclui.

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