O cineasta e o monstro

A pele que habito

Para quem ainda não assistiu o mais novo filme do cineasta Pedro Almodóvar, A pele que habito, uma dica: vale a pena dar uma olhadinha. No entanto, a dica acompanha um alerta: não vá ao cinema esperando voltar mais leve ou se distrair depois de um dia cansativo. A pele que habito não é um filme agradável de se ver. A agonia das personagens torna-se sua própria agonia. A nova criação do cineasta espanhol, no entanto, é cinematograficamente interessante e, suscitando divagações filosóficas, traz uma discussão sobre os limites da pesquisa médica.

A pesquisa pode e deve servir para levar a avanços na medicina, mas nunca tirar a autonomia de uma pessoa sobre seu corpo. Acredito nos progressos da pesquisa, inclusive no campo da boa conduta e não acredito que experimentos alheios a todo e qualquer direito humano, como os sugeridos por Almodóvar, ou mesmo os que já foram registrados na nossa história, como os ocorridos nos campos de concentração nazistas, possam ainda acontecer.

Hoje, a regulamentação da ética na pesquisa faz parte das políticas públicas da maior parte dos países. No Brasil, desde 1996, o Conselho Nacional de Saúde, aprovou a Resolução 196, Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas envolvendo Seres Humanos, que criou o Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Desde então, os Comitês de Ética em Pesquisa têm crescido em número, em reflexões e em conhecimento sobre o tema.

É uma discussão polêmica e cheia de nuances, que certamente eu não conseguiria abarcar em uma postagem curta, mas acho bom destacar que filmes como A pele que habito, se não para nos fazerem relaxar, servem para nos recordar a responsabilidade do pesquisador e o compromisso da pesquisa com a ética. É um poder quase divino: o de trazer boas novas à vida de alguém ou o de tirar suas esperanças.

Aquele que quiser conferir A pele que habito nos cinemas ainda tem tempo. Uma coisa é certa: o filme de Almodóvar é bizarro… Mas genial.

A pele que habito

Titulo Original: La Piel que Habito
Gênero: Drama
Duração: 120 min.
Origem: Espanha
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar e Thierry Jonquet
Censura:16 anos
Ano: 2011

Sinopse
Desde que sua esposa foi queimada em um acidente de carro, o Dr. Robert Ledgard, um iminente cirurgião plástico, interessou-se em criar uma nova pele com a qual ele poderia tê-la salvo. Depois de 12 anos, ele consegue criar uma pele que é um verdadeiro escudo contra qualquer forma de agressão.

Além de anos de estudo e experimentação, Robert precisava de mais três coisas: nenhum escrúpulo, um cúmplice e uma cobaia humana. A falta de escrúpulos nunca foi um problema. Marília, a mulher que cuidou dele desde que nasceu, é sua mais fiel cúmplice. Mas a cobaia humana…

Dicas de leitura:

Minas faz Ciência – Especial Bioética
Disponível aqui.

Lideranças de comitês de ética em pesquisa no Brasil: perfil e atuação
Disponível aqui.

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Um comentário em “O cineasta e o monstro

  • 11 de dezembro de 2011 em 17:58
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    Legal o texto! Bom exemplo de como o cinema pode fazer refletir sobre a ciência e sua produção.

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