Mulher faz ciência: o desafio de pesquisar a divulgação científica


Publicado em 27/11/2019 às 08:00 | Por Alessandra Ribeiro

Luisa Massarani, pesquisadora divulgação científica

A divulgação científica, enquanto prática, existe há séculos. No Brasil, pelo menos desde o início do século XIX. No entanto, a área acadêmica, de pesquisa da divulgação científica, só começou a ganhar força nos últimos 30 ou 40 anos. Assim, Luisa Massarani contextualiza o surgimento do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência (INCT- CPCT), do qual é coordenadora [assista ao vídeo abaixo]. A rede de grupos de pesquisa nacionais e internacionais é sediada na Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. As atividades começaram em 2017, com o objetivo de fortalecer a pesquisa nesse campo no País.

Desde então, os pesquisadores se dedicam a quatro linhas de estudos: percepção pública da ciência e tecnologia; públicos dos museus de ciência; redes sociais e ciências; e políticas públicas na área da divulgação científica. Tais pesquisas são apresentadas na série A ciência da divulgação científica, disponível no Youtube.



Quanto ao reconhecimento da área pelos pares, Luisa pondera: “um percentual importante de pesquisadores não se dão conta de que a divulgação científica possa ser objeto e fenômeno de pesquisa. Não é que desconsiderem sua importância, mas não está no imaginário deles”.

Divulgação científica é responsabilidade

Para Luisa, a divulgação científica, em si, tem um caráter de prestação de contas. “No Brasil, a maior parte da pesquisa científica é financiada por dinheiro público. É responsabilidade social do cientista ter interesse em contar para a sociedade o que está fazendo”, afirma.

Ainda assim, ela considera importante a vocação e o domínio das técnicas específicas para que este papel seja cumprido a rigor. “Não adianta fazer uma divulgação científica inapropriada, chata, que o cientista faça por obrigação”. Se o profissional não tem perfil para atuar como protagonista da divulgação científica, espera-se que ele apoie os mediadores, “para fazer esse diálogo com a sociedade da melhor maneira possível”, recomenda.

Divulgação científica e curiosidade

O interesse pela ciência surgiu ainda na adolescência, no momento da escolha profissional. “A área de ciências da saúde e biológicas era o meu interesse maior. Tinha um pouco a ver com o fato de que meu pai era professor da universidade, na área da engenharia química”, conta. Mas Luísa não conseguia se ver dentro de um laboratório, trabalhando com um tema específico.


Eu tinha a imagem (e ainda tenho) de que o cientista foca num tema de interesse e trabalha a fundo naquilo.

O que influenciou a opção pela divulgação científica foi a própria personalidade, marcada pela curiosidade sobre várias questões. “Eu poderia trabalhar com temas de ciência, não especificamente em um tema, mas de uma maneira mais geral. Num dia eu estaria fazendo uma matéria de ciências biológicas, no seguinte de ciências exatas, etc.”, exemplifica.

A trajetória da pesquisadora na área começou na década de 1980, ainda como estudante de Comunicação Social. Foi quando ingressou como estagiária na Ciência Hoje, primeira revista de divulgação científica brasileira, então vinculada à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Ao longo de mais de dez anos, atuou como repórter na publicação e, ao final, como editora e coordenadora da Ciência Hoje das Crianças, direcionada ao público infantil.

Carreira acadêmica

Luísa fez mestrado em Ciência da Informação, pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Em seguida, o doutorado foi na Área de Gestão, Educação e Difusão em Biociências, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente, é coordenadora da SciDev.Net para América Latina e Caribe. A pesquisadora atuou, também, como diretora executiva da RedPOP-Unesco, rede de popularização da ciência e da tecnologia para a América Latina e o Caribe (2014-2017). É autora de mais de cem artigos sobre comunicação pública da ciência e tecnologia publicados em jornais científicos. Em 2016, recebeu o Prêmio José Reis de Divulgação Científica, concedido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) a profissionais e instituições que se destacam na área.

Mulher faz ciência

Luisa Massarani será uma das personagens do segundo volume do e-book Mulher faz Ciência, com lançamento previsto para fevereiro de 2020, por ocasião do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência (11/02). A publicação dá visibilidade a pesquisadoras que se destacam em suas área, com o objetivo de incentivar o ingresso de estudantes na carreira científica. Aproveite para conhecer, também, outras personagens que estarão no novo volume.

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