Cartografia do vinho no Sul de Minas: patrimônio, território e ruralidade

Não é de hoje os vinhos de Minas Gerais têm se tornado uma grande vitrine para o estado. Mostramos, recentemente, que os consumidores mineiros adquirem o vinho para ocasiões especiais, como confraternizações, jantares e, até mesmo, para presentear. Ademais, os vinhos mineiros estão se destacando mundo afora! Algumas garrafas levaram medalhas no Brazil Wine Challenge de 2018, em São Paulo, outras foram premiadas no Decanter World Wine Awards 2017, em Londres.

No estado, o cultivo da uva e a produção de vinho estão presentes de maneira mais acentuada no sul e foi com o intuito de mapear e identificar as expressões e a tradição da vitivinicultura nessa região que o professor do curso de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Marcelo Cervo Chelotti, realizou a pesquisa “Patrimônio da uva e do vinho: residualidades e novas expressões da vitivinicultura no sul de Minas Gerais”.

O trabalho, desenvolvido no programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), dedica-se a discutir a pertinência da tríade patrimônio, território e ruralidade para caracterizar as expressões contemporâneas da vitivinicultura na localidade e compreender a construção de uma valorização da uva e da produção artesanal do vinho ao longo da história.

Parreiras no Sul de Minas. Foto: Arquivos do Pesquisador

Da etimologia ao percurso da pesquisa

A palavra “vitivinicultura” se refere à atividade que envolve o cultivo das vinhas e a fabricação de vinho. O interesse de Chelotti pelo assunto surgiu de uma “provocação” feita por sua orientadora, Rosa Maria Medeiros, a respeito de como andava o mapeamento e o estudo da vitivinicultura em Minas Gerais.

“Em um desses eventos da geografia, ela me provocou dizendo: ‘Olha, Marcelo, você mora em Minas Gerais e nós temos uma lacuna em relação à discussão do patrimônio da uva e do vinho’. Foi aí que comecei a olhar com mais atenção a essa problemática”, conta.

Os levantamentos de Chelotti começaram em Caldas e Andradas, duas das cidades que concentram os maiores registros da tradição da produção de uva e vinho e que foram fundamentais na elaboração da pesquisa e na busca por respostas sobre o assunto. O professor conversou em campo com agricultores locais, chamados por ele de “guardiões do vinho”, sobre como começou a tradição vitivinicultora e em qual momento ela se organizou enquanto atividade produtiva.

“É uma pesquisa qualitativa. Usamos instrumentos como diário de campo e entrevistas longas. Há uma tradição na Geografia e Antropologia em trabalho de campo, no qual se valoriza o empírico, o pé na realidade, a conversa com sujeitos. Dialoguei muito com senhores e senhoras entre 70 e 80 anos”, diz.

Foram usados, também, documentos dos arquivos municipais e casas de cultura com relatos sobre festas da uva e do vinho, além de jornais antigos. Com apoio das secretarias de cultura municipais, foram encontradas pessoas com vasto acervo pessoal de rótulos e garrafas de vinhos. Em complemento, dados do IBGE com séries histórias da produção de uva em Minas Gerais ajudaram a construir uma cartografia do cultivo em Minas, desde a década de 50 até a atualidade. Fotografias da paisagem dos vinhedos na região também foram essenciais.

O processo de coleta de dados e desenvolvimento do projeto estendeu-se de 2017 a 2019. Os registros encontrados pelo pesquisador mostraram que a região produz vinho há mais de 100 anos. De maneira artesanal, há relatos de nativos de que em 1890 já havia a produção da bebida.

Preservação e patrimônio

O trabalho dedicou-se a sistematizar, organizar e discutir a geograficidade da região, além da identificação da existência de um patrimônio material verificado a partir da existência de adegas vinícolas e da festa da uva e vinho, que ocorre há mais de 50 anos tanto em Caldas quanto em Andradas.

Esse movimento auxiliou na estruturação de arquivos para o primeiro Museu do Vinho de Minas Gerais, que ficará na cidade de Andradas.

Existe também um patrimônio imaterial, destacado pelo pesquisador, que se encontra na construção dos saberes daqueles sujeitos envolvidos na produção de vinho por pelo menos quatro gerações. O estudo ainda faz o levantamento bibliográfico de outras pesquisas feitas sobre as variedades de uvas cultivadas e as características do solo e do clima local.

Parreiras no Sul de Minas. Foto: Arquivos do Pesquisador

Mundo do vinho

No mundo do vinho, segundo Chelotti, existe o que os especialistas chamam de terroir, uma relação íntima entre o solo e o micro-clima. A especificidade de cada local onde é plantada a uva influencia a qualidade, tipicidade e identidade em um grande vinho.

O terroir presente no Sul de Minas é o tropical de altitude, entre 1.000 e 1.100 metros de altitude. Hoje, essa relação entre clima e solo, associada a técnicas de cultivo do homem, resultam numa característica singular para uvas cultivadas em Andradas e Caldas.

A esse terroir, duas espécies de uva adaptaram-se mais facilmente: as Videiras Americanas e as Vitis viníferas. As primeiras, produzem uvas mais comuns usadas na produção de suco e vinho artesanal, classificado como “vinho de mesa” e muito consumido entre os brasileiros. As videiras Vitis viníferas são de matriz europeia, entre as quais estão as uvas Syrah Chardonnay. Essas dão origem a bebidas de mais qualidade agregada, os chamados “vinhos finos”.  

Cultivo da uva

A visita a órgãos de pesquisa como a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater), a Secretaria Municipal de Cultura e a Empresa Mineira de Agropecuária (Epamig), auxiliou na obtenção dessas informações. Na Epamig, Chelotti identificou ainda uma técnica desenvolvida nos últimos 20 anos e que é utilizada no ciclo de produção das parreiras: a dupla poda.

De acordo com o ciclo natural da videira, no hemisfério sul, a colheita acontece entre janeiro e fevereiro, depois a planta entra em dormência e o ciclo recomeça. No entanto, com a aplicação da dupla poda, o ciclo é alterado para estimular a rebrota das videiras sob condições de boa amplitude térmica.

“Com essa técnica, a poda é feita em novembro, quando a parreira estaria produzindo as bagas. Isso induz a planta a rebrotar e ter seu auge produtivo em julho, época que é frio na noite, quente durante o dia e não chove. Essas condições são ideais para a produção de vinhos finos porque fazem com que o brics [teor de açúcar da uva] dentro da uva se potencialize”, explica Chelotti.

Segundo o pesquisador, quanto maior a amplitude térmica, mais a uva vai se estressar e produzir mais açúcar. “É isso que vai fazer com que esse vinho tenha a condição de ser um vinho de excelente qualidade, um vinho de guarda, como a gente chama”, complementa.

A aplicação da dupla poda exige, no entanto, que a parreira seja mais vigorosa e resistente, para que o ciclo seja consistente. A produção da uva em julho traz os melhores vinhos em Minas Gerais, premiados em campeonatos internacionais na França e na Inglaterra, segundo o pesquisador. As uvas que se adaptaram a essa técnica são a Chardonnay, a Sauvignon e a Syrah.

Memória

Para o pesquisador, as contribuições que o trabalho oferece à sociedade residem no resgate e valorização de um patrimônio histórico e da memória de um legado. Chelotti faz uma comparação com outros produtos conhecidos culturalmente em território mineiro, como o café e o queijo, no sentido de chamar a atenção do poder público para subsidiar políticas públicas que reconheçam o vinho como patrimônio cultural.

“Uma sociedade sem memória, é uma sociedade que tende ao seu fracasso. Em Minas Gerais não há uma política do estado para incentivar diretamente a vitivinicultura. Diferente de como ocorre o Rio Grande do Sul, onde há uma política de incentivo do estado para essa área”, reflete.

O pesquisador

Marcelo Cervo Chelotti é gaúcho, nascido na cidade de Dom Pedrito. Há 10 anos, leciona na UFU e, apesar de estar no Triângulo Mineiro, tem amigos no Sul do estado onde visita com frequência. Em uma das passagens por Caldas, se deparou com a paisagem de vinhedos que ativaram uma memória de infância.

 “Remeti-me à minha cidade e à lembrança do meu avô, que era descendente de italianos e pequeno produtor de vinho artesanal. A imagem descontruiu um imaginário senso comum de que Minas produz apenas café, cachaça e queijo. A uva ali me chamou atenção”, relata.

TRÊS PERGUNTAS PARA O PESQUISADOR

MFC: O que representou a experiência de estudo aprofundado do vinho, vivência com pessoas que cultivam e proximidades com esse produto tão encantador?

Chelotti: dento da Geografia, meu foco sempre foi o mundo rural. Neste trabalho, era importante entender a ruralidade que é forte no Sul de Minas, associada à vitivinicultura. Queria compreender as questões ligadas à tradição de produção artesanal do vinho, de que forma permanece ou se ressignifica. Há um movimento de modernização da produção, com a fabricação de vinhos finos, mas meu foco era a tradicionalidade se refletindo na territorialidade. A pesquisa me ajudou a reforçar minhas concepções de que o mundo rural não é voltado para o agronegócio – exclusivamente uma questão capital. Há outros modos de vida que não foram destruídos. Tradição e modernidade não são excludentes ainda mais quando se fala em Minas e Rio Grande do Sul que têm um interior imenso.

MFC: Como as gerações futuras poderão preservar a memória do vinho no Sul de Minas, manter a tradição e emancipar o potencial da região?

Chelotti: a sociedade de Andradas está muito organizada em educação patrimonial, viram que isso tem valor e pode agregar para a cidade culturalmente e como rota de turismo. O que outrora poderia parecer associado a um vinho de qualidade duvidosa, ganha status de especial porque tem valorização local, de identidade com o Sul de Minas. Talvez o turista esteja em busca disso. Na pesquisa, vi adegas em processo de fechamento e construções em ruínas – que chamei de taperas do vinho. No entanto, há um grande movimento para tombamento de prédios e criação de planos museológicos. Talvez o vinho não seja a principal fonte de renda do município, mas forjou o território de Andradas e a sociedade percebeu que se não preservar sua história, não poderá se reconhecer. Meu relatório do pós-doutorado sintetiza as novas expressões do vinho – como os produtos finos, mas mostra a tradição viva. Os agentes das cidades estão lutando para manter isso vivo. Espero que minha pesquisa ajude nesta educação patrimonial.

MFC: Por que escolheu fazer ciência, na área de Geografia, estudando aspectos de geograficidade e cultura do vinho?

Chelotti: no Brasil, nossa cultura do vinho é pouco popularizada. Há registros sobre o Sul do país, interior de São Paulo e Sul de Minas, mas poucos estudos voltados para Ciência Humanas. Quando a gente observa Itália, Espanha, Portugal, há inúmeros geógrafos pesquisando como a uva e o vinho organizam territórios. Tem uma cátedra da Unesco em Borgonha, na França, coordenada por uma geógrafa que estuda os territórios do vinho. Muito inspirado nesta cátedra, decidi fazer o estudo. Minha orientadora é coordenadora do Centro do Patrimônio e Cultura do Vinho (CEPAVIN/UFRGS) e me apontou uma lacuna em estudos de relações sociais e culturais da bebida em Minas. As pesquisas da área de agronomia estão bem desenvolvidas, principalmente pela Epamig, mas faltavam essas questões sociais.


(Com informações do jornalista João Pedro Rabelo da assessoria de imprensa da UFU)

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Luana Cruz

Doutoranda e mestre em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Jornalista graduada pela PUC Minas. É professora em cursos de graduação e pós-graduação na Newton Paiva, PUC Minas, UniBH e ESP-MG. Escreve para os sites Minas Faz Ciência e gerencia conteúdo nas redes sociais, além de colaborar com a revista Minas Faz Ciência.

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