O inverno 2017 trouxe queda recorde nas temperaturas em Minas Gerais – há poucos dias, Belo Horizonte amanheceu com o título de capital mais fria do país. O clima é ideal para quem gosta de apreciar um bom vinho e, nesse quesito, Minas também está se destacando!

Recentemente, vinhos mineiros foram destaque no prêmio Decanter World Wine Awards 2017, em Londres. Dos 27 vinhos brasileiros, cinco são elaborados com a tecnologia da dupla poda, desenvolvida no Núcleo Tecnológico Uva e Vinho da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), em Caldas, território Sul.

O prêmio Decanter World Wine Award 2017 foi organizado pela revista inglesa Decanter – uma das mais tradicionais e respeitadas publicações sobre vinhos no mundo. Contou com avaliação de mais de 17 mil vinhos, julgado por 219 experts, contando com 65 mestres de vinhos e 20 mestres sommeliers.

O sucesso no prêmio Decanter é reflexo de um trabalho de pesquisa exitoso da Epamig que aperfeiçoou a qualidade dos vinhos finos produzidos no Brasil em propriedades no Sul de Minas, Rio de Janeiro e São Paulo. Parte dessas pesquisas conta com financiamento da Fapemig.

O destaque vai para a técnica da dupla poda, que implica na inversão do ciclo produtivo da videira, alterando para o inverno o período de colheita das uvas destinadas à produção de vinhos.

Os resultados são impressionantes: só em MG, cerca de 2,5 milhões de litros de vinho são elaborados, incluindo tintos, brancos e espumantes.

Confira a entrevista com a pesquisadora Renata Vieira da Mota, do Núcleo Uva e Vinho da Epamig:

Renata em seu laboratório. Crédito: Samantha Mapa / Epamig

MFC: Como o manejo do vinhedo influencia a composição físico-química dos frutos?

A equipe do Núcleo Tecnológico Uva e Vinho da EPAMIG trabalha de forma integrada e multidisciplinar. Somos três pesquisadores, com especializações nas áreas de fitotecnia (manejo, Dr. Murillo Regina), fisiologia vegetal (resposta da planta, Dra. Claudia Souza) e ciência dos alimentos (composição, Dra. Renata Mota). Também compõe a equipe a enóloga Isabela Peregrino, responsável por avaliar o ponto de colheita e vinificação.

Por se tratar de uma técnica recente, a da dupla poda, muitas questões precisam ser respondidas a respeito do comportamento da planta e as condições de manejo da viticultura tradicional. Porta-enxerto, densidade, sistema de condução, direção das linhas de plantio, clones, desbaste de ramos e/ou cachos, desfolha, irrigação são alguns dos aspectos que ainda precisam ser avaliados para otimizar a produção de uvas voltadas a elaboração de vinhos finos no sudeste brasileiro.

Qualquer interferência na planta provoca uma resposta metabólica com consequência na composição das bagas e do vinho. O porta-enxerto, por exemplo, é responsável pela formação do sistema radicular da planta. Sistemas mais profundos, com boa capacidade de assimilação de água e nutrientes, contribuem para o aumento do dossel vegetal. A maior área foliar aumenta a capacidade de formação de fotoassimilados, que serão divididos entre a parte vegetativa e os frutos.

É uma situação bastante interessante para regiões com pouca disponibilidade hídrica e necessidade de aumento de compostos de reserva na planta, como ocorre no manejo da dupla poda, em que a planta precisa formar ramos duas vezes por ano, mas também pode ser prejudicial para a qualidade do vinho por aumentar o sombreamento dos frutos e assim reduzir a formação de compostos fenólicos, precursores de aroma e o decréscimo da acidez.

Para garantir um bom balanço entre produtividade e qualidade, testamos porta-enxertos de baixo a elevado vigor, avaliamos a resposta fisiológica da planta e a composição das uvas e do vinho. O mesmo estudo se dá para outras questões do manejo já mencionadas acima, como sistema de condução, densidade de plantio. Cada técnica de manejo vai provocar uma resposta específica na planta, que pode ser benéfica ou não para a qualidade do produto final.

Os resultados obtidos nestes experimentos servem para orientar os produtores sobre como instalar e manejar seus vinhedos para garantir elevada qualidade da uva e do vinho com boa produtividade.

MFC: Quais as características da uva produzida por vocês? Que tipo de vinho é desenvolvido?

Créditos: Samantha Mapa Epamig

Temos três linhas principais de estudo: 1. produção de uvas viníferas para elaboração de vinhos finos brancos e tintos; 2. produção de uvas viníferas para elaboração de vinhos espumantes; 3. produção de uvas americanas para elaboração de vinhos de consumo corrente e suco.

Em todos os casos, buscamos a produção de uvas sadias, com elevado teor de açúcar, acidez equilibrada e, no caso das uvas tintas, elevado teor de antocianinas e taninos maduros.

As cultivares Syrah e Sauvignon Blanc foram as que mais se adaptaram ao manejo em dupla poda e, por isso, representam a maior parte do vinho fino produzido na região sudeste. Estudos já estão sendo conduzidos para introduzir novas cultivares, porém, ainda é preciso verificar as variáveis de manejo para a produção dessas uvas com qualidade e produtividade.

Sempre que temos volume suficiente de uvas, um mínimo de 20 kg, fazemos a vinificação para comprovar o efeito do manejo na composição do vinho. Todo o processo de vinificação é acompanhado por avaliações químicas. Logo após o engarrafamento e durante o envelhecimento em garrafa, o vinho é analisado quanto a composição em álcool, acidez, açúcar residual, índice de cor, compostos fenólicos, índice de pigmentos polimerizados, aroma, dentre outras avaliações, além de ser submetido a avaliação sensorial.

Dependendo da cultivar, são realizadas vinificações em branco, tinto, rose ou espumante. Para os vinhos espumantes, utilizamos o método tradicional, em que a segunda fermentação é realizada na garrafa.

MFC: As uvas são produzidas em que região de Minas? Como a geografia e o clima influenciam no vinhedo?

Aqui em Minas, na região serrana, temos vinhedos de uvas Chardonnay e Pinot Noir voltados principalmente para a elaboração de vinhos espumantes. Em regiões de menor altitude, como Três Corações, Três Pontas, São Sebastião do Paraíso, Araxá, Santana dos Montes, Santo Antônio do Amparo, encontramos vinhedos principalmente das uvas Syrah, para elaboração de vinhos tintos, e Sauvignon Blanc, para vinhos brancos.

Textura e composição química do solo, além das condições climáticas, influenciam na capacidade de absorção de água e nutrientes, formação de fotoassimilados, temperatura das bagas, com consequências diretas na formação do dossel vegetal e composição dos frutos. Por isso, os vinhos elaborados em diferentes regiões produtoras apresentam características típicas do local de origem das uvas, mesmo que provenientes da mesma cultivar e submetidas ao mesmo manejo.

Atualmente, minha pesquisa está centrada nesta questão, na composição das bagas e do vinho da uva Syrah elaborado sob manejo da dupla poda em diferentes regiões do sudeste brasileiro. O levantamento dos compostos de maior expressão em cada uma das regiões vai orientar a futura indicação de procedência dos Vinhos de Inverno do Sudeste Brasileiro.

Um brinde ao vinho mineiro e à técnica de dupla poda da Epamig (Crédito: Kelly Brito)

“A premiação é resultado do trabalho conjunto do setor produtivo e da pesquisa. O investimento realizado anualmente no campo, com o cuidado nas práticas culturais realizadas no vinhedo, o emprego das técnicas de manejo recomendadas pela pesquisa, o cuidado na colheita e na elaboração do vinho são os fatores responsáveis por esse sucesso”, Renata Mota.