Restauração florestal em áreas mineradas

A mineração é uma das principais atividades econômicas brasileiras, e vem acompanhada por uma série de impactos ambientais. Após o encerramento da atividade mineradora, as minas são fechadas. Áreas que antes eram ocupadas por ecossistemas naturais, como florestas nativas, devem então passar por ações de restauração florestal. São adotadas técnicas para a recuperação do solo e para o retorno da biodiversidade local com o tempo.

Pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) analisaram esses processos e seus resultados. Estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado tiveram acesso a regiões de mineração de bauxita na Zona da Mata mineira. Fizeram o monitoramento e experimentos de restauração nas áreas mineradas. Os estudos foram fruto de parceria entre o Laboratório de Restauração Florestal da UFV e a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA).

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Inventário e indicadores de restauração florestal

Um dos estudos conduzidos na UFV fez o inventário de uma das áreas mais antigas restauradas, com marcações, medições de diâmetro e altura de todas as árvores e identificação taxonômica das mesmas. Foram aplicados também outros indicadores, como análises de solos, de fertilidade e compactação, produção e decomposição de serapilheira, regeneração natural e banco de sementes do solo.

Inventário florestal: árvores foram marcadas por plaquetas / Imagem cedida por Sebastião Venâncio

“Nossos resultados têm mostrado que, com as técnicas de restauração aplicadas, as áreas mineradas de bauxita estão retornando em poucos anos à uma condição ecológica similar àquela anterior à mineração”, diz Sebastião Venâncio Martins, professor doDepartamento de Engenharia Florestal da UFV.

Segundo o pesquisador, os inventários florestais mostraram, na floresta restaurada em área minerada há mais de uma década, uma diversidade de espécies arbóreas superior ao de algumas florestas secundárias da região. “Mostraram também que algumas espécies de árvores já localmente raras estão sendo reintroduzidas com sucesso em áreas mineradas, o que é muito positivo para a conservação dessas espécies”, completa.

Uma das teses de doutorado, desenvolvida nas unidades de Mirai e de Itamarati de Minas, comparou imagens de satélite anteriores à chegada da mineração e nos dias atuais. O trabalho mostrou um aumento da cobertura florestal nas duas paisagens e uma redução nas perdas de solos por processos erosivos. “Isso se deve, além das ações de restauração florestal das áreas mineradas, pela compensação ambiental em áreas não mineradas, em que são plantadas espécies nativas”, explica Martins.

Manejo das áreas mineradas

A recuperação das áreas afetadas péla mineração depende de ações diretas e indiretas.

Ações diretas

As ações diretas passam pela recuperação do solo e pela seleção de espécies mais adequadas para as áreas afetadas. Nas áreas estudas pelos pesquisadores da UFV, indica-se:

  • Plantio de espécies nativas regionais de crescimento rápido e de copa larga para o recobrimento do solo.Leguminosas com capacidade de fixar nitrogênio e melhorar rapidamente o solo, em plantio simultâneo ou escalonado com outras espécies que não tenham essas características, mas que aumentam a diversidade na área.
  • Semeadura de adubos verdes (crotalária e feijão-guandu) nas linhas do reflorestamento com plantas nativas, para melhorar e proteger o solo e evitar a entrada de espécies agressivas.
  • Um boa proporção de espécies zoocóricas. As zoocóricas são essenciais para a atratividade da fauna, que por sua vez dispersa as sementes dessas espécies e traz sementes de outras florestas do entorno para as áreas em restauração.
  • Práticas de descompactação, conservação e melhoria da fertilidade do solo.
  • Aproveitamento do topsoil, ou solo rico, como fonte de sementes, nutrientes e matéria orgânica. A ação favorece o crescimento das mudas plantadas e a regeneração de espécies nativas vindas do entorno ou presentes no banco de sementes.

Ações indiretas

As ações indiretas são adotadas no entorno das áreas mineradas, mas visam favorecer o seu processo de restauração. Incluem também atividades de promoção de educação ambiental nas comunidades locais.

  • Definição das melhores áreas para compensações ambientais, ou seja, áreas que uma vez restauradas facilitam a conectividade dos fragmentos florestais existentes nas paisagens.
  • Adoção de culturas que também contribuem para uma maior permeabilidade e conectividade na paisagem. No programa de restauração florestal da UFV, está previsto a adoção de sistemas alternativos de reflorestamento. Neles, árvores nativas são contempladas, por exemplo com plantios mistos de eucalipto com espécies nativas, de pupunha e outras palmeiras para produção de palmito.

Retorno da avifauna

No cenário estudado, a presença de aves é considerada um indicador da recuperação da biodiversidade local. “Um dos componentes da fauna mais importantes, por responder rápido a alterações da cobertura florestal de uma paisagem, é a avifauna. Muitas espécies de aves também participam de importantes processos ecológicos como a polinização e a dispersão de sementes, contribuindo assim com a regeneração natural das florestas”, explica o professor Sebastião Venâncio Martins.

Os hábitos alimentares da fauna configuram informação importante nesse tipo de levantamento. As aves frugívoras, que se alimentam de frutos, são essenciais para a zoocoria, a dispersão de sementes que auxilia na regeneração das florestas. E nas áreas restauradas avaliadas na Zona da Mata mineira, estão presentes espécies de aves frugívoras, atraídas por árvores frutíferas nativas plantadas após a mineração. “Os estudos que já realizamos com avifauna têm mostrado uma boa diversidade nas áreas restauradas, sendo que essa diversidade tende a aumentar com a idade da área e com a proximidade de outros fragmentos florestais” afirma Martins.

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