As múltiplas tensões entre público e privado rendem discussões as mais diversas.

Na década de 1970, Richard Sennett, professor da London School of Economics e da Universidade de Nova York, dedicou-se ao tema por meio de questão basilar:

o cidadão tornou-se egoísta, a ponto de desprezar tudo o que não diz respeito às suas “fronteiras emocionais”, ou, ao contrário, a esfera pública impossibilitou o desenvolvimento e ceifou as expectativas do indivíduo?

Clássico das ciências sociais, O declínio do homem público – As tiranias da intimidade parte de tal problematização para dissecar uma série de conceitos seminais à vida em coletividade – a exemplo de “burguesia”, “cidade”, “plateia” e “relação ‘teatro-sociedade’”.

Para além disso, Sennett promove acurada reconstituição analítica, ao delimitar, com precisão, o período histórico no qual observa a sobrevalorização da “burocracia impessoal da ordem pública”.

Dividido em quatro partes, a obra discute, respectivamente,

  • “O problema público”;
  • “O mundo público do ‘Antigo Regime’”;
  • “O tumulto da vida pública no século XIX”; e
  • “A sociedade intimista”.

Ao longo de tal complexo percurso, busca-se alinhavar as causas do que, para o autor, pode ser chamado de “fim da cultura pública”.

Em tempos de exacerbação do “eu” – por vezes, em detrimento da própria existência do “outro” (inimigo-mor do indivíduo-ator) –, o pensamento de Sennett apresenta-se como importante contribuição ao debate de ideias.

Leia um trecho:

“Hoje, a vida pública também se tornou questão de obrigação formal. A maioria dos cidadãos aborda suas negociações com o Estado com um espírito de aquiescência resignada, mas essa debilitação pública tem um alcance muito mais amplo do que as transações políticas. Boas maneiras e intercâmbios rituais com estranhos são considerados, na melhor das hipóteses, formais e áridos e, na pior, falsos. A própria pessoa estranha é uma figura ameaçadora, e muito poucos podem sentir um grande prazer nesse mundo de estranhos: a cidade cosmopolita.

Uma res publica representa, em geral, aqueles vínculos de associação e de compromisso mútuo que existem entre pessoas que não estão unidas por laços de família ou de associação íntima: é o vínculo de uma multidão, de um “povo”, de uma sociedade organizada, mais do que vínculo de família ou de amizade. Como na época romana, a participação na res publica é hoje, na maioria das vezes, uma questão de estar de acordo; e os fóruns para essa vida pública, como a cidade, estão em estado de decadência.”

Ficha técnica:

Livro: O declínio do homem público – As tiranias da intimidade

Autor: Richard Sennett

Editora: Record

Tradução: Lygia Araujo Watanabe

Páginas: 530

Ano: 2018