Jogo ajuda na reabilitação motora após AVC

Em um ambiente tropical, o jogador controla o voo de uma harpia – ave carnívora que se assemelha a uma águia. Passa por até seis fases e completa desafios, com diferentes níveis de dificuldade. O Harpy Game é um jogo sério desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Ele tem o propósito de reabilitar os braços de pacientes que tiveram sequelas motoras após um Acidente Vascular Cerebral, ou AVC.

O jogo é resultado do trabalho do mestrando Gabriel Cyrino, com orientação do professor Edgard Lamounier, do Departamento de Engenharia Elétrica da UFU. O desenvolvimento,  aplicação e estudo do jogo no tratamento de pacientes é uma parceria entre o Laboratório de Computação Gráfica e o Núcleo de Tecnologia Assistiva (NTA) da universidade. “O objetivo é criar um ambiente lúdico que motive a pessoa que teve AVC a realizar e reabilitar os movimentos do membro superior, o braço que foi afetado, de uma forma automática”, explica Eduardo Lázaro Martins Naves, coordenador do NTA.

Segundo o professor, apesar de eficientes, os exercícios propostos pela fisioterapia convencional são repetitivos e muitas vezes considerados cansativos pelos pacientes. “Se for possível agregar a esse tratamento convencional sessões de tratamento em realidade virtual, podemos ter um resultado melhor, unindo duas realidades de reabilitação”, afirma Naves.

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Estímulos para a reabilitação após AVC

As pesquisas realizadas no NTA a partir da aplicação do jogo têm o objetivo de reabilitar membros superiores de pacientes que tenham espasticidade em algum dos braços. Ou seja, uma rigidez muscular que não permite o esticamento total após ter sofrido o AVC. Cada paciente irá passar por 16 sessões de até 45 minutos cada.

O estudo com os tratamentos feitos no NTA faz parte do doutorado da educadora física Isabela Alves Marques. Além de acompanhar as sessões, ela participou do desenvolvimento do jogo, auxiliando na inserção dos movimentos que deveriam ser realizados pelos jogadores. O jogo é controlado por meio de um aparelho chamado Myo. O equipamento consegue capturar os movimentos do braço do paciente, sendo possível regular sua precisão.

“Queríamos fazer algo novo, que fosse motivador. Como a gente deixa o paciente só com o sensor no braço, controlando a ave, ele faz movimentos que muitas vezes não fazia, por sentir dor. Assim, conseguimos estimular outras áreas do cérebro, para que elas reaprendam a fazer esse tipo de movimento. Além do trabalho motor, estamos oferecendo também um trabalho de aprendizagem motora”, diz a pesquisadora.

Construção e experiência com o jogo

O jogo é totalmente adaptável. É possível configurar como será cada sessão e cadastrar as informações de cada paciente. Também pode-se realizar a customização do jogo, alterando partes gráficas, controles e a interface multimodal. Tempo, precisão de movimento e esforço exigido são adaptados para cada jogador. São seis fases, das quais três estão sendo usadas no tratamento.

Cada fase prioriza um tipo de movimento. Na primeira, o jogador tem que atravessar anéis, o que prioriza a rotação do cotovelo. Na segunda, é hora de pescar, e o paciente precisa esticar e dobrar o braço. E a terceira fase exige movimentos mais precisos, quando o voo leva a harpia até o chão. “Em cada fase, propomos um desafio diferente, para que se consiga reabilitar por completo o braço”, explica Isabela Marques.

Jogo sério

“Esse tipo de tratamento, envolvendo novas tecnologias, como a sessão em realidade virtual, é muito importante, porque dá um caráter motivacional que antes o indivíduo não tinha”, afirma o professor Eduardo Naves. A tecnologia adotada pelo NTA é chamada de jogo sério. É uma categoria que abrange os jogos que têm propósitos que vão além do lúdico: reflexão, educação, conscientização social e, no caso do Harpy Game, reabilitação motora.

“Por se tratar de uma tecnologia nova, o espaço para aplicação nos centros de reabilitação é imenso. Há um campo vasto a ser explorado para desenvolvimento de jogos específicos para cada tipo de reabilitação, tanto para mobilidade quanto para comunicação”, diz o pesquisador.

Efetividade e resultados

“Tão importante quanto inovar, é importante mensurar a eficácia dessas novas tecnologias”, afirma Eduardo Naves. Foi desenvolvido, no NTA, um equipamento para mensurar a efetividade do ganho de mobilidade no membro superior. O dispositivo é parte do trabalho das mestrandas Andressa Rastrelo e Camille Alves, e avalia o ângulo de flexão e extensão do cotovelo e a rigidez muscular do indivíduo.

Além de verificar a eficácia do jogo, a tecnologia está sendo usado para avaliar outros tipos de tratamento. É o caso de aplicações de injeções de toxina botulínica, mais conhecida como botox, frequentemente utilizadas como tratamento para reduzir a rigidez muscular que muitas vezes acomete pacientes após AVC.

 

As inscrições para participar do estudo ainda estão abertas. Os atendimentos serão realizados no Núcleo de Tecnologia Assistiva (NTA), no Campus Santa Mônica da UFU. As inscrições podem ser feitas por meio do telefone (34) 99677-4474.

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