Tão importante quanto fazer ciência é retornar os conhecimentos à sociedade de forma compreensível e aplicada. Se você é cientista e está em busca de ideias criativas para divulgar seu trabalho, nada melhor que conhecer abordagens inovadoras que espalham ciência. O amor pelo universo científico e a vontade de levá-lo a todos é o ponto comum entre três pesquisadores em Minas Gerais que criaram projetos para motivar e formar pessoas.

Os professores Zélia Maria Da Costa Ludwig, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Liza Felicori Vilela e Yurij Castelfranchi, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), elaboraram formatos e espaços completamente diferentes, mas que permitem o mergulho em um ambiente de ciência humanizado.

Para meninas negras na ciência

A física mineira Zélia Ludwig assumiu como missão de vida promover o acesso de meninas negras ao conhecimento científico e à carreira acadêmica. Para isso, trouxe a criançada para dentro da UFJF e levou a universidade às escolas públicas com oficinas e atividades formativas.

“Queremos que as meninas vejam outras cientistas para terem referências de modelos. É preciso também que vejam a ciência em tudo. A matemática está no corte e costura ou no planejamento financeiro. A física explica o movimento do carro, foguete e avião. Se a gente olhar tudo tem ciência e às vezes passa despercebido ou é explicado de uma maneira que nem todos entendem. A ideia do projeto é deixar acessível para que as meninas gostem”.

Já pensou de que material é feito o seu celular? Segundo a pesquisadora, perguntas como essa podem instigar a curiosidade científica de crianças. É um questionamento deixado de lado, mas que pode servir para destrinchar o universo de materiais que compõem o aparelho. No Instituto de Ciências Exatas da UFJF, Zélia Ludwig pesquisa as propriedades e caracterização de materiais como, por exemplo, o vidro. Assim, leva ao trabalho com as crianças sua própria história de investigação científica e de vida.

“No departamento de Física onde trabalho temos 39 professores. Apenas cinco mulheres, sendo que somente eu sou negra. Na universidade, 26% são mulheres pesquisadores, mas as negras aparecem pouco. Elas, geralmente, circulam no ambiente da universidade para limpar e não para ter acesso à ciência. Têm medo de chegar perto de um laboratório”, afirma.

“Não almejo que todas sejam físicas, mas que tenham engajamento e saibam se cuidar. A universidade é para elas e já basta. Que sejam médicas, jornalistas, dentistas ou enfermeiras. Espero que tenham boa formação e saibam que o ensino e o conhecimento podem mudar a vida delas, tirar do risco, provação e dificuldades.”

O projeto “Para meninas negras na ciência” fala de física e outras áreas para meninas entre 10 e 12 anos, mas também já se ampliou para atender às trabalhadoras da universidade que não têm acesso a conhecimento. Zélia Ludwig reuniu funcionárias da limpeza no campus UFJF para mostrar a ciência por trás dos cosméticos. “Faço análise fotometria de cores de diferentes materiais e aproveito o interesse delas por maquiagem para falar sobre a pesquisa. O quanto a ciência está envolvida, desde a concepção de cor do batom até chegar o produto nas mãos delas.”

Com as crianças, a pesquisadora já trabalhou a temática dos algoritmos, matéria escura, cosmos, infinito, entre outros. Para isso usa cordel, jogos africanos, origami, desenhos, um espaço maker e outros formatos lúdicos. Ela mostra a história de cientistas negras que impactaram a humanidade com suas pesquisas para que as meninas se sintam representadas. “Eu sou cientista, sou mulheres, sou negra e tenho que fazer alguma coisa. Busquei na internet e vi que não havia projetos como este. Em nosso projeto 50% das vagas são para meninas negras, na outra metade entram meninos e meninas não negras”, explica.

Idea Real Bio Lab, o biohackerspace de BH

Estimular a inovação aplicada a problemas locais da sociedade, a formação de recursos humanos no campo da Biologia Sintética e Engenharia e gerar material didático e de popularização da ciência. Este é o objetivo do Idea Real Bio Lab, um laboratório aberto à comunidade que funciona dentro Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG.  O espaço tem tecnologias e recursos para fomentar o desenvolvimento de projetos e pesquisas. Se você domina um assunto e está afim de compartilhar para desenvolver ideias, este é o lugar.

Afinal, este é o sentido de ser um biohackerspace. A professora Liza Vilela, responsável pelo projeto, explica a “ideia real” por trás de ser um hacker. “É a pessoa que entende muito bem um assunto e compartilha as ideias com quem tenha interesse comum. O Idea Real Bio Lab fica sendo uma casa do interesse comum e chama as pessoas à desenvolver ideias”, explica.

Tudo começou em 2014 quando alunos da UFMG foram participar de uma competição internacional no Massachusetts Institute of Technology (MIT). O instituto envia mil fragmentos de DNA para que os estudantes resolvam problemas e desenvolvam soluções usando esse material genético. Além disso, precisam divulgar esta ação com um trabalho de conscientização da sociedade.

A professora Liza Vilela coordenou o grupo formado por 15 estudantes de matemática, artes, biologia e computação. Eles não tinham um espaço destinado à produção, mas quando chegaram aos EUA para a competição viram que eles tinham locais abertos onde compartilhavam desenvolvimentos de projetos, inclusive com pessoas externas à universidade. Os espaços colaborativos americanos inspiraram a professora a criar o Idea Real Bio Lab.

O lab foi inaugurado em março de 2018 e tem vários trabalhos na que misturam biologia e engenharia para construir novas funções e sistemas biológicos. Outros projetos também aproveitam o espaço colaborativo, como o caso de uma professora de um colégio técnico que ensina bioquímica para pessoas com deficiência visual usando a impressora 3D do lab para criar moléculas de insulina, DNA e outras estruturas moleculares.

Laboratório aberto à comunidade funciona dentro Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG. Foto: Arquivo da pesquisadora Liza Vilela

Formação Transversal em Divulgação Científica

Desde 2016, a UFMG oferece aos alunos a possibilidade de Formação Transversal em Divulgação Científica. É parte de um grupo de atividades acadêmicas que abordam temáticas de interesse geral visando incentivar a formação de espírito crítico e de visão aprofundada em relação às grandes questões do país e da humanidade.

A UFMG é a única instituição na América Latina a ofertar esta formação. O estudante sai da graduação com um diploma duplo. Ele poder ser bacharel em Direito, Química ou Filosofia, mas com a formação em divulgação científica. Durante a formação, terá contato com discussões sobre comunicação da ciência em museus, comunicação pública da ciência, além de vivências pedagógicas em equipamentos científico-culturais.

O professor Yurij Castelfranchi, diretor de Divulgação Científica da universidade, explica que no Brasil não tem tradição em formar pessoas para escrever sobre ciência ou divulgá-la, por isso a ideia de possibilitar o graduando embarcar no universo da comunicação.Em três anos de projeto, as primeiras turmas já estão concluindo com um saldo muito positivo, segundo o professor. Saem da universidade cientistas e divulgadores.

Afinal, tão importante quanto fazer ciência é retornar os conhecimentos à sociedade de forma compreensível e aplicada.

Camp Serrapilheira

Os três projetos aqui de Minas foram selecionados para um intercâmbio sobre divulgação científica, no mês de setembro, promovido pelo Instituto Serrapilheira. No encontro, os três professores vivenciaram a troca com divulgadores de todo o Brasil durante oficinas, palestras e apresentações. As iniciativas concorreram com 870 propostas e ficaram entre 50 selecionadas.