A reciclagem como negócio cresceu tanto que cooperativas especializadas se multiplicam em quase todas as cidades do país.

Na economia solidária, objetos que parecem não ter utilidade para muitos se tornam oportunidade de trabalho para outros.

“O mais importante foi ter ganho a bolsa de mestrado, porque, para mim, foi um grande incentivo, um passo a mais que dei”, conta Camila.

Com o objetivo de compreender o impacto desses empreendimentos econômicos solidários (EES) na trajetória profissional dos seus funcionários, a estudante Camila Maria de Oliveira, do curso de Administração da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), desenvolveu um projeto de iniciação científica sobre o tema.

O estudo recebeu o 15º Prêmio de Destaque na Iniciação Científica e Tecnológica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Com a premiação, a estudante recebeu um valor em dinheiro e uma bolsa de mestrado.

Economia solidária e logística reversa

O trabalho intitulado “A economia solidária como determinante na trajetória profissional de seus participantes: um estudo multicasos no setor de reciclagem de Uberlândia – MG” foi realizado sob a orientação da professora Márcia Freire de Oliveira, da Faculdade de Gestão e Negócios (Fagen/UFU).

A ideia da pesquisa surgiu logo que Camila entrou na universidade. “No primeiro período, gostei muito do tema que a Márcia trabalhava. Cheguei nela e disse que queria fazer iniciação científica, que gostava muito da área social”, conta a graduanda.

O tema da reciclagem foi escolhido pelo fato de a estudante possuir conhecimentos sobre a área. “Quando fiz curso técnico, estudei logística reversa”, explica. A pesquisa teve início em 2017 e durou um ano.

Foto de Milton Santos (Reprodução / UFU)

Cooperativas de reciclagem

Duas cooperativas de reciclagem foram acompanhadas durante o estudo: a Cooperativa dos Recicladores de Uberlândia (Coru) e a Associação de Coletores de Plástico, PET, PVC e outros Materiais Recicláveis (Acopppmar).

O contato com as empresas foi estabelecido por meio da coordenadora do Centro de Incubação de Empreendimentos Populares Solidários (Cieps), Cristiane Betanho, que auxiliou no desenvolvimento do projeto e disponibilizou um veículo para levar a estudante até os locais.

Foi feito um levantamento de dados que gerou categorias de análise. Posteriormente, essas informações foram utilizadas para classificar os resultados.

Entre novembro de 2017 e janeiro de 2018, a estudante foi a campo. Em entrevistas com ex-participantes, participantes atuais e gestores, foi analisada a trajetória de trabalho e como a entrada nesses empreendimentos impactou a vida profissional dos catadores de material para reciclagem.

“A ideia que tínhamos era que o ingresso nesses empreendimentos iria proporcionar uma melhora na qualidade de vida, partindo do aumento da geração de renda. Isso se confirmou”, afirma Camila. Os resultados apontaram que os coletores pertencentes a esses empreendimentos conseguiram aumentar a renda de forma significativa, pois, “como eles produzem juntos, conseguem produzir um volume maior de material do que os que trabalham individualmente”, explica. Com o aumento da renda, também cresceu o poder de compra. Muitos conseguiram adquirir casa, automóveis e até investir nos estudos.

Coleta e reciclagem / Foto de Milton Santos (Reprodução UFU)

Benefícios e vantagens para trabalhadores

Por deixarem o trabalho informal das ruas e se tornarem associados das cooperativas, outros benefícios conquistados foram assistência social, serviços de advocacia, contabilidade e auxílio financeiro.

O dado que surpreendeu as pesquisadoras foi em relação à formação dos trabalhadores: “Achávamos que iríamos encontrar somente pessoas que não tinham formação. A maioria tem somente Ensino Fundamental. Havia até analfabeto, mas existem pessoas que concluíram o Ensino Médio e quatro tinham Ensino Superior”, explica Camila.

A orientadora do projeto explica a importância de se entender o funcionamento desses empreendimentos de impacto social. “A economia solidária tem vários princípios, como a questão da autogestão, distribuição de renda… O trabalho serve como modelo para essas empresas”, afirma Márcia.

Com informações da Assessoria de Comunicação da UFU.