Enquanto as torres eólicas de 90 metros de altura espalhadas pelo município de Currais Novos, no Rio Grande do Norte, captam a energia cinética do vento, pesquisadores da Faculdade de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) desenvolvem um filtro que facilitará a inserção dessa energia na matriz brasileira.

O Brasil ocupa hoje o oitavo lugar no ranking mundial que afere a capacidade instalada de produção de energia eólica, segundo o Global Wind Statistic 2017, documento anual com dados mundiais produzido pelo Global Wind Energy Council (GWEC). Há capacidade para o país melhorar este posicionamento por causa do potencial de ventos com magnitude que são constantes ao longo do ano nas regiões litorâneas.

O projeto de pesquisa dos engenheiros da UFU começou em 2017 e deve durar cerca de três anos. Os cientistas estão criando um dispositivo móvel chamado ‘Filtro Harmônico Multissintonizado para Compartilhamento de Responsabilidades’ para otimizar a gestão de custos na instalação de parques eólicos. Mas afinal, o que é e para que serve este filtro?

Equipamento

Existem cerca de seis metodologias de compartilhamento de responsabilidades harmônicas, mas o equipamento da UFU surge a partir do método chamado Superposição Modificado, que até então existia apenas na teoria.

Trabalhos no Núcleo de Qualidade da Energia Elétrica, da Feelt/UFU Foto: Milton Santos/ Assessoria de imprensa UFU/Divulgação

Atualmente, os parques eólicos são responsáveis por gerir e organizar a qualidade da energia. São encarregados de medir eventuais violações dos limites, atenuação de propagação e seguem legislações específicas.

No entanto, de acordo com cientistas, não há meios de identificar de forma adequada os responsáveis por problemas de qualidade durante a produção da energia. Assim, o dispositivo da UFU será usado para compartilhar as responsabilidades referentes aos custos financeiros para manutenção da qualidade da energia, os quais, atualmente são pagos quase integralmente pelos parques eólicos.

Além do uso em parques eólicos, o filtro harmônico multissintonizado da UFU, que deve virar patente, também poderá ser adotado em fazendas fotovoltaicas, aquela que usam conjunto de painéis para captar energia do sol.

Energia eólica no Brasil

Embora os seres humanos utilizem a energia eólica desde a antiguidade, seja para girar as pás dos moinhos ou para mover os barcos a vela, a inserção significativa dessa energia na matriz brasileira é recente. A primeira turbina foi instalada no arquipélago de Fernando de Noronha (PE), em junho de 1992, a partir de um projeto feito pelo Grupo de Energia Eólica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Dez anos depois, a Lei nº 10.438/2002 criou o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas – entre elas, a eólica.

Atualmente, a Região Nordeste aparece na frente na capacidade de produção de energia a partir dos ventos. Com 135 parques, o Rio Grande do Norte é o estado que mais produziu energia usando ao força dos ventos. São 3.678,85 MW de capacidade instalada. Em seguida, com 93 parques e 2.410,04 MW de capacidade instalada, vem a Bahia. Em terceiro lugar está o Ceará, que conta com 74 parques e tem 1.935,76 MW de capacidade instalada.

Essas áreas são muito exploradas por causa dos ventos litorâneos. Minas Gerais, por exemplo, não tem potencial significativo. Existem áreas para exploração de energia eólica em território mineiro, mas como o país tem regiões que vão dar um retorno mais rápido, dificilmente haverá empreendimentos de grande porte no estado.

Atualmente, grande parte da energia elétrica consumida no Nordeste é proveniente de fontes eólicas. O recorde de geração aconteceu no dia 13 deste mês: 65%. Segundo cientistas, com inserção dos parques eólicos, a região tem tudo para se tornar uma exportadora de energia para o Brasil.

Torres eólicas em Currais Novos, no Rio Grande do Norte. Foto: Acervo dos pesquisadores da UFU

Matriz brasileira

Atualmente, de toda a energia ofertada no Brasil, 56,5% vem de fontes não-renováveis, como o petróleo, e 43,5% de fontes renováveis, como hidráulica e cana-de-açúcar, segundo o  Balanço Energético Nacional 2017. Se considerarmos apenas a energia elétrica, temos 159,9 gigawatts de potência instalada, sendo 63,87% proveniente de hidrelétricas, de acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

A eólica representa 8,21% do total de energia elétrica gerada no Brasil, com 13 gigawatts de potência – o que equivale aproximadamente à geração de uma usina como a de Itaipu -, mas podemos chegar a 800 gigawatts, segundo o Atlas do Potencial Eólico Brasileiro divulgado em 2017, com levantamentos realizados em 2013.

De acordo com pesquisadores da UFU, o crescimento da estimativa de potencial eólico brasileiro deve-se ao aumento de tamanho das torres de captação da energia dos ventos. O atlas anterior, de 2001, com simulações feitas entre 1983 e 1999, tinha como estimativa o uso de torres de até 50 metros de altura. Hoje temos torres de 90 e 120 metros.

Energia promissora

Os cientistas apostam que o investimento na energia eólica é um caminho muito promissor para o Brasil, considerando que outras formas – com hidrelétricas – estão mais saturadas.

Há potenciais hidrelétricos relevantes a serem explorados na Região Norte, na Amazônia, mas qualquer empreendimento ali vai ter um impacto ambiental e social muito grande. Outro problema da hidrelétrica é depender do ciclo hídrico. Em 2014, houve uma crise hídrica, sendo que grande parte dos reservatórios ficaram comprometidos.

De acordo com os pesquisadores da UFU, a energia eólica tem ainda uma ação social, pois distribui renda. Os parques eólicos do Nordeste brasileiro dificilmente estão numa área que foi comprada pelo agente gerador. É feita a contratação do parque eólico e ele paga para as pessoas daquela região onde foi construída a turbina.

Com informações da Assessoria de imprensa da UFLA, EBC e Aneel.