Chegamos com atraso, mas não poderíamos fica de fora da blogagem coletiva em comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil (SBBR).

Hoje, vamos deixar algumas reflexões e muitos pitacos sobre o tema inaugural da blogagem:

Os blogs morreram?

Para quem não sabe, o SBBr é um dos maiores condomínios de blogs de ciência do mundo.

Desde 2008, ele promoveu a articulação de jovens pesquisadores, jornalistas e curiosos como uma rede coesa de blogueiros de ciência.

A plataforma também contribuiu para que diversas pessoas se tornassem figuras ativas na divulgação científica nacional.

Por serem fonte confiável de informações sobre ciência, não só sobre seus próprios trabalhos, mas também sobre o campo científico em que atuavam, esses blogueiros de ciência contribuíram para que houvesse mais “rachaduras na Torre de Marfim”.

A expressão foi utilizada por Vanessa Fagundes, coordenadora do projeto Minas Faz Ciência, em sua dissertação de mestrado sobre os blogs de ciência, defendida em 2013.

De lá para cá, muita coisa aconteceu.

Em cinco anos, a internet viu os canais de YouTube crescerem e os blogs… Morrerem?

De blogs a vlogs? A midiatização da ciência no Brasil

Não, os blogs não morreram.

Mas, como tudo na vida, eles se transformaram.

Veja o exemplo do Minas Faz Ciência:

Começamos em 2011, como um blog que buscava agregar links e conteúdos externos de ciência.

Hoje, somos um portal de notícias sobre ciência, tecnologia e inovação vinculado a um dos maiores veículos de comunicação de Minas Gerais, e temos também um site inteiramente dedicado ao universo infantil.

A lição que podemos tirar desse processo é de que, na divulgação científica, é preciso estar em constante movimento!

Em 2017, participei do Congresso Internacional de História da Ciência e Tecnologia (ICHST), que foi realizado no Rio de Janeiro.

Lá, apresentei um trabalho que buscava, justamente, refletir sobre essa ‘transformação‘ sofrida pelos blogs de ciência, que passaram a ceder espaço para projetos de vídeo, em especial, canais no YouTube, nos últimos anos.

Investir em vídeos faz todo sentido. De acordo com a YouPix: o vídeo social cresce 20% ao ano; o mobile vídeo, 42% ao ano; e 80% do conteúdo que a gente consome nas redes sociais hoje é vídeo.

No trabalho apresentado no ICHST, discuti o conceito de midiatização, processo pelo qual a ciência é um campo particularmente afetado nos últimos anos.

Os meios de comunicação são espaços de discussão pública e legitimação da ciência, cuja popularização vem sendo intensificada nos últimos anos diante das inúmeras possibilidades de divulgação nas redes sociais digitais.

Autores como Stig Hjarvard e Andreas Hepp definem a midiatização como a influência exercida pela mídia em um cenário de valorização de formatos cada vez mais integrados de comunicação tecnicamente mediada, atravessada por diferentes interesses econômicos, sociais e políticos.

A ciência não está isenta desse processo.

Lembremos da nossa história!

Um dos argumentos debatidos no ICHST buscou desmistificar a ideia de que só recentemente pesquisadores brasileiros passaram a se engajar em ações de divulgação.

Iniciativas de popularização da ciência já existem no Brasil desde o século XIX!

O que aconteceu nos primeiros anos do século XXI é que uma proposta de programa nacional para a divulgação científica começou a se desenhar no país, como política nacional.

Isso incentivou pesquisadores e pós-graduandos a se envolverem mais diretamente com a divulgação – e até vislumbrá-la como profissão.

Por isso, a última década é terreno fértil para análise de projetos de divulgação científica em solo brasileiro.

O ScienceBlogs é um desses exemplos que possibilitaram que indivíduos se debruçassem sobre o universo dos blogs como ferramentas de popularização da ciência.

Se os blogs não morreram…

Em minha opinião, os blogs de ciência capitaneados por indivíduos não morreram, mas, em menos de uma década, perderam espaço para outras redes sociais digitais e plataformas, principalmente o YouTube e seu sistema de monetização de conteúdo.

Uma das explicações para esse fenômeno pode ser a onda de profissionalização dos divulgadores de ciência no Brasil, que encontraram no YouTube uma plataforma que facilita o ganho de receitas por seus trabalhos.

Por outro lado, blogs de grande prestígio, como aqueles vinculados à London School of Economics e à Unicamp, continuam promovendo a popularização da ciência em modelos digitais mais ‘tradicionais’.

Outros casos se transformaram em projetos mais robustos de jornalismo, como o Minas Faz Ciência.

Pesquisas futuras que busquem fazer um mapeamento sistemático desse quadro no Brasil seriam de grande valia.

Elas poderiam identificar como se deu esse processo de ‘transformação’ mapear quem são as pessoas que fazem divulgação científica independente no Brasil.

Assim, poderíamos ter mais insights sobre como a comunicação pública da ciência na internet tem ocorrido no país, e qual o futuro dos vídeos, que também hão de se transformar!

Participe da blogagem coletiva!

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