Pesquisa narra trajetória de idosos, símbolo de resiliência e superação

Idosos são, muitas vezes, vistos como frágeis, rabugentos e reclamões. Talvez nossa sociedade não esteja preparada para ouvi-los e compreender o mundo pela visão deles. Um pesquisador do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva (PPGSCO), do Instituto René Rachou (Fiocruz Minas), decidiu dar voz a esta população e compreender como a pessoa idosa percebe incômodos-sofrimentos, ligados ao seu cenário atual, e a outros experienciados ao longo da vida.

Daniel Rocha Silveira é autor da tese tessitura de resiliência em idosos em processo de fragilização: a construção de superações, “apesar de”. Ele ouviu, em 2016, 15 idosos de diferentes sexos, idades, rendas, religiões e condições funcionais. A pesquisa sistematizou a narrativa de sofrimentos, do nascer ao envelhecer, conforme experiências que significam dores, perdas e aprendizado. As histórias, segundo o pesquisador, nos aproximam da percepção da fragilidade como sendo constitutiva do ser humano.

O que o Daniel Rocha percebeu? Que idosos são símbolo maior de resiliência e a constroem na ligação com as pessoas próximas, na busca de soluções e na experiência religiosa. A tessitura da resiliência – articulação, navegações e negociações entre o processo de fragilização, as vinculações afetivas, os recursos disponíveis – permite o encontro com o que faz sentido e as alegrias possíveis, “apesar de”.

Entrevistamos o pesquisador para conhecer a trajetória do trabalho e compreender como os idosos costuram esta resiliência.

Idosas participando de atividades no Projeto Fragilidades. Foto: Arquivos do pesquisador

Entrevista

MFC – A resiliência é um conceito muito importante para suas pesquisas e trabalhos. Afinal, o que é resiliência?

Daniel Rocha: são várias definições a partir de diferentes pesquisas, epistemologias e metodologias. A partir de tudo que vi e, especialmente no doutorado, entendo a resiliência como uma construção ou tessitura. É dizer um sim à vida, “apesar de tudo”. Este sim é concreto dentro de um ambiente social, cultural, político e histórico, ademais vai sendo construído a cada momento a partir de recursos identificados em ambientes familiares ou comunitários.

A resiliência é construir a possibilidade de continuar vivo, sobreviver e buscar alegrias possíveis a partir do sentido da vida. É negociar recursos, suportar, ir adiante, modificar, superar as coisas, ressignificar cicatrizes, reconciliar com o passado.

MFC – Por que esta foi a “população” (idosos) a escolhida para pesquisa da tese?

Daniel Rocha: o tema da resiliência surgiu há vários anos no mestrado, quando fiz uma pesquisa teórica. Meu orientandor me ajudou a entender que fazia muito sentido estudar o tema a partir da vida e obra do psiquiatra Viktor Emil Frankl, um judeu e sobrevivente de campos de concentração nazistas. Estudei o que a vida dele traz para a resiliência e, no doutorado, quis pesquisar o conceito em uma população próxima. Encontrei na Fiocruz a possibilidade de trabalhar com os idosos dentro do Núcleo de Estudos em Saúde Pública e Envelhecimento, na linha Antropologia do Envelhecimento. Além dessas portas que se abriram, resgatei minha memória de convivência com meus avós e tudo foi tomando sentido.

MFC – Em que medida, conviver com esses idosos te transformou como pesquisador e como pessoa?

Ouça o pesquisador Daniel Rocha:

MFC – Por que é importante uma pesquisa como esta dentro da área Saúde Coletiva?

Daniel Rocha: Para o contexto social brasileiro e a forma como a saúde é tratada, esta pesquisa é fundamental porque pode contribuir para profissionais de saúde buscarem formas mais reais de se colocarem e perceberem o mundo na visão dos idosos. A tese está inserida no contexto do Projeto Fragilidade em idosos: percepções, mediação cultural, enfrentamento e cuidado. Este projeto coloca os idosos em culturas artísticas que extrapolam o ambiente acadêmico e ajuda a mudar mentalidade social.

Reinvenção de si mesmo

O pesquisador está envolvido em atividades culturais com idosos. Ele conduz um grupo do Bairro Água Branco, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde idosos participam de rodas de conversa, danças performáticas e outras atividades. Conforme Daniel Rocha é uma forma de aplicar os conhecimentos adquiridos na pesquisa de doutorado para a convivência com os mais velhos.

Nesse grupo, ele conheceu uma senhora com história extremamente marcante e que simboliza a retomada de vida muito relatada por outros idosos na pesquisa. “Ela tinha um marido alcoólatra e agressivo, além de um filho portador de esquizofrenia com quem criou um laço muito forte. Este jovem acabou se matando em um fim de semana no sítio da família, depois de um abraço carinhoso na mãe. Ele esperou ela sair para a missa e se matou”, relata o pesquisador.

Com esta senhora, Daniel Rocha precisou desenvolver um trabalho especial de retomada de vida. “Nas respostas dos idosos registradas na minha tese, eles falavam muito em reinvenção de si, busca de vínculos e espiritualidade. Apliquei tudo isso a esta senhora, que retomou a rotina e foi morar com outro filho para seguir em frente”, conta.

Dentro da pesquisa surgiram algumas categorias fruto do relato dos idosos: fragilização; sofrimento ao longo da vida; adoecimentos e os recursos para lidar com eles; construção de vínculos; reinvenção de si mesmo; religiosidade. Todas elas, segundo o pesquisador, ajudam a entender a tessitura da resiliência, porém uma em especial sintetiza muitas experiências de vida.
Ouça o pesquisador Daniel Rocha:


Idosas participando de atividades no Projeto Fragilidades. Foto: Arquivos do pesquisador
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Luana Cruz

Doutoranda e mestre em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Jornalista graduada pela PUC Minas. É professora em cursos de graduação e pós-graduação na Newton Paiva, PUC Minas, UniBH e ESP-MG. Escreve para os sites Minas Faz Ciência e gerencia conteúdo nas redes sociais, além de colaborar com a revista Minas Faz Ciência.

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