Mesmo que a Organização Mundial de Saúde (OMS) tenha retirado, em 17 de maio de 1990, a homossexualidade da lista internacional de doenças, uma decisão da justiça de Brasília fez com que essa discussão fosse retomada.

Quem acompanhou as notícias das últimas semanas viu que a Justiça Federal do Distrito Federal, por meio de uma liminar, liberou que psicólogos possam tratar homossexuais como doentes, podendo fazer terapias de “reversão sexual”.

Obviamente isso gerou um grande reboliço nas redes sociais: de um lado, aqueles que consideram a decisão um absurdo; do outro, os que acham que não há problemas nessa permissão, uma vez que caberá ao paciente a escolha de ser “tratado”.

Mas como a ciência enxerga essa questão?

Primeiro é preciso destacar que, desde 1973, a Associação Americana de Psiquiatria (APA) retirou a homossexualidade da lista de doenças.

Posteriormente, essa decisão também foi tomada por uma série de entidades de saúde. Isso porque há um consenso entre os pesquisadores da APA e da OMS na defesa de que não há evidências de que a homossexualidade apresente características que justifique sua classificação como doença.

Entretanto, muito antes de entidades de saúde e científicas negarem a homossexualidade como doença, Sigmund Freud, conhecido como pai da psicanálise, já havia declarado, por meio de uma carta escrita em 1935, que a “cura gay” pudesse existir.

“Homossexualidade não é nenhuma vantagem, mas ao mesmo tempo não é algo pelo qual deva se envergonhar. Não é um vício, uma degradação e nada que possa ser classificado como uma doença”, afirma Freud.

Tal carta foi escrita em resposta para uma mãe que, à época, procurava ajuda para o filho, que se relacionava com outros homens. Freud, então, disse que não era possível fazer com que o rapaz passasse a se relacionar com mulheres com a ajuda da terapia. “Não podemos prometer esse resultado”, afirmou o psicanalista.

Patologização

Em um artigo publicado recentemente pela revista Nexo, Renan Quinalha e Roger Raupp Rios, doutores em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) respectivamente, afirmaram que “a patologização da homossexualidade é um expediente que se alimenta da homofobia e que a reproduz”. Para eles, considerar a homossexualidade como doença é uma maneira de legitimar o preconceito em relação ao público LGBT de um modo pseudocientífico.

Enquanto parte da população defende a permissão concedida pelo juiz de Brasília, pesquisas científicas realizadas no mundo todo mostram que até hoje não foi possível provar que medidas de reorientação sexual são eficazes. O que a ciência mostra são resultados muito mais complexos: a maior pesquisa já feita sobre a “cura gay”, conduzida pela APA, revelou as tentativas de mudança de orientação sexual na prática clínica resultaram no desenvolvimento de transtornos mentais como, depressão, confusão mental, ansiedade, pensamentos suicidas, entre outros.

Portanto, ainda que este assunto tenha voltado à tona nas últimas semanas, há, aparentemente, um consenso dentro da comunidade científica em relação à homossexualidade: não se trata de uma patologia e qualquer tentativa de “curá-la” é falha e, muitas vezes, perigosa.