Letramento acadêmico e internacionalização


Publicado em 03/09/2015 às 14:31 | Por Verônica Soares

O termo “alfabetização” refere-se ao processo de aprendizado da leitura e da escrita mas, ao longo de décadas, educadores observaram a necessidade de complexificar o conceito. Afinal, o que significa ler e escrever? Mais do que conhecer letras, sílabas e palavras, o letramento é o conceito que discute a profunda compreensão dos significados e contextos da leitura e da escrita. Esse processo se torna ainda mais complexo quando analisado no viés das línguas estrangeiras, especialmente o inglês, o idioma universal da ciência.

O que seriam, então, letramentos acadêmicos?

Para refletir em torno desta questão, pesquisadores reuniram-se nesta primeira semana de setembro na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para o I International Colloquium on Academic Literacies: Writing and reading in educational contexts. O evento trouxe reflexões sobre o domínio da escrita e da leitura em outros idiomas, principalmente o inglês, uma das principais ferramentas do processo de internacionalização da pesquisa.

Tendo como principal incentivador o pesquisador Brian Street, do King’s College London, o Colóquio buscou incrementar o trabalho feito na América Latina sobre escrita na universidade – tanto de alunos quanto de professores – através do compartilhamento de experiências e discussões sobre teorias e métodos. Voltando-se à escrita acadêmica em inglês como questão crucial, o evento promoveu o diálogo entre pesquisadores latino-americanos, do Reino Unido e dos Estados Unidos, buscando incrementar os elos e abordagens acadêmicos.

Influências culturais e relações de poder

Um dos pontos centrais da discussão está relacionado ao que Brian Street batizou de “hidden features of academic literacy“, que são aspectos culturais, sociais, linguísticos e editoriais que interferem no letramento e, por permanecerem desconhecidos, dificultam o desenvolvimento de textos em língua estrangeira. Assim, um dos grandes desafios é como apoiar estudantes e pesquisadores em seu processo de escrita e promover a internacionalização, fazendo com que os indivíduos tenham, de fato, domínio pleno do idioma, da cultura e das regras de redação científica do inglês.

Anna Robinson-Pant, pesquisadora da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, observou que o modelo dominante tende a depositar nos estudantes a responsabilidade por “não saberem escrever” quando, na verdade, é preciso identificar as fraquezas, o que demanda grande envolvimento dos educadores. Ela alerta para a necessidade de reconhecer que o letramento, principalmente em um idioma estrangeiro, é mais do que uma habilidade a ser desenvolvida, mas também uma área de embates culturais e de abordagens multidisciplinares.

Há também relações de poder envolvidas na leitura e avaliação de textos acadêmicos escritos por estrangeiros, que vão desde a escolha de palavras e autores que podem não agradar a orientadores de pós-graduação, até a avaliação tendenciosa de revisores de periódicos. Em sua experiência com estudantes internacionais no Reino Unido, Anna Robinson-Pant cita, por exemplo, pesquisadores africanos que tendem a utilizar informações de grupos e tribos adquiridas na vivência coletiva, mas que raramente possuem registros escritos ou artigos publicados em inglês: “É comum que o grupo de estudantes africanos traga sua cultura e conhecimentos para o texto, mas nem todo orientador aceita tais informações, questionando: de onde veio isso, quem falou que é assim?” , relata.

O mesmo acontece com estudantes de países em que a produção acadêmica ainda não é amplamente disseminada em inglês. Há casos em que autores de países como a Tailândia, acabam não sendo citados em pesquisas internacionais, justamente porque os orientadores e chefes de laboratório dizem não confiar em um texto que não podem ler – já que não há publicação em inglês, nem mesmo tradução oficial para o idioma. “Para os estudantes, é uma frustração ter que abrir mão dos autores de seus países por não terem apoio dos orientadores, que não confiam na tradução feita pelos próprios orientandos”, contou Anna.

Dentre as conclusões do primeiro dia de evento, está a constatação de que o valor da produção acadêmica é consequência de fatores geopolíticos, econômicos e de poder entre instituições, países e indivíduos. Desenvolver a consciência dessas diferenças passa a ser fundamental para que as habilidades da escrita e da leitura em outro idioma sejam plenamente aprendidas. Inúmeras forças fora da academia influenciam este cenário e é preciso reconhecê-las para favorecer o letramento e incentivar a reflexão crítica acerca das normas e conceitos estabelecidos sobre a internacionalização da ciência.

Letramento a favor da comunicação científica

Para o professor Sérgio Cirino, da Diretoria de Produção Científica da Pró-Reitoria de Pesquisa da UFMG, o evento foi um primeiro passo dentro de uma agenda positiva da Universidade para estabelecer um processo de aprendizado sobre as questões da academia. “Não é natural que alguém saia do ensino médio e venha para a Universidade sabendo fazer ciência. Existem aspectos que precisam ser aprendidos e queremos discutir questões específicas que podem ser ensinadas para favorecer o fazer científico dos estudantes”, explica o professor.

Cirino destacou a importância de levar a pesquisa brasileira para fora do país, o que depende essencialmente de um melhor domínio do inglês pelos cientistas brasileiros:

De que adianta fazermos pesquisas de altíssima qualidade, financiadas pelo CNPq, Capes e Fapemig, se essa pesquisa não circular? Hoje em dia, estamos na era da circulação instantânea. Isso mudou dramaticamente a forma como circulamos o conhecimento. Além de os estudantes precisarem aprender a fazer uma pesquisa, ou seja, têm que ser também bons comunicadores dessa pesquisa” – Sérgio Cirino.

O evento foi transmitido ao vivo pelo canal da Faculdade de Educação no YouTube. Confira abaixo o vídeo do primeiro dia:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=EaKC72_hi4A]

O Colóquio se encerra nesta sexta-feira, 4 de setembro.

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