Letramento acadêmico e internacionalização

O termo “alfabetização” refere-se ao processo de aprendizado da leitura e da escrita mas, ao longo de décadas, educadores observaram a necessidade de complexificar o conceito. Afinal, o que significa ler e escrever? Mais do que conhecer letras, sílabas e palavras, o letramento é o conceito que discute a profunda compreensão dos significados e contextos da leitura e da escrita. Esse processo se torna ainda mais complexo quando analisado no viés das línguas estrangeiras, especialmente o inglês, o idioma universal da ciência.

O que seriam, então, letramentos acadêmicos?

Para refletir em torno desta questão, pesquisadores reuniram-se nesta primeira semana de setembro na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para o I International Colloquium on Academic Literacies: Writing and reading in educational contexts. O evento trouxe reflexões sobre o domínio da escrita e da leitura em outros idiomas, principalmente o inglês, uma das principais ferramentas do processo de internacionalização da pesquisa.

Tendo como principal incentivador o pesquisador Brian Street, do King’s College London, o Colóquio buscou incrementar o trabalho feito na América Latina sobre escrita na universidade – tanto de alunos quanto de professores – através do compartilhamento de experiências e discussões sobre teorias e métodos. Voltando-se à escrita acadêmica em inglês como questão crucial, o evento promoveu o diálogo entre pesquisadores latino-americanos, do Reino Unido e dos Estados Unidos, buscando incrementar os elos e abordagens acadêmicos.

Influências culturais e relações de poder

Um dos pontos centrais da discussão está relacionado ao que Brian Street batizou de “hidden features of academic literacy“, que são aspectos culturais, sociais, linguísticos e editoriais que interferem no letramento e, por permanecerem desconhecidos, dificultam o desenvolvimento de textos em língua estrangeira. Assim, um dos grandes desafios é como apoiar estudantes e pesquisadores em seu processo de escrita e promover a internacionalização, fazendo com que os indivíduos tenham, de fato, domínio pleno do idioma, da cultura e das regras de redação científica do inglês.

Anna Robinson-Pant, pesquisadora da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, observou que o modelo dominante tende a depositar nos estudantes a responsabilidade por “não saberem escrever” quando, na verdade, é preciso identificar as fraquezas, o que demanda grande envolvimento dos educadores. Ela alerta para a necessidade de reconhecer que o letramento, principalmente em um idioma estrangeiro, é mais do que uma habilidade a ser desenvolvida, mas também uma área de embates culturais e de abordagens multidisciplinares.

Há também relações de poder envolvidas na leitura e avaliação de textos acadêmicos escritos por estrangeiros, que vão desde a escolha de palavras e autores que podem não agradar a orientadores de pós-graduação, até a avaliação tendenciosa de revisores de periódicos. Em sua experiência com estudantes internacionais no Reino Unido, Anna Robinson-Pant cita, por exemplo, pesquisadores africanos que tendem a utilizar informações de grupos e tribos adquiridas na vivência coletiva, mas que raramente possuem registros escritos ou artigos publicados em inglês: “É comum que o grupo de estudantes africanos traga sua cultura e conhecimentos para o texto, mas nem todo orientador aceita tais informações, questionando: de onde veio isso, quem falou que é assim?” , relata.

O mesmo acontece com estudantes de países em que a produção acadêmica ainda não é amplamente disseminada em inglês. Há casos em que autores de países como a Tailândia, acabam não sendo citados em pesquisas internacionais, justamente porque os orientadores e chefes de laboratório dizem não confiar em um texto que não podem ler – já que não há publicação em inglês, nem mesmo tradução oficial para o idioma. “Para os estudantes, é uma frustração ter que abrir mão dos autores de seus países por não terem apoio dos orientadores, que não confiam na tradução feita pelos próprios orientandos”, contou Anna.

Dentre as conclusões do primeiro dia de evento, está a constatação de que o valor da produção acadêmica é consequência de fatores geopolíticos, econômicos e de poder entre instituições, países e indivíduos. Desenvolver a consciência dessas diferenças passa a ser fundamental para que as habilidades da escrita e da leitura em outro idioma sejam plenamente aprendidas. Inúmeras forças fora da academia influenciam este cenário e é preciso reconhecê-las para favorecer o letramento e incentivar a reflexão crítica acerca das normas e conceitos estabelecidos sobre a internacionalização da ciência.

Letramento a favor da comunicação científica

Para o professor Sérgio Cirino, da Diretoria de Produção Científica da Pró-Reitoria de Pesquisa da UFMG, o evento foi um primeiro passo dentro de uma agenda positiva da Universidade para estabelecer um processo de aprendizado sobre as questões da academia. “Não é natural que alguém saia do ensino médio e venha para a Universidade sabendo fazer ciência. Existem aspectos que precisam ser aprendidos e queremos discutir questões específicas que podem ser ensinadas para favorecer o fazer científico dos estudantes”, explica o professor.

Cirino destacou a importância de levar a pesquisa brasileira para fora do país, o que depende essencialmente de um melhor domínio do inglês pelos cientistas brasileiros:

De que adianta fazermos pesquisas de altíssima qualidade, financiadas pelo CNPq, Capes e Fapemig, se essa pesquisa não circular? Hoje em dia, estamos na era da circulação instantânea. Isso mudou dramaticamente a forma como circulamos o conhecimento. Além de os estudantes precisarem aprender a fazer uma pesquisa, ou seja, têm que ser também bons comunicadores dessa pesquisa” – Sérgio Cirino.

O evento foi transmitido ao vivo pelo canal da Faculdade de Educação no YouTube. Confira abaixo o vídeo do primeiro dia:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=EaKC72_hi4A]

O Colóquio se encerra nesta sexta-feira, 4 de setembro.

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Verônica Soares

Jornalista e curiosa! Gosto de ler e estudar sobre comunicação, história e ciências.

3 comentários em “Letramento acadêmico e internacionalização

  • 16 de setembro de 2015 em 15:08
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    Prezada Verônica, parabéns e obrigado pelo interessante texto. Ele toca muito nos pontos que sofremos ao tentar participar do cenário internacional. Aproveitando o ensejo do comentário de Rafael Zerbetto, também gostaria de comentar o problema, citando minha relação justamente com o esperanto. Desenvolvo trabalhos como “task force member” da ICMYO (icmyo.org) para ações de juventude na ONU, e o uso do inglês como língua de trabalho infelizmente é um visível instrumento de exclusão de muitos grupos. Tenho trabalhado com o esperanto há 10 anos e realmente constatei que é uma língua que, por possuir recursos de simplicidade, lógica e regularidade, permite ao falante expressar-se sem receios e com uma riqueza de formas que é surpreendente. O fórum conclui que devemos os brasileiros melhorar nossas habilidades de inglês. Eu não discordo, uma vez que o inglês é, hoje, uma ferramenta de trabalho usada internacionalmente. Mas seu aprendizado tem sido penoso para muitas pessoas, dentre eles muitos jovens. Nos fóruns em que participo, a reclamação quanto à necessidade de se falar em inglês está sempre presente; muitos se sentem excluídos, acuados, inseguros, inclusive os que tiveram que enfrentar anos de estudo e intercâmbio no exterior e despender para isso muito dinheiro. Prevejo, portanto, que este caminho ao domínio generalizado do inglês será penoso para nossos cidadãos, que, em vez de usar seu tempo para melhorar suas habilidades de especialistas, têm que aprender uma língua que possui, sim, um grau considerável de dificuldade; além disso, este aprendizado generalizado do inglês nos conectará cada vez mais à cultura de poucos países, nos privando da diversidade cultural que existe em nosso planeta e sendo, obviamente, um nicho de vantagem política para estes poucos países. No fim, ainda persistirá o problema de que os falantes nativos de inglês sempre terão vantagem sobre os outros, especialmente nos momentos de debate e oratória e na definição de terminologias. Não receio dizer que a adoção do esperanto é uma solução muito mais eficiente: de aprendizado relativamente fácil e infinitamente mais barato, o esperanto é uma língua democrática, por funcionar como segunda língua de todos, não dando a um povo ou outro vantagens políticas. Diferente do que o senso comum apregoa, o esperanto está longe de ser uma utopia; eu o utilizo diariamente para me comunicar com dezenas de países – mas, como você mesmo apresenta neste artigo, a questão geopolítica é forte e a esta não é interessante que o inglês perca sua hegemonia. Se o “Minas faz ciência” tiver interesse, podemos pensar em um projeto conjunto envolvendo o esperanto, uma vez que este, por ser uma língua internacional neutra (isto é, não pertencente a nenhum país, mas sendo, hoje, falado em mais de 110 países por milhões de pessoas), é promovido inclusive pela ONU/Unesco como instrumento de preservação do bem cultural dos povos e intercâmbio entre os seres humanos de maneira igualitária. Especialmente em Minas, há muitos falantes, dentre eles professores universitários de diversas escolas mineiras, de Uberlândia a BH, passando por Alfenas e Juiz de Fora (sendo o ex-reitor desta última um dos expoentes da língua no Brasil).

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  • 6 de setembro de 2015 em 10:37
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    Texto muito interessante. Curso mestrado em Estudos Interlinguísticos, que trata justamente da problemática da comunicação internacional, na Universidade Adam Mickiewicz (UAM), na Polônia, e vi neste texto uma abordagem mais profunda do que a que costumo ver em universidades brasileiras sempre que se toca nesse assunto, uma vez que são citadas questões como a influência da cultura no processo de ensino-aprendizagem e as relações de poder, temas cuja importância é altíssima, mas é frequentemente negligenciada em muitos debates, tanto acadêmicos quanto políticos em torno do tema.
    Lamento, porém, a visão limitada, que impera nas instituições brasileiras, de atentar somente ao inglês, como se tudo dependesse dele. É fato que este idioma é muito usado no meio científico, praticamente se universalizou nas ciências exatas, nas humanas é hegemônico, mas outras línguas ainda têm espaço considerável, mas acima de tudo, trata-se de uma solução meramente pragmática: “já que o inglês é mais usado, vou investir nele”, e isso guia as políticas de Estado para o setor científico, consequentemente englobando também as universidades.
    No curso de interlinguística da UAM usamos o Esperanto, já que tanto os docentes quanto os alunos do curso são provenientes de diversos países (a maioria dos docentes de interlinguística lecionam em outras universidades, viajam a Poznan para dar aulas por uma semama e depois nos acompanham à distância) e o Esperanto é nossa única língua comum, embora quase todos os alunos sejam poliglotas. A experiência que estou vivendo na Polônia é incrível, uma vez que me sinto à vontade para conversar com todos em Esperanto, enquanto o inglês, que estudei por muito mais tempo que o Esperanto, funciona bem para falar com a aeromoça no avião, mas nunca me sinto à vontade para usar o inglês em um debate acadêmico, fico o tempo todo achando que não usei a palavra certa, às vezes não sei como expressar o que quero dizer, e mesmo quando consigo, um nativo consegue fazer isso de forma bem mais convincente por ter melhor domínio da estrutura da língua e saber usar melhor suas nuances de oratória. Por isso tenho certeza de que mesmo que todos os pesquisadores brasileiros conseguissem dominar o inglês de forma fluente, as disparidades continuariam existindo.
    Porém, meus estudos no exterior têm me trazido contatos e oportunidades fora do Brasil, ao mesmo tempo em que me distancio da universidade brasileira, e este é outro ponto interessante para o debate em torno da internacionalização.

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