A comida é essencial para entender os costumes de um povo. É, muitas vezes, responsável pela construção de discursos identitários de cada região do planeta. É possível perceber que a memória afetiva das pessoas passa, quase sempre, pela cozinha, o que faz da comida uma expressão de cultura, memória e identidade.

Conversamos sobre o tema com duas cientistas que pesquisam tradição, sociabilidade e ritualização da comida na sociedade. As duas gostam de pensar a comida como algo além do nutriente, capaz de produzir e reproduzir afeto.

André Schirm/Flickr

“A gente sabe que a comida não é só para alimentar porque ela também aquece o coração. Cada um tem um prato que guarda no coração. Quando a gente lembra da comida da avó, mãe, pai, tio, tia, sempre tem um alimento que nos leva para algum lugar gostoso da memória. Como pesquisadora, gosto de saber como isso acontece”, explica Luciana Patrícia de Morais.

Segundo ela, a comida é elemento de cultura material, pois representa circunstâncias e condições em que se reproduz a vida social. “A comida é uma das formas com as quais o mundo ganha concretude, representa valores, símbolos e costumes”, afirma.

As referências gastronômicas de grupo revelam ingredientes disponíveis na região onde aquelas pessoas vivem, os modos de fazer e até mesmo os utensílios usados no preparo. Cada cultura vai se mostrando por meio da culinária, pois é um mecanismo de identidade que nos parece natural e passa despercebido.

Sentar à mesa

De acordo com Luciana de Morais, a comida é também motivo de encontro. “A importância de sentar à mesa reflete a necessidade de nos organizarmos em determinado momento”, afirma. Ela ainda explica como as mudanças da sociedade interferem ou refletem nos hábitos de alimentação.

Poucas décadas atrás, ainda que as mulheres tivessem ido para o mercado de trabalho, existia a figura da mãe em casa. De acordo com Luciana de Morais, o pai era provedor financeiro e a mãe provedora de afeto. As pessoas tinham mais tempo de preparar refeições, portanto, sentar à mesa em casa fazia parte do modo de vida da sociedade.

Depois, ocorreu um movimento de comer fora de casa, principalmente por causa da mulher indo para o mercado de trabalho. A socióloga Monica Chaves Abdala pesquisou por mais de 10 anos hábitos alimentares de famílias mineiras. Ele percebeu que no início dos anos 2000, as famílias estavam comendo em self-services. Observou crianças, adultos e idosos indo todos os dias aos restaurantes para almoçar. Era um fenômeno generalizado, de capitais e cidades de médio porte no estado.

André Schirm/Flicrk

A pesquisa mostrou que as pessoas não tinham tempo de cozinhar em casa porque trabalhavam fora. Até mesmo aquelas que cumpriam meio expediente, optavam pelos restaurantes. De acordo com Monica Abdala, o mais revelador da pesquisa é que mesmo não conseguindo comer juntos em casa, as pessoas não abriam mão de se encontrar.

“Foi uma reinvenção familiar se encontrar no self-service. As famílias passaram a comer todo dia no restaurante para se encontrar. Passaram a buscar fora as referências da casa da avó, tentando achar comida caseira no self-service. A referência do alimento era de afeto, encontro, família”, explica.

Esse movimento de comer fora de casa também foi propiciado pelo custo mais baixo dos restaurantes naquele período da pesquisa. Segundo Abdala, hoje há uma tendência de retorno à alimentação em casa por causa do alto custo de comer em restaurantes. Há também a busca por opções mais saudáveis.

 “[…] poucos de nós sentimos vontade de comer sempre sozinhos. A comida é ainda nosso relaxamento ritual, uma ‘pausa’ no dia de trabalho, nossa oportunidade de escolher companheiros e conversar com eles, a desculpa para recriar nossa humanidade, bem como a nossa força […]”(Margaret Visser)

GIORGIO LUBRANO/Flickr

Sociabilidade

Luciana de Morais reflete que as pessoas sentadas à mesa estão comendo, contando casos, discutindo ou chamando atenção umas das outras. “A refeição tem papel de naturalizar as referências simbólicas de um grupo”, afirma. Por exemplo, durante a quaresma há famílias que não comem carne. Essa é a reprodução de um costume ligado à religiosidade e transformado por algum grupo em tradição e cultura.

Outro exemplo, segundo a pesquisadora, é da expressão de referências locais. Ela é mineira, mas mora no Paraná há alguns anos. “Quando chamo um amigo para vir na minha casa, ofereço comida mineira: farofa, couve, feijão tropeiro ou frango com quiabo. Os ingredientes e o prato falam de onde a gente veio, sem que precisemos dizer”.

Moe Alves/Flickr

Um desafio que a sociedade não pode perder de vista é manutenção da culinária como cultura, memória e identidade. Não é preciso sacralizar o momento da refeição para fazer dele algo importante, mas é fundamental dividir com as crianças, por exemplo, que comida representa afeto. De acordo com Luciana de Morais, se o afeto de uma família está na fast food, que seja mantido esse momento.

Ela explica a importância dos resgates da refeição caseira, da possibilidade de apresentar novos ingredientes para as crianças e mostrar a elas que nem tudo vem pronto em caixinhas congeladas. No entanto, não se pode perder de vista que “alimento é momento de carinho”, sem dar o caráter sagrado apenas às “comidas da vovó”.

Nesse sentido, a pesquisadora fala em um equilíbrio no ensino dos hábitos alimentadores para as crianças. “Se apresentamos para as crianças somente comidas prontas, como elas vão aprender a falar a respeito da própria identidade? Como vão saber a cultura?”, questiona Luciana de Morais.

As pesquisadoras

Luciana Patrícia de Morais é graduada em Ciência Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e tem grande amor pela cozinha. Quando finalizou a graduação, dedicada a um grupo de doceiras do cerrado mineiro, suas pesquisas continuaram seguindo os trilhos do sabor. Defendeu a tese de doutorado, em 2011, vinculada à Universidade Federal do Paraná (UFPR), trabalho em que analisou pratos que se tornaram produtos turísticos. É autora de livros sobre o assunto.

Monica Chaves Abdala é doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e, atualmente, professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Estuda, desde a década de 90, a cozinha e a construção da imagem do mineiro. No doutorado, pesquisou o hábito das famílias que vão ao self-service. Também já investigou hábitos alimentares e formas de sociabilidade na refeição de estudantes, além de alimentação cotidiana e sociabilidade.

Papo sobre comida

Esse nosso papo continua lá no Minas Faz Ciência Infantil, onde contamos detalhes sobre o livro Comida de afeto: lembranças embaladas para viagem, da pesquisadora Luciana de Morais. Vale a pena conhecer a obra que reúne receitas e histórias dos pacientes, familiares e funcionários de um hospital pediátrico.

E não acabou… Em breve, a edição da revista Minas Faz Ciência Infantil deste ano terá uma sessão especial sobre comida. Lá a criançada vai entender a importância da comida para reunir a família, além de curiosidades sobre a ciência de alguns alimentos. Está imperdível!