Sintetizada pela primeira vez, pelo professor Gilberto Orivaldo Chierice, do Instituto de Química de São Carlos, na Universidade de São Paulo, a fosfoetanolamina sintética, também conhecida como “pílula do câncer” vem protagonizando, nas últimas décadas, uma novela que está longe de ter um fim. Isso porque, depois de ter sido anunciada por Chierice como a cura para o câncer e ter sido comercializada sem a liberação de órgãos competentes, o composto sintético mostrou-se ineficaz no combate a doença, de acordo com as pesquisas realizadas pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp).

A “pílula do câncer” começou a ser distribuída na década de 90 para pacientes, em uma parceria entre o Instituto de Química da USP São Carlos e o Hospital Amaral de Carvalho, na cidade de Jaú, também em São Paulo. À época, descobriu-se a ação da substância como uma espécie de marcador, sinalizando para o corpo sobre a célula cancerosa, deixando-as mais visíveis para que o sistema imunológico a possa combatê-las.

A professora Dra. Andréa Chaves, do Instituto de Ciências Biológicas da PUC Minas, alerta que a pílula, até então, só tinha sido testada em em estudos in vitro, ou seja, não se conhecia a ação do composto em humanos. “Nesses testes, os pesquisadores pegaram células de câncer e trataram com a ‘fosfo’. Eles perceberam que existia uma diminuição das células tumorais. Mas não há nada que explique o que levou essa diminuição. Além disso, existem outros fármacos que apresentam essa ação, a “fosfo” não chega a ser uma novidade nesse sentido”, explica.

Mesmo com a falta de testes em humanos, a USP passou a distribuir o fármaco, como tratamento para o câncer. Essa ação foi ganhando peso em discursos propagados pela população, principalmente via redes sociais. A pressão das pessoas para liberação da ‘fosfo’ fez com que a Justiça brasileira entrasse na história, o que aumentou a polêmica em relação ao composto. “A judicialização do processo que trouxe a confusão toda. A Justiça acabou tendo que resolver questões que não estão relacionadas a ela. É importante ressaltar que, até então, não existe explicações plausíveis e concretas sobre a ação da ‘fosfo’ em humanos. O que existe são apenas especulações”, alerta a professora.

No final de 2015, o governo federal, por meio do antigo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), anunciou a liberação dos primeiros R$ 2 milhões destinados para acelerar as pesquisas com a “fosfo”. Esse dinheiro era parte de uma verba de R$ 10 milhões que será destinada até 2017 a três centros de pesquisa, que testarão a eficácia e a segurança do medicamento. Nesse período, Chierice, cansado de toda polêmica envolvendo o composto, chegou a afirmar que publicaria a fórmula da fosfoetanolamina na internet, como um ato de repúdio à proibição da distribuição e a demora da realização dos testes.

No ano seguinte, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) passou a conduzir o estudo que pretendia avaliar 210 pacientes com dez tipos diferentes de tumores: cabeça e pescoço, pulmão, mama, colorretal, colo de útero, próstata, melanoma, pâncreas, estômago e fígado. Os estudos apontaram que, dos 59 que já passaram por uma reavaliação após se submeterem por meses ao tratamento, apenas um obteve resposta significativa. Todos os outros apresentaram evolução da doença.

Diante desses resultados, o Icesp decidiu dar um fim nas pesquisas com a “pílula do câncer“. No mês passado, em coletiva de imprensa, os representantes do Instituto afirmaram que, por enquanto, nenhum outro paciente será incluído na pesquisa até que sejam melhor avaliados os resultados obtidos. Há possibilidade de apenas os pacientes do grupo de melanoma continuarem no estudo. Mas isso ainda irá depender dos cientistas que conduziram os testes.

A partir de agora, a “pílula do câncer” passará a ser comercializada como suplemento alimentar. O que ainda pode trazer mais polêmica em relação ao composto. “A população pode passar adquiri-la como medicamento. E a ‘fosfo’ é um fármaco, não é droga, não é um medicamento para tratar doenças. Essa comercialização pode ser, portanto, perigosa”, argumenta Andréa.