O Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, dentre os quais os herbicidas – produtos químicos usados na agricultura, para controle de ervas daninhas – respondem por mais de 50% da aplicação – ou seja: metade de todo o material aplicado no ambiente nacional. Muitos resíduos dessas moléculas acabam em rios e lagos.

Pesquisador de Agronomia na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFJM), José Barbosa dos Santos desenvolve pesquisas, justamente, com foco na sustentabilidade ambiental relacionada ao uso dos herbicidas. Para tal, dedica-se a três eixos principais: impactos do uso dos agrotóxicos em organismos geneticamente modificados; efeitos em organismos não alvo; e descontaminação ambiental. O trabalho relacionado aos temas recebeu menção honrosa na edição 2016 do Prêmio Marcos Luiz dos Mares Guias.

Relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) aponta o Brasil como principal exportador mundial de alimentos na próxima década. Para José Barbosa, ao se tornar líder na produção de bens alimentícios, o País também aumentará o consumo de agrotóxicos, e será necessário o uso de tecnologia eficiente para conter tal problema.

“Precisamos, portanto, adotar práticas de descontaminação, para que haja menos resíduos de herbicidas, e, ao mesmo tempo, maior produção de alimentos, fibras e energia, além de menor impacto negativo ambiental”, explica.

Na prática, usa-se herbicida para controlar plantas daninhas, por exemplo, na cultura do feijão. Se ele mata gramíneas no meio dos grãos, e deixa resíduos prejudiciais no solo, não se pode, então, plantar milho, cana, trigo ou arroz na sequência. A preocupação em impedir ou remediar tais efeitos negativos da presença de herbicidas, nos diversos compartimentos ambientais, tem aumentado ao longo dos anos, e se relaciona à nova visão de produção, em que o aumento na produtividade não é mais a única meta. Busca-se, também, manter o nível produtivo ao longo dos anos, com enfoque preservacionista. “A sustentabilidade passou a ser umas das palavras mais importantes para designar a modificação do enfoque dos sistemas agrícolas brasileiros”, destaca José Barbosa.

Heroínas vegetais

A pesquisa desenvolvida na UFJM avalia o impacto, em laboratório, de diversos herbicidas sobre “organismos não alvo”, como insetos, peixes, anfíbios e comunidade vegetal nativa. Busca-se analisar, no campo, técnicas de descontaminação que preconizem a fitorremediação – técnica baseada em plantas para diminuir resíduos de contaminantes como os herbicidas.

Dos resultados já encontrados, José enumera um elenco de plantas aptas a remediar sítios contaminados. Algumas delas podem ser cultivadas no local onde os produtos foram inicialmente aplicados; outras são semeadas na recuperação de nascentes ou nas matas ciliares. Nesse caso, trata-se, normalmente, de espécies arbóreas, pois deseja-se interceptar o resíduo de herbicidas móveis antes que cheguem aos cursos hídricos.

O principal benefício das pesquisas está na diminuição do impacto, silencioso e negativo dos resíduos, dos herbicidas nos rios. Com efetividade na descontaminação, a qualidade da água captada para uso nas cidades, e no campo, será melhor. José Barbosa aponta, ainda, que a primeira comunidade a sofrer com resíduos de agrotóxicos são os seres fotossintetizantes, responsáveis pela produção de oxigênio em meio fluvial. “Com menor quantidade de oxigênio, outros organismos aeróbicos, e os peixes, não sobrevivem. Portanto, esse problema ajuda a explicar porque vários rios têm menos peixes”, resume.

O pesquisador ressalta que olhar para o futuro, nessa área, significa enxergar recomendação sistematizada, em livros, acerca dos benefícios de adquirir mudas com capacidade de reduzir a contaminação. Em relação às políticas públicas, José Barbosa acredita que se pode pensar em legislação apta a reforçar a adoção de plantas ecologicamente voltadas às áreas de recuperação: “Desse modo, além de todos os benefícios de uma espécie vegetal replantada, seria possível descontaminar áreas com resíduos de herbicidas. Nesse campo, no Brasil, a pesquisa é inédita e tem se destacado”.