Amplamente usado na marcenaria, o compensado, tal como é mais conhecido, consiste numa chapa formada por lâminas de madeira prensadas. A espessura e a densidade das placas, além do tipo de material empregado em sua composição, são variáveis. O compensado resinado, por sua vez, é aquele cor de rosa, empregado, principalmente, como tapume, na construção civil.

Este último pode estar com os dias contados. Em média, 30% mais barato, o compensado de borracha é impermeável, além de mais resistente e isolante que o de madeira. E o melhor: mais sustentável, do ponto de vista da preservação ambiental. Nesse aspecto, não só evita o desmatamento, como reaproveita materiais que levam longo tempo para se decompor no solo.

A ideia nasceu na cidade mineira de Timóteo, no Vale do Aço, numa pequena empresa especializada na reciclagem de cabos elétricos, que gera, como resíduo, as capas dos fios, na forma de vários tipos de polímeros. “Esse material era um problema. A gente pagava para depositar em aterro sanitário, punha na natureza um produto que demora muito para se decompor, sendo que poderia dar outra aplicação”, conta João Felipe Valadão, um dos engenheiros envolvidos no projeto.

A empresa também trabalha com o reaproveitamento de materiais como pneus, garrafas PET e plásticos oriundos de sacolas plásticas e outras embalagens. A solução encontrada foi comprimir os resíduos triturados numa prensa térmica e aglomerá-los com resina de poliestireno. “Usamos uma máquina simples que existe no mercado, e que, na verdade, nem é para essa função. Mas já estamos desenvolvendo um equipamento capaz de fazer a peça por inteiro, semelhante ao compensado de madeira, que é de 1,20m por 2,40m”, adianta.

Multiplicidade

Na Mostra Inova Minas, evento realizado em agosto de 2016 pela FAPEMIG, o produto foi apresentado como protótipo. O potencial de aproveitamento é amplo. “Inicialmente, focamos a construção civil, no que se refere à montagem de forros e escoramentos. Mas nada impede de fazermos um estudo para ver outras aplicações. Dá para fazer porta ou substituir blocos de concreto para muros de arrimo, pois ele não deixa passar umidade. Também há como usar como piso, principalmente, para caminhadas, já que ele absorve todo o impacto no chão”, enumera o pesquisador.

A lógica da reciclagem parece se multiplicar.

“Um dos principais focos da pesquisa, hoje, é a possibilidade de fazer a logística reversa. As empresas hoje não se preocupam em recolher o material que vendem. Eu te vendo o material que você usou na sua obra, acabou? Eu vou lá e reprocesso esse produto, fazendo novos compensados de borracha”, propõe o engenheiro de materiais Lucas Assis, também participante do projeto.

Testes

O compensado de borracha foi submetido a vários ensaios, como o de deformação permanente por compressão, no qual uma carga compressiva é aplicada, no corpo de prova, numa única direção, e o de dureza Shore, cuja medida se baseia na profundidade da penetração de uma esfera rígida na amostra. O material também passou por testes de resistência à abrasão, de tensão e alongamento de ruptura e de granulometria. Todas as análises foram feitas no laboratório cedido pela Faculdade Pitágoras, na cidade de Ipatinga.

O objetivo era analisar as propriedades mecânicas das amostras, tais como a resistência ao risco ou à formação de uma marca permanente, com base na tensão necessária para penetrar o material. Em todos os testes, os resultados obtidos com a borracha foram superiores aos observados nas chapas de madeira. Os pesquisadores afirmam que a resistência do compensado de borracha assemelha-se à do compensado naval, usado na fabricação de embarcações.

Tecnova

O projeto do compensado de borracha foi um dos 49 aprovados, em 2014, pelo Programa de Apoio à Inovação Tecnológica em Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Tecnova), parceria da FAPEMIG com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que investiu R$ 15 milhões no desenvolvimento de produtos ou processos inovadores. O programa também promoveu a capacitação das empresas em metodologias de gestão da inovação e outros temas voltados à inserção no mercado.