A pesquisa made in MG está ganhando o mundo e fazendo a diferença na produção científica mundial. Pesquisador da Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ), Fernando de Pilla Varotti ganhou o prêmio Biotech-Space Pesquisador do Ano 2016.

A indicação dos pesquisadores é realizada pela Rede de Pesquisadores em Biotecnologia Biotech-Space, composta por mais de 2.000 pesquisadores e estudantes da área.

O Prêmio foi instituído para promover o reconhecimento de pesquisadores e alunos que, com suas pesquisas, tenham contribuído de forma relevante à sociedade.

O objetivo é levar ao conhecimento do público e de empresas o nome de pesquisadores comprometidos em gerar descobertas fundamentais para que o Brasil aumente seu potencial inovador em biotecnologia.

Artigo em destaque

Além do prêmio, Varotti também teve um estudo em destaque no periódico especializado Chemical Biology & Drug Design. Seu artigo foi selecionado para estar na Escolha do Editor, na edição do mês de julho.

Os autores do estudo, Gustavo Viana, Fernando Varotti e Fabio Vieira

Também assinam o trabalho outros professores do Núcleo de Pesquisa em Química Biológica (NQBio) do Campus Centro-Oeste da UFSJGustavo Viana e Fábio Santos (foto).

O estudo teve, ainda, participação de outra instituição mineira, a Fundação Ezequiel Dias (Funed), e foi financiada com recursos da Fapemig

Clique aqui para ter acesso ao artigo na íntegra (em inglês).

O estudo abordou o desenvolvimento de novas moléculas bioativas contra células tumorais responsáveis por uma das formas mais agressivas do câncer de mama. A pesquisa publicada também tratou de como essas novas moléculas podem agir contra as células-tronco que agravam a doença.

Conversamos com o professor Fernando sobre sua carreira e a pesquisa que atualmente desenvolve na UFSJ.

Confira a entrevista:

MFC: Conte um pouco sobre sua carreira e trajetória como pesquisador. O que esses prêmios representam para você e como contribuem para o desenvolvimento das pesquisas?

Eu me formei em Ciências Biológicas pela USP, em São Paulo, em 1998. Fui motivado por um amigo de meu pai que havia se alfabetizado depois de adulto. Ele sempre me pedia para lhe explicar as matérias relacionadas a ciência dos jornais. Ao tentar transmitir aquelas informações para ele, eu mesmo ficava cada vez mais curioso. Não demorou muito para perceber qual curso eu gostaria de fazer.

Durante a graduação na USP, sempre me interessei por Parasitologia, em especial, por malária. Credito minha formação a duas mulheres muito respeitadas na ciência brasileira: professora Célia Regina da Silva Garcia, da USP,  e professora Antoniana Ursine Krettli, da Fiocruz de Minas Gerais.

Após a iniciação científica no laboratório da professora Célia Garcia, concluí meu mestrado no mesmo laboratório, trabalhando com a sinalização de cálcio em Plasmodium falciparum. Imagine a alegria de um jovem biólogo em poder fazer parte do trabalho de um grupo de pesquisadores nacionais, com artigos publicados na Nature Cell Biology, em 2000.

Ao final do mestrado, percebi que poderia utilizar os padrões de sinalização como uma ferramenta para a determinação do mecanismo de ação de antimaláricos. Para comprovar essa teoria, cheguei em Minas Gerais, no final de 2004, e comecei a trabalhar com a professora Antoniana Krettli, uma referência em malária e quimioterapia antimalárica, que acreditou na minha pergunta e me possibilitou cursar o doutorado sob sua supervisão.

Foi um período de grande aprendizagem e que auxiliou na minha consolidação como pesquisador. Concluí meu doutorado em 2008 e ingressei na UFSJ Campus-Centro Oeste, em 2009, onde montei o Laboratório de Bioquímica de Parasitos (LBP). Sempre trabalhei com a investigação do mecanismo de ação de novos candidatos a antimaláricos.

Nessa linha de pesquisa, fui premiado em 2010 com a Medalha Ruth Nussenzweig, como Jovem Pesquisador em Malária, na XII Reunião Anual de Pesquisa em Malária. Foi motivo de muita alegria e, ao mesmo tempo, de intensa responsabilidade para demonstrar que estava à altura da premiação.

Entre 2010 e 2011, o Laboratório de Bioquímica de Parasitos começou a trabalhar com uma segunda linha de pesquisa, as linhagens tumorais humanas de câncer, cedidas pela doutora Luciana Maria Silva, do Serviço de Biologia Celular da Fundação Ezequiel Dias. O que estava no roteiro era tentar descrever o mecanismo de ação de novos antimaláricos. Agora, havia uma responsabilidade ainda maior: descrever o mecanismo de novos potenciais antitumorais.

Assim, em 2012, o LBP passa a se chamar Laboratório de Bioquímica Medicinal (LBqM) e hoje trabalhamos com a descrição do mecanismo de ação de novos potenciais quimioterápicos para malária (a velha paixão) e o câncer.

Em 2017, recebi a notícia de ter sido escolhido como pesquisador do ano pela Biotech Space. Fui o primeiro pesquisador eleito fora do eixo Rio-São Paulo. Todos esses prêmios apenas demonstram para mim que estamos no caminho certo, e que tudo começou graças as explicações sobre ciências para um amigo.

MFC: O que é a Química Medicinal, sua área de atuação? As pesquisas têm interface direta com que outras ciências? Como os estudos podem vir a impactar a vida das pessoas?

Química Medicinal é uma área de pesquisa multidisciplinar que envolve conhecimentos de Química e de Biologia. Seu objetivo consiste no entendimento da doença, visando ao desenvolvimento de novos fármacos.

Por se tratar de um estudo multidisciplinar, a Química Medicinal pode envolver áreas como a Síntese Orgânica, Química Teórica, Farmacologia, Biologia Celular e Molecular, entre outras.

A integração dessas áreas visa contribuir diretamente com o desenvolvimento de novos medicamentos, mais seguros e eficazes, em substituição a tratamento antigos. Também oferece novas alternativas terapêuticas para doenças que até então apresentavam opções limitadas de tratamento.

MFC: Em que consiste a pesquisa que deu origem ao artigo em destaque e quais foram os resultados publicados? Por que acha que o paper chegou a ser escolhido como Editor’s Choice?

Detalhe da página do periódico em que o artigo foi destacado como escolha do editor

Projetos de pesquisa na área de Química Medicinal que visem consolidar em nosso país uma cadeia de produção competitiva, com investimentos na pesquisa, formulação e produção de compostos químicos para fins terapêuticos, são de extrema importância. Essas ações, além de fortalecer o conhecimento científico-tecnológico em áreas estratégicas, geram um impacto direto na redução da vulnerabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS).

Com o objetivo de consolidar e fortalecer um grupo multidisciplinar de desenvolvimento de fármacos na UFSJ, em 2014, foi criado o Núcleo de Pesquisa em Química Biológica da UFSJ (NQBio), liderado pelos professores Gustavo Henrique Ribeiro Viana (líder), Fabio Vieira dos Santos (vice-líder) e eu, Fernando de Pilla Varotti. Atualmente, o NQBio conta com a participação de outros professores da UFSJ e também pesquisadores de outras instituições, como UFMG, UFOP, CEFET-MG, UTFPR e UEL

Neste contexto, e contando ainda com a colaboração da pesquisadora Luciana Maria Silva, da Fundação Ezequiel Dias, nosso grupo começou a trabalhar com análogos sintéticos de alcaloides marinhos do tipo 3-alquilpiridínicos, sintetizados pelo professor Gustavo Viana, no Laboratório de Síntese Orgânica da UFSJ. Em 2011, publicamos o primeiro trabalho com estes compostos na Chemical Biology & Drug Design. A ação citotóxica foi comprovada no ano seguinte, em um trabalho publicado na Biomedicine & Preventive Nutrition.

Em 2014, em um artigo publicado na Marine Drugs, conseguimos descrever o modo de ação destes compostos em tumores humanos. Finalmente, em 2016, conseguimos demostrar a ação destes compostos em um modelo de câncer de mama mais próximo de uma situação real em pacientes.

Estes compostos mostram-se ativos contra células-tronco tumorais mamárias in vitro, demonstrando um futuro potencial terapêutico no tratamento no câncer de mama.

Imagem disponível no artigo

MFC: Como a pesquisa pode contribuir para a busca de melhores tratamentos ou cura de tumores cancerígenos?

Neste trabalho, utilizamos uma linhagem de câncer de mama triplo negativa, ou seja, um tipo de tumor agressivo que não expressa os biomarcadores mais comumente utilizados como alvo quimioterápico: os receptores de estrogênio, progesterona e a proteína HER-2.

Os compostos foram ativos contra esta linhagem, sendo efetivos até contra as células-tronco deste modelo. Com a melhor compreensão dos mecanismos de ação, atualmente em desenvolvimento pelo NQBio, estes estudos podem trazer novos detalhes e contribuir, no futuro, para um fármaco mais seguro e eficaz.

 MFC: Você atua principalmente com temas como quimioterapia e ação de compostos bioativos. Quais as tendências de pesquisas sobre esses temas? Para onde os estudos desse campo têm apontado?

Estes estudos, conduzidos pelo NQBio estão em concordância com os planos apresentados no documento intitulado Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) 2016-2019, do Ministério da Ciência e Tecnologia & Inovação (MCTI).

O documento estabelece quais as condições para o Brasil conseguir promover um salto no desenvolvimento científico e tecnológico, bem como elevar a competitividade de produtos e processos.

Além disso, a importância deste projeto encontra fundamento em um documento produzido pelo BNDES, em que os autores atestam que a indústria farmacêutica brasileira chegou ao que eles consideram um ponto de inflexão. Depois da bem-sucedida estratégia de crescimento baseada nos medicamentos genéricos e similares de síntese química, o acirramento da concorrência tem levado as empresas a buscarem alternativas para a manutenção de seus portfólios.

Nesse contexto, as políticas públicas de saúde vêm procurando induzir novas direções para a elevação da competitividade e o adensamento das cadeias produtivas no Brasil. Em particular, desde 2009, o BNDES vem apontando a Biotecnologia como a principal oportunidade no campo da indústria farmacêutica, com diversos trabalhos publicados no BNDES Setorial.

Diante deste cenário, e sabendo que a inovação é uma característica inerente às Universidades e Centros de Pesquisa no Brasil, a sustentação de uma cadeia produtiva no setor farmacêutico recai sobre a capacidade de inovação e desenvolvimento de novos produtos.