Com gostinho de ciência mineira

Financiados pela FAPEMIG, estudos avançados desenvolvidos em Minas garante uso eficaz e sustentável de fitossanitários, resultando em sabor, qualidade de vida e rentabilidade

Sabor de ascendência peruana, com uma pitada de tecnologia mineira. A descrição pode parecer estranha aos ouvidos, mas com certeza é bem familiar ao seu paladar. Seja frita, dourada e crocante, assada, recheada ou como primoroso complemento de saladas exóticas, em algum momento ela esteve em seu prato. A Solanum tuberosum, popularmente conhecida como batata inglesa (pela intensa prática de seu plantio entre as colônias britânicas no Brasil), conquista paladares nos quatro cantos do mundo e invade os pratos das mais diversas tradições, sendo hoje o quarto alimento mais consumido pela humanidade. O prazer gustativo, o baixo custo e a alta oferta de nutrientes da batata fizeram dela tão requisitada que se tornou impossível imaginar o mundo da gastronomia contemporânea sem sua existência.

Porém, o cultivo da batata carrega consigo uma reputação infame e é foco de polêmico debate em comunidades científicas de todo o mundo, devido a uma antiga questão: o grande volume de agrotóxicos que com os quais é bombardeada.  “É de conhecimento, da própria dona de casa que a batata é um dos alimentos que mais recebe aplicações de defensivos agrícolas”, comenta João Paulo Arantes Rodrigues da Cunha, professor e pesquisador do Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Determinado a mudar tal cenário, o professor criou a linha de pesquisa denominada Engenharia de Aplicação de Defensivos Agrícolas. Tendo por meta estabelecer uma estratégia de cultivo de batatas com menor exposição à agressiva reatividade dos venenos agrícolas, João Paulo Cunha formou uma equipe de pesquisadores determinados a desenvolver uma solução prática e ecológica para o obstáculo da conservação dos batatais. “A escolha da batata como objeto central da pesquisa se deu ante à importância do alimento na nutrição e na economia mundial e à sua expressividade na produção rural de Minas Gerais, contrastando com a necessidade de tornar sua cultura mais sustentável e econômica”, explicou o professor.

As pesquisas, que renderam ao grupo de pesquisadores o Prêmio Anual Gerdau: Melhores da Terra, em 2010 (a mais importante premiação em agronomia da América do Sul) culminaram em 48 publicações em periódicos científicos, além de diversas obras técnicas – com destaque para o livro Manual de aplicação de produtos fitossanitários, lançado este ano – e um site gratuito voltado à orientação à distância dos agricultores em geral. “Extremamente significativo para a extensão do ensino, pois obras especializadas nesse assunto agora são parte do cronograma estudantil do cientista agrário”, ressaltou o professor.

Extensões da pesquisa

A excelência alcançada pelos trabalhos da equipe de João Paulo Cunha permitiu a ramificação dos resultados para outros tipos de cultivo. Utilizando a mesma metodologia, pesquisas foram estendidas para a cultura de soja, milho, sorgo e café. “Hoje graças aos nossos estudos, agricultores podem explorar o potencial máximo de produção de suas lavouras usando a dosagem mínima de agroquímicos necessária,” explica Cunha. O pesquisador finaliza a entrevista com mais um toque instrutivo ao seu público, provando ser fiel ao seu dever: “o agricultor tem de entender que não estamos estabelecendo uma receita comportamental. Deve-se considerar que a situação varia muito, seja por região ou tecnologia disponível. O que oferecemos em nossas obras são embasamentos técnicos que servirão de referência para a tomada de decisões”, adverte.

Se você sempre acaba se entregando à sedução daquela batatinha frita, ou não consegue resistir ao aroma convidativo de um e cremoso purê, acredite: esses pratos não teriam o mesmo poder sem o empenho dos cientistas mineiros.

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