identidade da gente do campo na música sertaneja é tema de pesquisa desenvolvida no Departamento de Educação da UFLA (DED/UFLA).

O projeto de iniciação científica desenvolvido pelo estudante Eduardo Oliveira Moreira, sob a coordenação do professor Celso Vallin, traça um histórico da música caipira e sertaneja no Brasil.

O objetivo é levantar, junto a pessoas que têm afinidade com o estilo musical, aspectos que reforçam a identidade de quem viveu ou ainda vive no campo.

Sertanejo raiz e sertanejo universitário

Dentre as particularidades do sertanejo de raiz, podemos citar a origem do instrumento, sua afinação e o dialeto caipira.  A religiosidade, as histórias de viajantes, o trabalho com a agricultura e pecuária, a família e as paixões também são elementos presentes na música sertaneja.

Uma das impressões percebidas nas entrevistas com os participantes é de que o estilo sertanejo da atualidade, conhecido como sertanejo universitário, se distanciou muito da música caipira ou sertanejo de raiz.

Foram citados como referência de música sertaneja raiz artistas como Pena Branca e Xavantinho, Liu e Leo e Trio Parada Dura, entre outros.

“A música caipira tem como instrumentos base a viola e o violão e é cantada em duas vozes, em um dueto de terça. Nas letras, o retrato da vida no campo é uma característica essencial, com aparição rotineira de objetos como berrante, o saco de estopa, a enxada. A maneira de falar também é própria, com a simplificação das palavras e pronúncias do dialeto caipira, onde há, inclusive, rotacismos, como a pronuncia de ‘frô’ ao invés de ‘flor’”, explica o estudante.

 

Identidade do campo

A música caipira reforça a identidade da pessoa que vive no campo em contraposição aos modismos do meio urbano.

diferença entre urbano e rural é muito presente nas músicas caipiras, a exemplo da canção “Mágoa de Boiadeiro”, de Pedro Bento e Zé da Estrada, que mostra o campo sendo desvalorizado à medida que os centros urbanos avançam:

 

“As diferenças e conflitos entre urbano e rural também são levadas nas canções. O caipira é muitas vezes zombado e invisibilizado pelas pessoas da cidade. Por meio da música sertaneja, ele passa a ter a palavra pública, consegue mostrar e afirmar sua identidade, inclusive nos meios de comunicação”, ressalta o professor Celso Vallin.

As diferentes figuras da pessoa do campo também são retratadas de forma regionalizada, representando do vaqueiro ao sertanejo semiárido, por exemplo.

Influências da indústria fonográfica

A partir da década de 1960, com a forte inserção na indústria fonográfica, a música sertaneja passa a ter um caráter mais comercial, com novos arranjos, instrumentos e influência do estrangeirismo, como a música country americana.

Para os pesquisadores, foi a partir desse processo que a matriz musical caipira teve sua maior perda.

O professor Celso reforça a dificuldade de acesso aos novos aparatos pelo caipira, o que dificultava a composição popular:

“Antes, bastava a viola, um instrumento de fácil construção e acesso que, embora difícil de tocar, contava com uma transmissão do conhecimento entre as gerações. A incorporação de novos equipamentos e sintetizadores reduziu o acesso popular. A praticidade de se ouvir músicas pelo rádio também contribuiu para a perda do caráter de sociabilidade da música caipira, reduzindo aqueles momentos em que as famílias e grupos de pessoas se reuniam para ouvir as modas do violeiro”, explica o professor.

Tendo a viola como instrumento base, artistas como Almir Sater e Ivan Vilela criaram estilos próprios inspirados na música caipira, com valorização da vida no campo e com relativo espaço nos meios midiáticos:

 

Sertanejo universitário

O estudante Eduardo em foto de divulgação da UFLA

Um dos estilos musicais mais ouvidos da atualidade, o sertanejo universitário surge para atender ao mercado fonográfico, sem preocupação em retratar a vida no campo e transmitir a cultura do caipira.

Para o professor Celso, apesar de amplamente utilizado, o termo sertanejo universitário não seria o mais adequado para o estilo atual.

“Ele surgiu como uma forma de distinção entre os estilos musicais, mas apresenta dois pontos passíveis de crítica: não é universitário, pois não surgiu só dos universitários, e pode ser carregado de preconceitos, simbolizando uma elevação de categoria – o universitário acima do caipira”, frisa.

Apesar das mudanças, os pesquisadores concordam que ainda há espaço para a música caipira em rádios e festas locais. Eles reforçam sua importância para a preservação da identidade da pessoa do campo:

“A música caipira é construída popularmente e por isso é tão variada em ritmos, tipos de viola, dentre outros elementos, constituindo-se, dessa forma, em um processo e ritmo bem diferente do que se percebe na indústria fonográfica. É muito mais representativa do caipira. Vale enfatizar que o trabalho das rádios locais e dos festivais tem sido fundamental para preservar suas matrizes, culturais e musicais”, conclui Eduardo.

Com informações da Assessoria de Comunicação da UFLA.