Cansaço sem fim

Em livro, filósofo Byung-Chul Han debate o cansaço da sociedade contemporânea, aprisionada ao excesso de afazeres, à falta de autocontemplação e às dores psíquicas

Ciência na Estante

Paradoxos inatos às sociedades capitalistas ocidentais – a exemplo da dicotomia entre “explorador” e “explorado” – escondem outras tantas facetas da perda de liberdade em ambientes de convívio marcados por vasta competição e baixa cidadania.

Em Sociedade do cansaço, obra de Byung-Chul Han, professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim, tais territórios antípodas reverberam, conceitual e pragmaticamente, noções ainda mais tensas acerca do “homem como lobo do homem”.

Afinal, conforme destaca o autor: “Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos. Essa autorreferencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercitivas que lhe são inerentes, se transforma em violência”.

Para além dos obstáculos à integridade do corpo, a exemplo da pandemia global provocada pelo coronavírus, o autor problematiza violências neuronais nascidas, sem distinção, em diversos grupos sociais contemporâneas.

Em oito capítulos, Han discute temas como “O tédio profundo”, “Pedagogia do ver”, “O caso Bartebly”, “Sociedade do esgotamento” e “Tempo de celebração – a festa numa época sem celebração”.

Trecho

“Cada época possuiu suas enfermidades fundamentais. Desse modo, temos uma época bacteriológica, que chegou ao seu fim com a descoberta dos antibióticos. Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral. Graças à técnica imunológica, já deixamos para trás essa época. Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (Tdah), Transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a Síndrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções, mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade. Assim, eles escapam a qualquer técnica imunológica, que tem a função de afastar a negatividade daquilo que é estranho.”

O livro

Livro: Sociedade do cansaço
Autor: Byung-Chul Han
Editora: Vozes
Páginas: 128
Ano: 2017

Fot: Maurício Guilherme Silva Jr.

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