Estudo global aponta crescimento de invasões biológicas

O aumento foi de 20% a 30% de espécies exóticas invasoras. Esses números geram um alerta sobre a perda de biodiversidade

Lírio-do-brejo, muito usado como ornamental, também é espécie exótica invasora a Mata Atlântica. Foto: Arquivo do pesquisado

O cenário de invasões biológicas no mundo, atualmente, mobiliza pesquisadores na proposição de prevenção e controle. Estudo recente, publicado na revista científica Global Change Biology, liderado por cientistas da Universidade de Viena e que conta com pesquisadores de várias partes do mundo, mostra aumento de 20% a 30% de espécies exóticas invasoras. Esses números geram um alerta sobre a perda de biodiversidade no futuro. 

Espécies exóticas invasoras são aquelas não naturais ou nativas de uma região e que foram introduzidas por humanos de forma intencional ou acidental. É o caso do Aedes aegypt, dos javalis, do coronavírus, capim-gordura, mexilhão-dourado, abelha do mel, entre tantas outras espécies. Todas elas chegaram a um novo lugar associadas a alguma ação humana, acabaram se proliferando e geraram algum tipo de dano ou impacto negativo à saúde, agricultura, pecuária, ao equilíbrio ecológico.

CONHEÇA A HISTÓRIA DE ALGUMAS ESPÉCIES EXÓTICAS INVASORAS

Vilões da biodiversidade

O pesquisador do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Lavras (DBI/UFLA) Rafael Dudeque Zenni é o único brasileiro a participar do estudo publicado na Global Change Biology. Ele explica a relação entre perda de biodiversidade e espécies invasoras e relata o motivo pelo qual isso deve ser uma preocupação para a humanidade. “As invasões causam perda de espécies nativas do ecossistema ou perda das funções delas. É possível que haja perda de espécies que dispersam sementes ou que polinizam flores. Há ainda sumiço de plantas que serviriam de alimento para outras espécies. Isso reduz capacidade de produção dos ecossistemas”.

De acordo com o pesquisador, espécies invasoras estão junto com outros grandes vilões globais responsáveis pela perda de biodiversidade: mudanças climáticas, poluição e desmatamento. “Há um impacto das invasões biológicas que é a extinção de espécies nativas, ocorrendo um fenômeno de homogeneização de ecossistemas. Espécies são compartilhadas pelo mundo. Ocorre que, não importa onde você vá no mundo, acabará vendo os mesmos bichos e plantas por causa da perde de heterogeneidade ambiental”.

As espécies exóticas invasoras estão aumentando em diversidade e intensidade. “Sabe-se que 70% dos parques do Brasil têm invasões biológicas ameaçando a biodiversidade”, afirma o cientista. O estudo internacional, do qual ele participou, traçou algumas ações que poderiam ser tomadas com imediatas pelos poderes públicos.

Para um futuro próximo seria necessária a remoção de espécies exóticas invasoras em áreas mais importantes para conservação, além da tentativa de evitar a chegada de novas espécies. Cada país volta suas atenções a regiões de grande biodiversidade. “No Brasil, a maior preocupação é com a prevenção de invasões biológicas na Amazônia. É uma região com pouco registro de invasões em comparação com Sul, Sudeste e Nordeste do país. O Chile, por exemplo, tem preocupação especial com ilhas marinhas”, explica o pesquisador.

Invasão biológica de pinheiros (Pinus spp.) na Floresta Nacional de Três Barras, Santa Catarina. Da esquerda para direita: vegetação de campo com pequenas árvores de pinheiros de espalhando a partir de um plantio (ao fundo). No meio essas árvores já grandes e sobressaindo sobre a vegetação nativa e, à direita, após 10 anos de invasão os pinheiros cresceram e excluíram completamente a vegetação nativa. Foto: Arquivo do pesquisador

Trajetória da pesquisa

Rafael Dudeque faz parte de uma rede internacional de especialistas em invasões biológicas. Esses cientistas estão preparando um relatório global, que será o resumo do estado da arte sobre a temática, para ser publicado em 2023. O documento servirá como base para políticas públicas.

Dentro desse grupo de pesquisadores, há vários estudos em andamento e o professor da UFLA foi convidado por colegas da Universidade de Viena a integrar o estudo sobre o cenário de invasões biológicas para contribuir levando a perspectiva latino-americana. Rafael Dudeque respondeu a um questionário, assim como os outros especialistas, apontando as percepções dele sobre diferentes espécies invasoras (de marinhas a terrestres), além da interação com fatores globais, como mudanças climáticas e desmatamento.

Cada cientista respondeu ao questionário baseado em pesquisas desenvolvidas em suas regiões. “A abordagem é esta porque não existe ainda um modelo matemático preditivo que possa apontar cenários futuros. A melhor forma de trabalhar é achar um consenso da opinião de especialistas”, conclui.

Luana Cruz

Mãe de gêmeos, doutoranda e mestre em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Jornalista graduada pela PUC Minas. É professora em cursos de graduação e pós-graduação na Newton Paiva, PUC Minas, UniBH e ESP-MG. Escreve para os sites Minas Faz Ciência e gerencia conteúdo nas redes sociais, além de colaborar com a revista Minas Faz Ciência.

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