O saber não acontece no espaço vazio: o exemplo da covid-19

Distribuição socioespacial da doença expressa marcas das iniquidades sociais e reflete desigualdades na exposição ao vírus

*Artigo de Waleska Teixeira Caiaffa & Elis Borde

O Brasil é marcado por enorme iniquidade social configurada por vulnerabilidades concentradas em determinados espaços. Especialmente o espaço urbano caracteriza-se por tal segregação socioespacial. É neste contexto que literalmente aterrissa, entre fevereiro e março de 2020, o SARS-CoV-2, trazido, via de regra, pelas elites brancas urbanas.

Contrariamente à afirmativa de que a transmissão do vírus é democrática, a doença, principalmente em sua forma mais grave, se concentra em áreas vulneráveis. Neste sentido, não adoece qualquer indivíduo, de qualquer forma, em qualquer lugar e em qualquer momento. Além de replicar os padrões das iniquidades em saúde, amplamente documentados por diversas pesquisas da área da Saúde Coletiva, a distribuição socioespacial da covid-19 expressa as marcas das iniquidades sociais e reflete desigualdades na exposição ao vírus. Assim, nas relações de determinação social da covid-19, o espaço urbano não é apenas um pano de fundo ou um espaço vazio onde se dão as dinâmicas de transmissão e adoecimento.

No âmbito da pesquisa, isso implica em reconhecer as dinâmicas do (des)ordenamento socioespacial que se expressam no território urbano, levando à demanda de “espacializar” ou “territorializar” a saúde, a doença e a morte. Assim, além de envolver estratégias de georreferenciamento, esta necessidade impõe compreender os processos de adoecimento e morte de forma contextualizada e relacional, como parte das relações socioespaciais mais amplas, a partir da consideração das especificidades de cada espaço/território.

Nesta acepção, o próprio espaço urbano e sua (des)organização se tornam elementos centrais de análise, o que implica em construção de pesquisas futuras a partir de um referencial teórico-metodológico cada vez mais transdisciplinar e inclusão de dados de outros setores para poder explicar, de forma ainda mais abrangente, as desigualdades socioespaciais dos eventos em saúde (óbitos, internações, infecções) e compreender as dinâmicas de vulnerabilização no território que podem prejudicar a saúde e a vida de sujeitos e comunidades.

A pandemia se sobrepõe às ameaças à saúde, incluindo alto ônus de doenças não transmissíveis, outras doenças transmissíveis e altos níveis de violência, além da consolidação de uma crise sanitária, social e econômica do País, sem precedentes,  perpetuando e agravando as iniquidades em saúde. As respostas políticas têm se caracterizado pelo caos sistemático, marcado por estratégias de desinformação com sucessivas contradições nas orientações à população e respostas de caráter ideológico nas quais se boicota qualquer tentativa articulada de organização em nível nacional para o combate à pandemia.

Contrariamente à afirmativa de que a transmissão do vírus é democrática, a doença, principalmente em sua forma mais grave, se concentra em áreas vulneráveis. Neste sentido, não adoece qualquer indivíduo, de qualquer forma, em qualquer lugar e em qualquer momento.

Diante deste cenário, a ciência tem uma enorme responsabilidade, que não se resume ao importantíssimo desenvolvimento de tratamentos e vacinas, mas também envolve a compreensão das dinâmicas e dos impactos da pandemia. No contexto emergencial, algumas questões fundamentais têm sido negligenciadas nas pesquisas sobre covid-19. A “tirania do urgente” tem gerado um panorama em que pesquisas sobre a covid-19 que incorporam e exploram as dimensões das desigualdades sociais, em particular, as dimensões de gênero e raça, são escassas. As evidências emergentes de que estas características desempenham um papel expressivo na conformação dos riscos de doença, morte e outros danos destaca a importância da discussão e da análise destas dimensões. Pesquisas sobre esta e outras epidemias, como o ebola e a zika, apontam que a análise das dimensões das iniquidades é essencial para uma resposta mais coordenada e eficaz no enfrentamento das mesmas.

Neste contexto, atenção aguçada deve ser dada à recente preferência de pesquisas nas áreas tecnológicas (relevantes, sem dúvida), em detrimento daquelas que se fundamentam nas pesquisas epidemiológicas, notadamente as de cunho social e transdisciplinar, no sentido de inovar com qualidade, provendo informações científicas padronizadas e consolidadas com dados transparentes e de qualidade, notadamente no ambiente atual da infodemia, em que fake news comprometem o adequado esclarecimento às comunidades científicas ou de todos os setores da sociedade.

Somente assim, as políticas de transporte ativo e público, disponibilização de espaços verdes e moradias adequadas, bem como mudanças nos esquemas de trabalho e atenção ao trabalho informal e precarizado, acompanhadas de ações de controle da epidemia, podem levar em consideração a urgência de garantir equidade em saúde, justiça e direito à cidade e, fundamentalmente, à vida. Estratégias inclusivas, advogando pelo abarcamento de outros importantes atores, como arquitetos, urbanistas, engenheiros, gestores, entendendo que esses profissionais, em virtude do impacto de suas atividades, são de fato “profissionais de saúde”, certamente estarão contribuindo para o encontro de um “outro normal”, em que vida e saúde são as balas de prata almejadas.

* Waleska Teixeira Caiaffa é médica, professora titular de epidemiologia e saúde pública e coordenadora do Observatório de Saúde Urbana da Faculdade de Medicina da UFMG. Elis Borde é sanitarista, professora adjunta do departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG e pesquisadora do Observatório de Saúde Urbana.

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