Coronavírus e a qualidade de vida no trabalho em enfermagem

Enfermeiras assinam artigo sobre a importância da profissão, para além da pandemia

*Márcia dos Santos Pereira[1]

Nátalia Gherardi Almeida[2]

Carolina Teixeira Cunha[3] 

Letícia Gonçalves Figueiredo[4] 

Carla Aparecida Spagnol[5]

Kênia Luzia de Souza Araújo[6] 

Karolinna Diniz Pereira[7]

Imersas no desafio de enfrentamento da pandemia da doença Covid-19 causada pelo novo Coronavírus – SARS-CoV2, como docentes e profissionais de enfermagem, temos a oportunidade e possibilidade de promover reflexões importantes sobre o processo e as condições de trabalho na enfermagem.

O contexto de trabalho desses profissionais é marcado por vivências de dor, sofrimento e morte, associados a ritmos intensos de trabalho, jornadas prolongadas, trabalho em turnos, baixos salários, relações humanas complexas, falta de materiais e de recursos humanos, constituindo fatores estressores que podem levar ao adoecimento.

Apesar do que se conhece hoje sobre o processo de adoecimento laboral, ainda parece não ser suficiente para sensibilizar de forma significativa os governantes, e os gestores dos serviços de saúde, para que programem ações efetivas que garantam condições de trabalho adequadas e qualidade de vida no trabalho (QVT) dos profissionais de enfermagem.

Ano internacional da enfermagem

Em uma perspectiva ousada, iniciamos a nossa reflexão a partir da declaração da Organização Mundial da Saúde (OMS) que estabeleceu o ano de 2020 como o “Ano da Enfermagem e das Parteiras”. Nessa perspectiva, foi lançada uma campanha mundial denominada Nursing Now, em parceira com o Conselho Internacional de Enfermagem e os órgãos de classe de diversos países.

Talvez em um ato pensado fomos provocadas a fazer essa reflexão frente a essa campanha global e ao cenário internacional da Covid-19, com a intenção de sensibilizar os governantes e a sociedade sobre a importância desta profissão, para além da pandemia.

Oportunidade histórica

Sabemos que, nesse momento, falar em QVT na Enfermagem parece ser apenas proferir um discurso utópico. Mas, não é possível nos refugiarmos apenas no pragmatismo do cotidiano, esperando a tempestade passar. Não podemos perder a oportunidade histórica, precisamos nos tornar protagonistas de reflexões que tenham um potencial provocativo e transformador do processo de trabalho na enfermagem.

Quase 2,5 milhões de trabalhadores de enfermagem no Brasil não conseguem dar visibilidade e conquistar dignidade adequada para a essencialidade do seu trabalho. Dentre as profissões de saúde que têm presença na maioria dos serviços, a enfermagem é uma das únicas sem jornada de trabalho definida, regulamentada em lei nacional.

Além disso, no Brasil, pesquisas mostram as condições desfavoráveis para a prática da enfermagem, com forte incidência de desgaste dos trabalhadores comprometendo sua saúde e bem-estar, além da qualidade da assistência aos pacientes. As condições de trabalho, ou a falta destas, talvez sejam a face mais expressiva da baixa valorização da profissão.

Alternativas

Na literatura, autores ressaltam que a valorização humana, bem como a criação de oportunidades de desenvolvimento pessoal, tendo em vista as capacidades e potencialidades do trabalhador, favorece a QVT. Desse modo, o fortalecimento da identidade profissional e a valorização da enfermagem dentro dos serviços, nas instituições de ensino, nos espaços da sociedade e, por que não, na mídia televisiva e jornalística, torna-se essencial e importante ponto de reflexão.

No entanto, antes de mais nada, é preciso acolher esses profissionais, abrir um espaço de escuta para conhecer as suas reais necessidades e expectativas. Podendo ser traduzidas na forma de salários mais altos, valorização profissional e promoções, ou de forma mais prática, em decorrência do novo coronavírus, como necessidade de equipamentos de proteção individuais adequados, estrutura física segura para o desempenho das atividades, dimensionamento de pessoal adequado e delineamento de fluxos de atendimento, cooperação para o trabalho em equipes e apoio das lideranças.

Não seria esta pandemia o cenário propício para a enfermagem demonstrar ao mundo a sua força, o seu trabalho e a sua importância para a vida da humanidade?

Para ser protagonista da sua história, a enfermagem precisa, além de um “Ano comemorativo”, de reconhecimento diário, lideranças pró-ativas, representatividade nos mais altos cargos gerenciais e políticos, a fim de constantemente renovar a sua força como profissão. Façamos da superação da Covid-19 a nossa missão, o nosso holofote frente ao mundo e que a sociedade consiga nos enxergar com o devido valor quando tudo isso passar.

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1 Enfermeira. Professora Adjunta IV da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais.

2 Enfermeira. Consultora em gestão e saúde corporativa.

3 Enfermeira do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais.

4 Enfermeira do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais.

5 Enfermeira. Professora Associada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais.

6 Técnica de Enfermagem do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais.

7 Acadêmica do Curso de Graduação em Enfermagem da Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais.

 

 

 

 

 

 

 

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